03/12/2020

Pirenópolis: história e cultura no Planalto Central

Foto Marcos Vinicius Ribeiro dos Santos - Matéria Pirenópolis - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Por fora, a Serra dos Pireneus, que deu nome à cidade. Por dentro, um casario colonial do século 18, que nos traz a memória do Ciclo do Ouro. Para completar, a cidade é palco de uma importante manifestação popular – a Festa do Divino Espírito Santo. E como se isso não bastasse, guarda muita história. História e também histórias – aquelas que antigamente eram grafadas com a letra ‘e’ (estórias) e que sempre foram tidas como ficção. Assim é Pirenópolis, uma pequena cidade histórica localizada no interior de Goiás, em pleno Planalto Central do País, como diria Caetano Veloso.

Algumas vezes, a realidade e as lendas
Foto Marcos Vinicius Ribeiro dos Santos - Matéria Pirenópolis - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
se misturam. Outras vezes, é difícil identificar o que é uma ou outra e, em muitos casos, essa diferença não importa tanto. Vamos começar pelo nome da cidade, aparentemente estranho para um lugar tão brasileiro, mas com uma razão de ser: ocorre que, no século 18, a região foi habitada por espanhóis, que batizaram a serra com o nome de Pyreneus – o mesmo das montanhas que separam seu país da França. Segundo alguns, os espanhóis viam semelhança entre a serra daqui e a de lá. Outros acreditam que o nome foi usado por puro saudosismo. O fato é que, por causa do batismo da serra, surgiu o nome Pirenópolis, que significa cidade dos Pyreneus (ou Pireneus).

Ao ser fundada pelo minerador português Manoel Rodrigues Tomar (Manoel Rodrigues Tomás, segundo alguns historiadores), a atual Pirenópolis recebeu o nome de Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte. Assim como o segundo nome, esse primeiro também tinha uma razão de ser: é que havia muito ouro nas margens do Rio das Almas – o curso de água que banha a região – , e, durante várias décadas, a cidade foi um importante centro minerador. Não fossem os espanhóis, a cidade poderia ter mantido esse nome até hoje porque, embora o ouro tenha acabado há mais de dois séculos – e o turismo tenha alcançado um grande espaço na economia – , até hoje a cidade mantém uma importante atividade mineradora – só que agora é de quartzito, e, em menor escala, de calcários, pedras ornamentais, argila e areia.

Foto Marcos Vinicius Ribeiro dos Santos - Matéria Pirenópolis - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


Patrimônio arquitetônico



Do período colonial, ficou a arquitetura barroca que levou ao tombamento, pelo Iphan, de mais de um terço da área total do município. A cidade tem um traçado irregular, adaptado do terreno, com ruas estreitas e casas relativamente simples, pelo menos se comparadas a outras cidades históricas brasileiras.

Foto Marcos Vinicius Ribeiro dos Santos - Matéria Pirenópolis - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Na arquitetura religiosa, destaca-se a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, erguida a partir de 1732 pela Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento. A primeira capela foi construída com alicerces de cantaria (alvenaria de pedra), paredes em taipa de pilão (barro socado) e as torres em adobe (tijolo de barro cozido ao sol). Nesses quase 300 anos, a igreja passou por ampliações, reformas e até um longo e polêmico trabalho de restauro, depois de um incêndio que atingiu o telhado e praticamente todo o interior da igreja.

Embora tenha provocado grande destruição física, o incêndio resultou em uma construção social. No lugar do altar-mor consumido pelas chamas, foi colocado o altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que havia ruído algum tempo antes do incêndio. E assim, uma segregação criada na época colonial – quando os negros foram obrigados a construir uma segunda igreja da mesma santa por serem impedidos de entrar na matriz destinada aos brancos – foi simbolicamente encerrada com a junção das duas igrejas.

Divino, Cavalhadas e Mascarados
Foto Marcos Vinicius Ribeiro dos Santos - Matéria Pirenópolis - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


Pirenópolis preservou, ainda, Festa do Divino Espírito Santo – uma tradição inspirada em festejos medievais da Europa e trazida pelos colonizadores não apenas para Goiás , mas para vários outros estados brasileiros*. A origem dessa celebração estaria em uma promessa feita pela rainha Isabel de Aragão, que foi canonizada pela igreja como Santa Isabel. 

Inconformada com a inimizade entre o marido, o rei Dom Dinis, e o filho do casal, Dom Afonso –
Foto Mauro Cruz - Matéria Pirenópolis - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
porque o pai queria deixar como herdeiro do trono seu filho bastardo Afonso Sanches – , ela prometeu viajar pelo mundo arrecadando donativos para os pobres e usando uma cópia de sua coroa com uma pomba em cima, caso os dois fizessem as pazes. Acredita-se que graças a essa promessa, deixou de ocorrer uma anunciada batalha que ficou conhecida previamente como Peleja de Alvalade.

As comemorações pelo suposto entendimento entre pai e filho eram feitas na Europa , especialmente em Portugal, 50 dias depois do domingo de Páscoa, durante a celebração de Pentecostes – a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, Maria e seguidores de Jesus. A data permanece no Brasil e
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corresponde, na maioria dos casos, ao encerramento dos festejos.

Em Pirenópolis, a festa tem duração de 12 dias e envolve inúmeros elementos: as folias que levantam fundos para a festa, além de novena, procissão e missa. Tem, ainda, apresentações de grupos folclóricos, especialmente  as cavalhadas e os mascarados, que já se tornaram sinônimo da Festa do Divino em Pirenópolis. Os primeiros representam a luta entre cristãos e mouros – um tema bastante presente na Península Ibérica, durante a Idade Média. Acredita-se que os mascarados também podem ter raízes em Portugal, mas há quem afirme elas estão na África e as razões de sua existência são ainda menos conhecidas. 

Na opinião de muita gente, os mascarados fazem a alegria da Festa do Divino. São moradores da cidade, ou turistas, que se fantasiam com roupas coloridas, usando máscaras de todo tipo – principalmente de papel machê ou de pano – , para não serem reconhecidos. Eles saem pelas ruas, à pé ou a cavalo, brincando com as pessoas, pedindo dinheiro e fazendo bagunça. Qualquer um pode participar, basta se fantasiar e sair pelas ruas, mas para ser mascarado autêntico, é preciso ter flores de papel na fantasia ou no cavalo.

Ao especularem sobre a razão de ser dos mascarados, alguns dizem que a manifestação foi criada para espantar os maus espíritos, como ocorre com mascarados ou monstros de outras manifestações populares pelo mundo afora, mas há quem diga que foi uma espécie de protesto social porque na época somente os ricos podiam tornar-se cavaleiros. E em sintonia com essa versão, muitos mascarados atuais aproveitam o anonimato para fazer protestos políticos.

Pirenópolis –  Goiás – Planalto Central –  Brasil –  América do Sul


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos:

    (1,2,3,4,5) Marcos Vinicius Ribeiro dos Santos (Marcosviniciusrs ou Mastrodivino)
    (6,7) Mauro Cruz

    Referências:

    Site da Prefeitura de Pirenópolis
    Site do Iphan

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