09/08/2020

Museu de Arqueologia de Xingó: o guardião de uma cultura ancestral

Foto Sylvia Leite - Matéria  Museu de Arqueologia de Xingó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIACada vez que se constrói uma usina hidrelétrica, o benefício da eletrificação vem  acompanhado pelo alagamento de extensa área, o que representa um alto custo social, tanto pelo desalojamento - e, muitas vezes, desagregação da comunidade -, como pelas perdas de fauna, flora e sítios arqueológicos. Por isso exige-se das empresas construtoras a realização de um salvamento prévio não apenas de animais e vegetais, mas também de evidências de civilizações passadas, o que nem sempre é feito de forma satisfatória. A construção da Usina de Xingó em Canindé do São Francisco, no sertão de Sergipe, não foge à regra

Foto Sylvia Leite - Matéria  Museu de Arqueologia de Xingó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
no que diz respeito às perdas, mas diferencia-se por ter trazido um grande ganho: um museu com cerca de 50 mil peças e vestígios dos primeiros habitantes da região.

Acredita-se que esses grupos pré-históricos tenham chegado ao local cerca de 9 mil anos atrás, vindos do Planalto Goiano, das cabeceiras do São Francisco e do Sudoeste da Bahia. Supõe-se que pertenciam a uma cultura arqueológica ainda não identificada. Um dos argumentos em favor dessa tese está no fato dos utensílios e expressões artísticas ali encontrados serem distintos do que se conhece, até o momento, na região Nordeste.

Sobre esses povos, sabe-se, por exemplo, que viviam em cavernas ou nos chamados terraços aluviais e alimentavam-se basicamente de peixes e moluscos, apesar de também coletarem frutas e caçarem tatus, lagartos e corujas. Para fabricar seus utensílios e adereços, usavam matérias primas abundantes na região como argila, pedras, madeira, conchas e ossos. Para o transporte, usavam pequenas embarcações como pirogas e canoas. Morriam cedo para os padrões atuais, vivendo apenas de 30 a 40 anos. 

Foto Sylvia Leite - Matéria  Museu de Arqueologia de Xingó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Os restos mortais encontrados na região indicam que havia, entre eles, uma estratificação social identificada pelas diferentes maneiras como os integrantes desses grupos foram enterrados: em covas individuais ou coletivas, com mais ou menos complementos funerários, especialmente objetos, vasos de cerâmica e adornos como colares de osso, além de cadáveres de animais.

Das marcas deixadas por esses primeiros habitantes da região, destaca-se principalmente sua arte rupestre*, executada com tinta vermelha, a partir de pincéis ou das próprias mãos. Entre os temas pintados, encontram-se principalmente imagens identificadas como figuras geométricas, havendo, também, representações humanas, de animais e símbolos astronômicos.

 

O projeto de salvamento

 

O salvamento foi realizado pela Universidade Federal de Sergipe - entidade gestora do museu - e teve início em 1988, cerca de sete anos antes do alagamento. Nesse período, foram descobertos 255 sítios arqueológicos. 

Foto USP/Chesf - Matéria  Museu de Arqueologia de Xingó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
O primeiro grande vestígio pré-histórico encontrado na região foi o Cemitério do Justino, com 188 esqueletos humanos, a maioria em posição fetal e acompanhados de pertences usados em vida. A descoberta de animais em algumas covas talvez seja um dos elementos mais significativos desse estudo pois leva à hipótese de que os sepultamentos tenham sido acompanhados de práticas rituais.

Em uma das covas analisadas, a 119, foi encontrado um esqueleto de furão sobre a região abdominal do morto. Já na cova 116, havia, sobre os restos humanos, o esqueleto de uma ave de rapina. A suposição é de que humanos e animais tenham sido enterrados juntos, restando esclarecer, apenas, se os animais teriam uma relação em vida com as pessoas ali enterradas ou se teriam entrado em cena apenas no ato do sepultamento.

Foto USP/Chesf - Matéria  Museu de Arqueologia de Xingó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIACom base em estudos realizados no Vale do Moche, no Peru, acredita-se que a presença de animais em covas possa indicar não apenas a existência de práticas rituais de sepultamento, mas também a utilização de algumas espécies na função de psicopompos - entidades capazes de conduzir a percepção do ser humano entre dois eventos significativos, e que, no caso dos mortos, atuariam como guias das almas em sua passagem para o outro mundo.

A riqueza do material encontrado ampliou a pesquisa para além da área que seria inundada e para muito além do período de salvamento. Os levantamentos continuam e, segundo Cleonice Vergner, que foi coordenadora do Projeto Arqueológico de Xingó, há trabalho para pelo menos quatro gerações. 

O museu que decorre desse salvamento funciona em dois espaços distintos: o prédio de exposições, com cerca de 800 metros quadrados, e os laboratórios de pesquisa, que ocupam uma área duas vezes maior. Juntas, as duas divisões do MAX empregam mais de 40 pessoas e sustentam mais de duzentas, entre funcionários e suas famílias. A maior parte da equipe é formada por moradores da região, muitos dos quais chegaram à instituição sem saber ler e escrever. Hoje todos estão alfabetizadase alguns deles avançaram ainda mais nos estudos chegando a fazer supletivo, graduação e até mestrado. 

Foto Sylvia Leite - Matéria  Museu de Arqueologia de Xingó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Arte contemporânea e difusão científica

Além do acervo pré-histórico, que reúne peças de arte rupestre, esqueletos humanos e utensílios descobertos durante a operação de salvamento, o MAX conta com uma coleção de artes plásticas composta por quatro trabalhos. As obras tiveram origem nas discussões para a montagem da exposição de longa duração e estão integrados à arquitetura do prédio de exposições. São dois painéis, um óleo sobre tela e uma escultura, que procuram unir cultura e geologia e estabelecer um diálogo entre materiais antigos, como a pedra e a argila, e contemporâneos como o cimento.

Na área educacional, o museu realiza um programa educativo que, por meio de oficinas, cursos, exposições itinerantes e muita brincadeira procura proporcionar aos alunos de escolas sergipanas, especialmente de escolas públicas, os primeiros contatos com a Arqueologia e com as pesquisas desenvolvidas na região do Xingó. O MAX tem, ainda, uma revista científica, a Canindé, que reúne trabalhos acadêmicos sobre as pesquisas realizadas na região e sobre temas afins.


Foto Sylvia Leite - Matéria  Museu de Arqueologia de Xingó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

* Breve, teremos matéria sobre a arte rupestre da região de Xingó.

Museu de Arqueologia de Xingó - Canindé de São Francisco - Sergipe - Brasil - América do Sul


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:

(1,2,3,6 e 7) Sylvia Leite
(4 e 5) USP/Chesf

Referências:



-----------------------------------------------------
Gostou da matéria? Você pode deixar um comentário a seguir expressando sua opinião. E se quiser ajudar a aumentar a visibilidade do blog, é só divulgar esta postagem nas redes sociais. Basta  clicar, aqui abaixo, no ícone de sua rede preferida e compartilhar.

Para ler sobre outros lugares de memória, clique nos links abaixo: