15/08/2019

Sagarana: lugar de conexão com a obra de Guimarães Rosa

Foto Sylvia Leite - Matéria Sagarana - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAQualquer cidade, povoado ou paisagem do sertão mineiro é capaz de nos fazer lembrar os textos de Guimarães Rosa, mas há alguns lugares que, de diferentes maneiras, parecem impregnados por sua obra.
Entre eles estão Cordisburgo, sua terra Natal; Morro da Garça, cenário do conto Recado do Morro; Andrequicé, onde viveu o vaqueiro que inspirou o personagem Manuelzão, da novela Manuelzão e Miguilin; e, mais recentemente, Sagarana - um distrito do município de Arinos, provavelmente visitado pelo escritor nas andanças que ele fez pela região, e que, ao longo do tempo, foi tecendo relações com seu universo literário.

A Vila de Sagarana, como é conhecida, é resultado da desapropriação, pelo governo, das fazendas Boi Preto e Logradouro para a implantação de um dos primeiros assentamentos da reforma agrária em Minas Gerais. Conta-se que a escolha do nome deveu-se a uma experiência vivida pela equipe do Incra, na volta para Belo Horizonte depois de uma visita ao local. Os técnicos teriam decidido parar em Cordisburgo para visitar o Museu Guimarães Rosa e, ao informarem-se sobre as obras o escritor, um deles teria percebido que as narrativas de Sagarana retratam tanto a paisagem como o povo do lugar onde o assentamento seria implantado.
Foto Sylvia Leite - Matéria Sagarana - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Sagarana foi o primeiro livro publicado* de Rosa,  lançado em 1946. É uma coletânea de nove contos - alguns deles muito conhecidos, como A hora e a vez de Augusto Matraga - todos situados no sertão mineiro. O título, como várias outras palavras que aparecem em sua obra, é um neologismo que une o substantivo saga, de origem germânica, ao sufixo 'rana', de origem 'tupi'. O primeiro nomeia jornadas heróicas ou histórias e lendas repletas de incidentes. O segundo é usado para designar semelhança**. A junção dos dois resultaria em algo como "Semelhante a uma saga" ou "Parecido com uma
Foto Sylvia Leite - Matéria Sagarana - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAlenda".

Na vila, a paisagem e a cultura retratadas por Rosa misturam-se à realidade concreta de aproximadamente 600 moradores, que vivem da pecuária de leite, da agricultura familiar e da extração de frutos do cerrado, como pequi e baru. Embora não chegue a ter peso direto na economia local, por reunir um pequeno número de pessoas, o artesanato também é parte importante da cultura de Sagarana, especialmente a fiação, a tecelagem e o bordado.

As mulheres que realizam esse trabalho fazem parte de uma associação e da rede solidária Central Veredas, que reúne cerca de 150 artesãs de dez localidades da região. Além de perpetuar a cultura sertaneja, com suas técnicas de trabalho manual e seus cantos de trabalho, a central tenta contribuir para a sustentabiliade da região, buscando um incremento da produção de algodão.

Uma de suas líderes, a fiandeira Gersina Maria, foi homenageada com uma escultura em frente à sede da Associação de Fiandeiras, logo na entrada da vila. Outros personagens, reais e de ficção, também estão representados ao longo da cidade.

Foto Sylvia Leite - Matéria Sagarana - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA O circuito de esculturas de Sagarana


Uma complexa mistura entre literatura, religião e pensamento acadêmico caracteriza o jardim de esculturas a céu aberto*** que se transformou em um dos maiores atrativos de Sagarana. De um lado, as referências literárias, com destaque para a imagem do próprio Guimarães Rosa, com sua famosa caderneta de anotações pendurada no pescoço. A escultura faz menção à viagem feita pelo escritor em 1952, que lhe rendeu dados e inspiração para sua principal obra, o Grande Sertão: Veredas.

A poucos metros, encontra-se um conjunto de esculturas que retratam a cena da pregação de São Francisco aos animais, representados, aqui, por uma onça parda, um lobo guará, um veado campeiro, um tamanduá, uma anta, uma ema e uma arara - animais que integram a fauna do cerrado. A influêcia franciscana aparece, ainda, em um presépio e no canteiro da entrada da cidade, que abriga uma imagem do santo e outra de Nossa Senhora Aparecida.

A terceira vertente é composta por apenas uma escultura: a imagem do educador brasileiro Paulo Freire segurando uma tela de computador com cenas do sertão. A ideia, segundo os guias locais, é evidenciar a afinidade entre os pensamentos de Rosa e de Freire, especialmente no que diz respeito à igualdade de valor entre as diversas culturas e visões de mundo.       

A preservação da cultura e da natureza


O compartilhamento de culturas, saberes e fazeres foi o cerne do Festival de Sagarana, criado em 2008, em comemoração ao centenário de Guimarães Rosa, e realizado por sete  anos seguidos. O objetivo do evento foi o de chamar a atenção de sertanejos e visitantes sobre a importância da preservação do cerrado e de suas veredas para a sustentação socioambiental e cultural da região.

Foto Arquivo/Divulgação Festival de Sagarana - Matéria Sagarana - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO festival era realizado com a participação de profissionais, estudantes e pesquisadores de diferentes origens, formações e faixas etárias. Conhecedores do sertão e da tradição oral ao lado de estudantes e pesquisadores; agricultores familiares ao lado de aprendizes e praticantes de permacultura e da agroecologia; artesãos e grupos de folia de reis ao lado de artistas urbanos. 

Embora não tenha sobrevivido, o festival parece ter ajudado a criar uma consciência de valorização e preservação das tradições e da natureza da região, que permanecem vivos em várias iniciativas como a organização dos artesãos, a Folia de Reis e a Estação Ecológica de Sagarana.

A Unidade de Conservação foi criada em 2003 e abrange uma área 2.340 hectares, que inclui importantes cursos d'água, vários tipos de vegetação - como mata seca, veredas e cerrado - além de inúmeras espécies vegetais e animais, inclusive espécies raras como a maria-preta-do-nordeste (knipolegus francuscanus).
Foto Sylvia Leite - Matéria Sagarana - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

 

O Caminho do Sertão



Pelo menos parte dessa movimentação cultural e socioambiental da vila deve-se a um projeto denominado Caminho do Sertão, que conduz anualmente dezenas de andarilhos por quase 200 km ao longo dos municípios de Arinos e Chapada Gaúcha.

A caminhada de sete dias é organizada por várias entidades do sertão mineiro e tem paradas em povoados e comunidades tradicionais relacionados de alguma maneira ao universo de Guimarães Rosa - caso de Morrinhos, já retratado aqui no blog.

Sagarana, marco inicial da carreira de Rosa, é o ponto de partida da jornada. Sua meta final é a sede do Município de Chapada Gaúcha - lugar onde está localizado o Parque Nacional Grande Sertão Veredas batizado assim em homenagem à principal obra de Guimarães Rosa.

* O primeiro livro escrito por Rosa foi Magma - uma coletânea de poemas premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1936 e publicado somente depois de sua morte.

** Significados obtidos a partir de uma compilação livre de verbetes de diversos dicionários como Houaiss, Caldas Aulette, Aurélio e Pequeno Dicionário Tupi-Português, de Paulo Lemos Barbosa.

*** Todas as esculturas de Sagarana são obras do artista plástico Valdiney Carvalho.

Sagarana - Arinos - Minas Gerais - Brasil


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:

(1,2,3,4,5 e 7) Sylvia Leite

(6) Arquivo/Divulgação do Festival de Sagarana

Referências: 

Site da Prefeitura de Arinos

Guia de Sagarana publicado pela Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável dos Vales dos Rios Urucuia e Carinhanha  

Colaboração: 

Esta matéria contou com a importante colaboração de:

- Almir Paraca, professsor de História, ex-deputado estadual, ex-prefeito de Paracatu e coordenador do Caminho do Sertão.
- Toda equipe do Caminho do Sertão.
Gasparina Borges Kriugre, moradora de Sagarana.

Livro:

Sagarana, de Guimarães Rosa

-----------------------------------------------------
Gostou da matéria? Você pode deixar um comentário a seguir expressando sua opinião. E se quiser ajudar a aumentar a visibilidade do blog, é só divulgar esta postagem nas redes sociais. Basta  clicar, aqui abaixo, no ícone de sua rede preferida e compartilhar.

Para ler sobre outros lugares de memória, clique nos links abaixo: