11/04/2020

Rongorongo: um conjunto de signos que desafia a ciência

Foto Sylvia Leite - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAFoto domínio público - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAConta a tradição oral dos Rapa Nui - povo nativo de uma ilha chilena de mesmo nome, localizada na Oceania e conhecida por nós como Ilha de Páscoa - que o seu lendário fundador, Hotu Matu'a, chegou ali com 67 tábuas, um bastão e alguns outros artefatos repletos de gravações em baixo relevo, e que esses signos constituem uma escrita sagrada. Até hoje ninguém conseguiu descobrir o significado das inscrições e a suposta escrita ficou conhecida como rongorongo.

Alguns acreditam que, caso um dia seja decifrada, talvez possa esclarecer os mistérios que envolvem os moais - as estátuas gigantes de pedra que tornaram a Ilha de Páscoa conhecida no mundo inteiro. Outros são mais céticos e afirmam, com base em pesquisas científicas, que as inscrições não contêm nenhuma mensagem por não constituírem uma escrita.

As dúvidas sobre os símbolos indecifráveis começam pelo nome. Embora rongorongo seja a palavra usada atualmente pelos habitantes de Rapa Nui (ou Ilha de Páscoa) para se referir a esses signos, alguns afirmam que se trata de uma denominação tardia, com o significado de recitar, declamar ou cantar. O nome original talvez tenha sido "kouhau ta", ou bastões escritos, e a expressão "rongorongo" pode ser uma redução de "kohau motu mo rongo rongo" que significa as linhas de inscrição para recitação.

Há dúvidas também quanto ao número de artefatos. Enquanto a lenda menciona 67 objetos inscritos, os estudiosos afirmam que foram encontrados apenas 25 (há quem conte 26 ou 28)*. Os que falam em 25 artefatos, afirmam que eram 21 tábuas, uma estatueta de homem pássaro** e três reimiros -espécie de pingentes em forma de meia lua. Havia, ainda, um bastão, que pode ter sido, segundo alguns pesquisadores, o suporte original das inscrições - modelo de todos os outros - como parece indicar o provável nome inicial "kouhau ta", ou bastões escritos (parágrafo anterior). Os signos rongorongo foram encontrados, ainda, em livros improvisados, provavelmente escritos no fim do século 19, e começo do século 20, mas esse material era considerado pelos islenhos como uma forma inferior de escritura.

Foto Easter Island Rongorongo - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO que se sabe sobre o rongorongo

Embora ninguém tenha conseguido, até hoje, decifrar o significado completo das inscrições, há algumas descobertas importantes sobre elas.
Foto Sylvia Leite - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIASabe-se, por exemplo, que foram gravadas na madeira com lascas de obsidiana ou dentes de tubarão e que são compostas por formas facilmente identificáveis como seres humanos, animais - especialmente tartarugas, peixes, moluscos e pássaros -, anzóis, remos, meias-luas e figuras geométricas. Todas

Os 25 (ou 26 ou 28) objetos de madeira conhecidos contêm juntos mais de 300 linhas escritas com um total superior aos 14 mil glifos (há quem dê um número preciso de 12.467 signos). Muitos deles estão repetidos, como mostram os estudos de Alfred Métraux Thomas Barthel, para quem as inscrições rongorongo reúnem 120 elementos básicos que, combinados, formam de 500 a 2 mil signos compostos.

Cada um desses artefatos tem seu próprio nome. Muitos deles são palavras do idioma Rapa Nui, como Keiti ou Mamari, mas, curiosamente, alguns trazem referências cristãs, certamente por influência dos colonizadores  O bastão, por exemplo, chama-se Bastão de Santiago. É o artefato com maior número de signos - cerca de 2.300 - e, provavelmente, o mais antigo entre os conhecidos.

Foto autor desconhecido - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAAlguns estudiosos acreditam que cada signo rongorongo represente uma ideia ou objeto, não configurando, portanto, letras ou sílabas, o que os faz concluir que não se trata de uma escrita, sendo no máximo uma proto-escrita, como é o caso do quipu (ou quipo) dos Incas, ou um rudimentar sistema de escritura fonética que funcionaria como um recurso para recordar dados, como ocorre com as contas do rosário.

Algumas luzes sobre os signos


Uma das descobertas mais significativas sobre esse sistema de glifos diz respeito à sua disposição. A leitura das tábuas é feita de baixo para cima e da esquerda para a direita. Até aí, nada de tão especial. O surpreendente é que cada linha está invertida em relação à anterior, obrigando o leitor a fazer seguidos giros de 180º na tábua, ou outro suporte, para poder prosseguir. Por causa disso, esse sistema da escrita, ou proto-escrita, foi denominado bustrofedón em alusão ao movimento feito pelos bois ao arar a terra.

Constatou-se, ainda, a partir de relatos de nativos, que o rongorongo era um sistema conhecido apenas por um pequeno grupo de iniciados - provavelmente formado por reis e sacerdotes e denominado tangata rongorondo ou maori rongorongo -, constituindo assim um conhecimento particular transmitido somente em escolas especiais. Alguns acreditam que os detentores desse conhecimento estavam entre os ilhéus escravizados pelos peruanos, em 1862, e que nunca retornaram a Rapa Nui. Segundo guias locais, no entanto, alguns alguns deles chegaram a voltar, mas estavam doentes de hanseníase e, por isso, não tinham contato com o resto da população - o que fez o conhecimento do rongorongo se perder, talvez para sempre.
Foto autor desconhecido - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

A descoberta do Rongorongo pelos colonizadores


Foto autor desconhecido - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAAs tábuas e outros artefatos com inscrições em rongorongo foram descritos pela primeira vez pelo francês Eugène Eyraud - um frade leigo da Congregação do  Sagrado Coração de Jesus e de Maria que chegou à ilha em janeiro de 1864 com a missão de evangelizar os nativos e permaneceu ali por nove meses, tornando-se o primeiro ocidental a viver em Rapa Nui, ou Ilhade Páscoa.

Em seus relatos, Eyraud contou que em todas as casas de nativos havia tábuas e paus cobertos por caracteres hieroglíficos. Disse, também, que os moradores da ilha pareciam dar pouca importância àqueles objetos, o que lhe fazia crer que eles apenas mantinham o hábito de fazê-los, mas não conheciam e nem se interessavam em buscar seu significado.

Sua menção às inscrições passou desapercebida pelos europeus. Somente quatro anos depois é que as tábuas de rongorongo começaram a ser procuradas pelo padre Hippolite Roussel, a pedido do bispo doTaiti, Florentin-Étienne "Tepano" Jaussen, que tinha tido acesso casualmente a uma delas. Roussel encontrou apenas algumas tábuas e não conseguiu localizar ninguém que soubesse traduzi-las de forma convincente. 

Foto Jacques B.M.self -made public domain - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAOutras tentativas foram feitas, tanto de encontrar novas tábuas, como de decifrá-las. A busca por  artefatos teve algum sucesso e foi assim que se chegou ao número de 25 ou 26 ou 28, mas as iniciativas de tradução foram todas frustadas. Cada nativo dava um significado diferente para a mesma tábua e houve o caso de um Rapa Nui que leu a mesma inscrição em três dias diferentes e, a cada vez, atribuiu ao texto um novo significado. 

O fato de não haver quem traduza os glifos de maneira convincente e de não existir qualquer referência a esses artefatos - por parte de colonizadores -  antes dos relatos de Eugène Eyraud, leva alguns estudiosos a suporem que rongorongo é um sistema recente, criado pelos Rapa Nui por influência dos espanhóis, com quem assinaram um tratado de anexação da ilha. O tratado teria sido assinado por vários chefes locais com caracteres diversos, alguns deles semelhantes a símbolos rongorongo (imagem acima).

Mas há quem conteste essa versão afirmando, inclusive, que, ao descobrirem as inscrições, alguns colonizadores ordenaram a sua destruição como forma de dar fim à crença pagã dos nativos. Caso isso tenha realmente ocorrido, pode sugerir que os colonizadores reconheciam a origem anterior dessas inscrições e acreditavam inclusive em sua relação com as crenças locais. 

A discussão é longa, e cheia de detalhes, sobre os mais diversos aspectos das inscrições. Alguns defensores da tese de que rongorongo é um sistema nativo e anterior à chegada dos colonizadores, ressaltam a qualidade da escultura e a preocupação em fazer correções nos signos, o que atestaria o profissionalismo dos escribas. Outros acreditam que a maioria das inscrições narram mitos de criação. E há ainda os que classficam pelo menos alguns artefatos como tabelas astronômicas. A tábua Mamari, por exemplo, seria um calendário lunar.

Gráfico de radiestesia com inscrições de rongorongo - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O Rongorongo como instrumento de proteção 


A variedade de teses sobre o Rongorongo vai ainda mais longe. Para radiestesistas seguidores do francês André Belizal, as tábuas de
Detalhe gráfico de radiestesia com inscrições de rongorongo - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Rapa Nui são uma espécie de neutralizadores contra efeitos de radiações nocivas emanadas pelos moais - as famosas estátuas gigantes de pedra que converteram-se em um famoso símbolo da ilha.

De acordo com esses radiestesistas, os moais eram esculpidos em proporções tais que provocavam a de emissão de ondas nocivas capazes de baixar a vitalidade de eventuais invasores antes que eles se aproximassem da ilha, pois seu alcance podia atingir até .....oceano adentro. Os ilhéus que precisavam circular perto dos moais, usavam as tábuas na cabeça, presas aos cabelos, a fim de se proteger das radiações.

Entre as radiações que seriam emitidas pelos moais,  há uma que é reconhecida e estudada apenas pela radiestesia e recebe o nome de verde negativa. Essa radiação teria importantes propriedades terapêuticas, mas, em grandes quantidades, estaria relacionada inicialmente a baixa de vitalidade e, em um segundo momento, a doenças crônicas e degenerativas.

Em Rapa Nui, não se ouve falar nas supostas propriedades dos moais nem na função neutralizadora das tábuas, e as pessoas questionadas sobre o tema negam com firmeza, acrescentando que já foram inventadas várias histórias absurdas sobre a ilha e seus moais, mas os caracteres de pelo menos uma tábua de rongo rongo - denominada Keiti*, que teria sido destruída na Segunda Guerra Mundial  (foto 9) - são usados por esses radiestesistas como neutralizadores de radiações emitidas por outras fontes, inclusive os aparelhos eletrônicos, e esse uso pode ser constatado em a rápida busca na internet.

Foto Sylvia Leite - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Rongorongo: um importante elemento cultural


Apesar de ser pouco divulgado no resto do mundo - provavelmente ofuscado pelo carisma dos moais - , o sistema rongorongo encontra-se hoje entre os principais valores culturais da ilha. Parece unanimidade, entre os nativos, o reconhecimento desses signos como uma escrita ancestral que constitui parte significativa da identidade Rapa Nui.

Não é fácil localizar em Rapa Nui - ou Ilha de Páscoa - pessoas que tenham informações mais profundas sobre as inscrições, mas talvez seja ainda mais difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar em rongorongo ou que nunca tenha visto uma reprodução das famosas tábuas.  Suas inscrições são reproduzidas livremente pelos artesãos e vendidas por preços bastante elevados em lojas e centros de turismo.

Os signos, ainda que estilizados, estão também na decoração de todo tipo de construção: desde espaços públicos, como as vidraças e paredes do aeroporto, até paredes de casas, hotéis de restaurantes.

Foto Sylvia Leite - Matéria Rongorongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


* Alguns falam em 24, outros em 26. A informação sobre 25 artefatos é do livro Isla de Pascua, Isla Tierra, de Paul Bahn e John Flenley.


*** ()



Rongo Rongo - Rapa Nui / Ilha de Páscoa - Terrirório do Chile - Oceania


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:

(1, 4, 11, 12/13/14) Sylvia Leite
(2) Domínio Público
(3) Foto Easter Island Rongorongo
(5,6,7) Autor desconhecido, via rongorongo.org - wikimedia commons
(8) 
(9, 10) Gráfico de radiestesia com inscrições de rongorongo


Participação especial: 

Mónica Guimarães



Referências:

Museu Antropológico Padre Sebástian Englert

Livros:


Isla de Pascua, Historia del Pueblo Rapanui, de Catherine e Michel Orliac.

Isla de Pascua, Isla Tierra, de Paul Bahn e John Flenley.

Los Ancestros de RapaNui,  La Guía del Museo Antropológico Padre Sebastián Englert.

Ensaio de Radiestesia Vibratória, de L. Chaumery e A. de Bélizal

Artigos:

Lunar calendar in rongorongo texts and rock art of Easter Island, de Paul Horley, no Jornal da Sociedade de Oceanistas.

Astronomical Content in Rongorongo Tablet Keiti, de M. Wieczorek R., no Jornal da Sociedade de Oceanistas.

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