10/01/2019

Teotihuacan: um enigma a ser decifrado

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - matéria sobre Teotihuacán - Foto Piabay
Pirâmide do Sol
Quem já ouviu falar em Teotihuacán, provavelmente sabe que os monumentos mais conhecidos desse sítio arqueológico são a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua - o que nos leva a crer que seus construtores tinham ligações com a astronomia ou com a astrologia. Embora isso não esteja de todo incorreto, ao pesquisar um pouco mais descobre-se que os nomes das pirâmides não são originais -foram dados pelo padre franciscano Bernardino Sahagún, no século 16 - e há indícios de que o grande tema daquela civilização talvez fosse outro: a água.

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Pirâmide da Lua
As evidências começam nas próprias pirâmides, que teriam sido erguidas em homenagem ao deus da umidade, dos raios e das tormentas (Tlaloc), e a sua esposa, Deusa dos lagos e das correntes de água (Chalchiuticue).  

A preocupação com o tema aparece na própria estrutura da cidade, que conta com vários dispositivos para coleta de água da chuva denominados pluviuns, e também em sua decoração, seja nos desenhos esculpidos em pedra ou nas pinturas murais.

O friso da Pirâmide do Sol, por exemplo, é denominado Cinturão de Chalchihuites (pequenaos círculos que simbolizam a água). No conjunto arquelógico Tepantitla, um dos conjuntos habitacionais que restaram em Teotihuacán, encontram-se duas pinturas murais com referências à água.

A primeira, em Tepantitla I, é conhecida cmo "Mural de Tlalocan" ou "Paraíso de Tlaloc" em alusão ao lugar para onde iam as pessoas que morriam vítimas de raios ou da água. A parte de cima do painel mostra uma deidade com água escorrendo de suas mãos e, na parte de baixo, pessoas comuns que realizam tarefas relacionadas à água. 

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - matéria sobre Teotihuacán - Foto INAH Divulgação
Tepantitla I - "Paraíso de Tlaloc"
No painel de Tepantitla II, sacerdotes enfileirados portam chapéus que representam o deus-crocodilo Cipáctil e seguram serpentes adornadas com motivo aquáticos.

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Tepantitla II - Sacerdotes com adornos alusivos ao deus-crocodilo
O Museu dos Murais Teotihuacanos "Beatriz de la Fuente", localizado na própria  Teotihuacán também reúne pinturas com essa temática. Em um dos murais, vemos uma concha rodeada de ondas do mar. No outro, jaguares em procissão expelem água pela boca. Um terceiro painel mostra as mãos do deus Tlaloc aparando gotas de água. Há quem afirme que a imagem sugere escassez e que isso talvez explique o declínio da cidade, versão contestada pelo fato de Teotuhuacán estar localizada sobre uma bacia hidrográfica natural, a menos de 50 km da Cidade do México. 

Teotihuacán 


BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - matéria sobre Teotihuacán - Foto Museu Nacional de Antropologia Divulgação
Deus da chuva - Museu Nacional
de Antropologia  - Cidade do México
Muitas outras dúvidas envolvem a história desse sítio arqueológico, a começar pelo nome. Teotihuacán significa Cidade dos Deuses na língua Nahuati  (ou Náuatle) falada pelos Astecas, que ocuparam o local depois do seu declínio e abandono. Eles a batizaram assim porque acreditavam estar em uma cidade sagrada construída por gigantes. 

Grande parte das informações que temos hoje sobre Teotihuacán, nos foi fornecida por essa civilização pré-colombiana, que demonstrava ter algum conhecimento sobre a cidade e a civilização que o ergueu. Ainda assim, os dados são imprecisos e, em alguns casos, contraditórios.

O nome original da cidade, por exemplo, é uma interrogação. Consta que, em algum momento, a cidade foi batizada como Tollan, o mesmo dado, em certo momento, à cidade mexicana que hoje é conhecida por Tula. Assim como Teotihuancán, ambas são palavras do idioma Nahuati e significam lugar dos tules, que é uma espécie de árvore aquática - o que reforça a suposição de que a civilização de Teotihuacán tivesse uma forte ligação com a água -  mas nada garante que não tenha havido um nome anterior.

A data de fundação continua imprecisa. Alumas versões coincidem ao afirmar que ocorreu antes da era Cristã, mas há uma divergência nas datas que podem oscilar em quase 300 anos. Outros defendem a tese de que a construção só foi iniciada no século 1.  

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Concha com ondas - Museu dos Murais de Teotihuacán
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Jaguares expelem água pela boca - Museu dos Murais de Teotihuacán
Até hoje não se sabe, também, quem foram os construtores de Teotihuacán. Os Totonacas reivindicaram a autoria da cidade e tudo indica que sua versão foi confirmada pelos Astecas, mas não há consenso sobre isso. Alguns acreditam que o lugar pode ter sido erguido e habitado por uma civilização multi-étnica. 

Mesmo a ligação da cidade com o tema da água parece não ter origem em seus fundadores - a menos que os deuses da chuva e da água tenham sido rebatizados pelos Astecas porque os nomes Tlóloc e Chalchiuticue são palavras do idioma Nahuati.

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Mãos do deus da chuva retendo gotas - Museu dos Murais de Teotihuacán
A única certeza em relação a Teotihuacán é que entre os séculos 3 e 5, o seu período mais florescente, foi a maior cidade da América pré-colombiana e provavelmente a sexta maior do mundo antigo. Sabe-se também que sua cultura exerceu influências sobre vários povos do México. Mas quando se fala em tamanho da população voltam as incertezas. As inúmeras versões variam de 350 mil a mais de 150 mil habitantes em sua época mais florescente.

As relíquias de Teotihuacán

Teotihuacán é hoje a zona arquelógica mais visitada do México, tanto por sua importância histórica e arqueológica, como por ter recebido da UNESCO, em 1987, o título de Patrimônio da Humanidade

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - matéria sobre Teotihuacán - Foto INAH DivulgaçãoSeu tamanho impressiona e fascina. Ao longo de um eixo com 4 km de extensão e cerca e 40 m de
largura, encontram-se dezenas de monumentos praticamente completos. A via foi batizada como  Avenida dos Mortos porque os Astecas acreditavam que naquelas construções estavam enterrados os dirigentes e outras pessoas de destaque na a civilização teotihuacana.

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As duas fotos mostram restos de murais do antigo conjunto residencial
Tetitla, um dos mais de 2.000 que existiam em Teotihuacán. 
Em uma das extremidades da avenida, encontra-se a Pirâmide de la Luna - precedida por 12 pirâmides menores que definem os

contornos da praça de mesmo nome.  Na outra, localiza-se um monumento conhecido como Cidadela.  

Entre um e outro, mais próximo à
Pirâmide da Lua, encontra-se o maior e mais conhecido monumento do complexo, que acabou tornando-se  ícone da identidade nacional mexicana - a Pirâmide do Sol. Quem consegue subir seus mais de 200 degraus, tem uma vista privilegiada do sítio arquelógico.

Assim como ocorre em inúmeros monumentos do mesmo período, as construções de Teotihuacán foram matematicamente posicionadas me relação ao céu. A Pirâmide do Sol, por exemplo, está voltada para o Oeste a fim de que, no solstício de verão, o sol se ponha em sua frente.

Além da experiência de subir as duas principais pirâmides, e constatar as diferentes sensações provocadas por uma e por outra, faz parte da visita caminhar ao longo da Avenida dos Motos a fim de perceber sua amplitude espacial.

O percurso é grande e exige tempo, mas o caminho está repleto de seduções, como é o caso dos conjuntos habitacionais que já foram inteiramente cobertos por pinturas murais e ainda hoje conservam partes significativas dessas magníficas obras de arte.

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - matéria sobre Teotihuacán - Foto Piabay
Vista da Avenida dos Mortos, o eixo principal de Teotihuacán

Teotihuacan -   San Juan Teotihuacán - Estado do México - México                         

Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos:
    Fotos (1, 2 e 11) - Pixabay - licença CC0
    Fotos (3,4,6,7, 8, 9 e 10) - Site do Instituto Nacional de Antropologia e História do México (INAH) Divulgação
    Foto (5) - Site do Museu Nacional de Antropologia - Divulgação

    Referências:

    Site do Instituto Nacional de Antropologia e História do México (INAH)
    Site do Museu de Murais Teotihuacanos Beatriz de la Fuente
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