14/02/2019

Colônia do Sacramento: a cidade uruguaia que tem um pouquinho de Brasil



Alguns sabem porque leram sobre isso ou já estiveram lá, mas para quem não se enquadra em nenhum dos dois casos é difícil imaginar que uma pequena cidade do Uruguai, localizada fora da fronteira, possa estar ligada de alguma forma ao Brasil. Pois Colônia do Sacramento tem mais de um elo com nosso país e o maior deles é o fato de ter sido fundada por Manuel Lobo, na época governador da Capitania Real do Rio de Janeiro.

Essa história é longa e envolve uma sangrenta disputa entre portugueses e espanhóis. Mas por enquanto vamos deixar isso de lado. Importante agora é contar que além dos brasileiros que foram ao Uruguai junto com Manuel Lobo, ou em outras levas, temos um movimento inverso: o uruguaio de Colônia do Sacramento Hipólito da Costa passou grande parte da vida no Brasil, tornou-se brasileiro e criou o nosso primeiro jornal.

O Correio Braziliense ou Armazém Literário nasceu em 1808, em Londres, e era enviado clandestinamente ao Brasil com o fim de disseminar ideias liberais, defendendo o fim da escravidão e o estabelecimento de uma monarquia constitucional. Foi precursor de uma série de jornais portugueses criados no exílio e, tempos depois, inspirou o jornal homônimo fundado por Assis Chateaubrinand, que funciona até hoje em Brasília.

A importância de Hipólito da Costa como jornalista é reconhecida igualmente no Brasil e no Uruguai. Aqui, foi escolhido por Silvio Romero - fundador da Academia Brasileira de Letras - como patrono da cadeira 17. Em Colônia do Sacramento, é lembrado em uma praça que recebeu o nome de "Plazuela del Gentilhombre", onde está preservada a casa em que viveu até os três anos de idade. Entre as placas comemorativas encontra-se uma homenagem dos jornalistas brasileiros representados pela Associação Brasileira de Jornalistas Especializados em Turismo (ABRAJET).

Colônia do Sacramento: berço do Uruguai


A história de Hipólito da Costa, assim como quase tudo em Colônia do Sacramento, é resultado da disputa entre Portugal e Espanha pela pela região do Rio da Prata. A cidade começou em 1680 com a construção de um forte e foi chamada inicialmente de Colônia do Santíssimo Sacramento. Seu fundador, Manuel Lobo, cumpria ordens da coroa portuguesa. Ao tomar conhecimento da fortificação, a coroa espanhola determinou que os argentinos invadissem o local. A partir daí houve uma sucessão de lutas e negociações que durou quase 150 anos e só terminou com a independência da região dando origem ao que hoje conhecemos como Uruguai.


A Rua dos Suspiros

A disputa entre Portugal e Espanha está impressa em toda a cidade, que abriga construções deixadas pelos dois povos, mas em nenhum ponto isso fica tão claro como na Rua dos Suspiros, ou Calle de los Suspiros, onde, nos tempos de relativa paz, um lado era ocupado por portugueses e o outro por espanhóis.

Passear por ali é mergulhar na história.  A rua é revestida de pedras coloniais que ocupam toda a
extensão entre as duas fileiras de casas, sem deixar lugar para calçadas. Possui um desnível para facilitar o escoamento da água da chuva até o Rio da Prata e está praticamente toda preservada.

Como ocorre em muitos pontos históricos mundo afora, a Rua dos Suspiros está envolvida em lendas. Há quem diga que recebeu esse nome porque por ali passavam, aos suspiros, os marinheiros condenados à morte que eram atirados no Rio da Prata. Outra versão conta que uma jovem apaixonada foi assassinada na rua enquanto esperava por seu amado e antes de morrer suspirou.

O que diz a história é que os suspiros ouvidos na rua eram de outra natureza, pois todos os seus imóveis funcionaram por muito tempo como casas de prostituição.

Oito museus e menos de 30 mil habitantes



História é o que não falta em Colônia do Sacramento e a impressão que se tem é de que toda ela está preservada, de uma forma ou de outra, seja pela arquitetura, pelos canhões no meio da rua ou pelo farol que se mantém altivo por trás das ruínas da fortaleza. 

E como se tudo isso não bastasse, Colônia ainda tem oito museus: um deles guarda a memória dos portugueses, outro reúne peças dos espanhóis. Os outros seis abrigam documentos, mobiliários, obras de arte e armas de ambos os lados. 

À beira-mar, instalado em uma antiga casa portuguesa, funciona um museu mínimo, talvez o menor deles, que impressiona pela beleza das peças: são azulejos franceses, catalães e uruguaios, estes últimos da década de 1840 – os mais antigos fabricados no país.

Todos guardam preciosidades, mas nem precisaríamos deles para voltar ao passado em Colônia do Sacramento. Além do centro histórico preservado e tombado pela Unesco, a cidade virou uma espécie de estacionamento para carros antigos abandonados que enfeitam as ruas, servem como vasos para charmosos arbustos, e nos transportam para o tempo em que ainda funcionavam.

Colônia do Sacramento -  Colônia - Uruguai


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 
(1, 3 e 6) Marcelo Prates
(2,4 e 5) Sylvia Leite

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