25/04/2019

Goa: um pedaço da Índia com pitadas de Portugal e do Brasil

Quem diria que em plena Índia - onde é normal vacas andarem pela rua, homens usarem turbantes e
pessoas serem transportadas em riquixás -, seria possível encontrar igrejas católicas*, casas em estilo colonial e lugares com momes tão familiares como Rua de Natal, bairro São Tomé ou Casa Couto? E que para completar o estranhamento, você ainda poderia ouvir do motorista do táxi que o avô dele fala português? Assim é Goa - o menor estado do país em território e o quarto menor em população, localizado em sua costa Oeste.

A influência portuguesa em todo o estado e, especialmente, na capital Panaji (Pangim em português), é fruto de um domínio de aproximadamente 450 anos e vai muito além da arquitetura e de moradores mais antigos que preservam o idioma - menos de cinco por cento da população. O português está presente no sobrenome de muitas famílias, em cartazes de lojas e até na celebração das missas, pois apesar da religião predominante ser o Hinduísmo - cerca de 30% -, ainda há um grande número de católicos na região - aproximadamente 8% -, o que faz do Cristianismo a segunda maior religião do estado, na frente do Islamismo e do Janismo que já foram predominantes em determinados momentos históricos.

Nossa sensação de familiaridade com Goa pode se intensificar ainda mais em alguns pontos, como os restaurantes com cardápios em Português, ou igrejas consagradas a Santa Catarina ou a Nossa Senhora da Imaculada Conceição. O não conseguimos reconhecer como nosso e nem como indiano pode ser creditado à longa história do lugar, que começa antes de Cristo e agrega muitas outras influências, tanto culturais como religiosas.

Uma Goa milenar


Não se sabe exatamente quando Goa surgiu, mas algumas pinturas rupestres encontradas na região são consideradas os vestígios mais antigos de vida humana na Índia, o que pode indicar que esse pequeno estado deu inicio à povoação do país.

No século 3 Antes de Cristo, Goa pertencia ao Império Mauria - um dos maiores do mundo na Idade do Ferro - e, nesse período, que durou cerca de 200 anos, viveu sob duas orientações religiosas distintas e sucessivas: o Jainismo e o Budismo. Nos séculos seguintes houve uma sucessão de mudanças de poder, com consequente introdução de outras religiões como Islamismo e Hinduismo.

O período Ocidental só teve inicio em 1510, quando os portugueses tomaram Goa do sultanato de Delhi, que havia anexado a região dois séculos antes, e instalaram ali a sede do Estado da Índia Portuguesa, formada por Goa , Daman e Diu e Dadra e Nagar Haveli . Quando o restante do país tornou-se independente, em 1947, passou a reivindicar a posse desses territórios, mas a retomada só aconteceu em 1961, em uma ação do exército indiano que ficou conhecida como Operação Vijay (que significa "Vitória").

Durante a maior parte do domínio português em Goa - e nesses outros territórios - o restante da Índia vivia sob o poder do império Britânico e essa talvez seja pelo menos uma das razões pelas quais o temperamento do Goes difere em muitos aspectos dos outros indianos. Um reflexo disso pode ser observado no rol de festas populares, que incluem Natal, Páscoa e Carnaval.

O Diwali em Goa


Se alguns aspectos de Goa nos dão a impressão de que estamos em Portugal, ou até mesmo no Brasil, há momentos em que o lugar assume inteiramente a sua condição de estado indiano, onde a maioria da população é adepta do Hinduísmo. Uma dessas ocasiões é a realização de uma festa realizada entre outubro e novembro, conhecida como Festival das Luzes ou Diwali (que significa fila de luzes).

O propósito da celebração, que acontece anualmente em todo o país, na noite mais escura do outono, é comemorar a vitória do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas e da sabedoria sobre a ignorância. E seu caráter é semelhante às celebrações do ano novo no Ocidente, por marcar o fim de um ciclo e o início de outro.

É o momento de pedir à deusa Lakshmi, da riqueza, que traga saúde e prosperidade para todos, e de comemorar a destruição do demônio Narasur pelo deus Krishna** para que as pessoas e as cidades fiquem livres das más influências.

Embora as referências citadas sejam todas hinduístas, adeptos de praticamente todas as religiões participam do ritual, cada grupo à sua maneira, com narrativas próprias, mas guardando pelo menos um ponto em comum - o uso de luzes por toda parte.

Em Goa, além das luzes, o Diwali tem uma particularidade: na madrugada que antecede o dia mais importante da festa, imagens do demônio Narasur são destruídas em rituais que lembram a queima de Judas no Brasil.

A Goa moderna


Simultaneamente às antigas tradições indianas e portuguesas, Goa tem aspectos de modernidade que atraem viajantes do mundo inteiro e acabam reforçados por esse intercâmbio. A concentração de todo esse movimento está nas praias que nas décadas de 1970 e 1980 fizeram parte da rota dos mochileiros hippies. Muitas histórias se conta sobre o comportamento libertário dessa época.

Atualmente, uma grande parte dos visitantes de Goa é ligada aos esportes de aventura que envolvem carros e motos. Da era hippie restaram as festas, hoje animadas por um ritmo nascido naquela época - o Goa Trance

Derivado do Trance europeu, mas enriquecido com elementos orientais e originários de diversas etnias, o ritmo goes é considerado uma música de dança psicodélica por proporcionar maior harmonia com a natureza e estimular estados meditativos.

O turismo, com ajuda da mineração -  ferro, bauxita, manganês, calcário, sílica e argilas -, faz desse pequeno território o estado mais rico da Índia, com o um PIB per capita duas vezes e meia maior que o do país como um todo. E, ainda assim, visitar Goa pode ser uma das experiências mais tranquilas que se pode ter em um destino à beira-mar, com direito a uma atmosfera mística e a coqueirais que lembram os do Brasil.

*As Igrejas católicas de Goa são listadas pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade.

** Esta é a narrativa dominante em Goa. Existem outras, dentro do próprio Hinduísmo, que envolvem distintos personagens, além das que são adotadas por adeptos de outras religiões.


Goa - Goa - Região Costeira do Conca - Índia


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 


Fotos:
(Foto 1)  Mittal Patel / Pixabay 
(Foto 2) Adam Hill / Pixabay 
(Foto 3) Vivek Chugh / Pixabay
(Foto 4, 5, 6 e 7) Sylvia Leite
(Foto 8)  aakka aakka / Pixabay 




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