09/01/2020

Orongo: a aldeia cerimonial do homem-pássaro

Foto Sylvia Leite - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA ilha de Rapa Nui, mais conhecida como Ilha de Páscoa, passou a ser admirada em todo o mundo por suas enormes estátuas de pedra denominadas Moais*, mas esse é apenas um dos traços marcantes da cultura local. Tão expressiva quanto as concretas esculturas rupestres, é a  memória do culto ao Homem-pássaro - ou Tangata-Manu - realizado na aldeia cerimonial de Orongo, hoje em ruínas e aberta à visitação.

Foto Sylvia Leite   - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA cerimônia tinha conotação religiosa e homenageava o deus criador Makemake  (ou Make-Make), mas atendia também a um objetivo político: escolher o dirigente da ilha pelo período de um ano. A disputa era feita por meio de uma competição. O título de homem-pássaro cabia ao chefe de tribo cujo representante - ou hopu - fosse ganhador de uma difícil prova física: nadar até uma pequena ilha denominada Moto Nui e conseguir trazer, intacto, o primeiro ovo do ano posto por um Manutara - pássaro migratório que conhecemos pelo nome de andorinha-do-mar-escura e era considerado uma ave sagrada pelos rapa nuis.

Os participantes da competição eram jovens guerreiros e, vez por outra, o desafio cabia ao próprio chefe da tribo. A escolha dos competidores era feita por um profeta - ou Iva-Atua - que recebia em sonho a indicação daquele que possuía proteção divina para realizar a prova. Quando o competidor conseguia pegar o ovo, tinha que dar a notícia, aos gritos, antes de iniciar a viagem de volta.

Foto Sylvia Leite   - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIANão foi possível encontrar nenhum relato de acidente ou morte de algum competidor, mas sabe-se que a prova era bastante arriscada. A aldeia de Orongo estava localizada à beira da cratera do vulcão inativo Ranu Kao e, para chegar ao mar, era preciso descer suas encostas de 324 metros de altura. Em seguida, os competidores nadavam sobre um cilindro trançado de totora - espécie de junco - que ajudava na flutuação. Além da correnteza e das ondas violentas, que podiam jogá-los contra o paredão, supõe-se que também estivessem expostos a tubarões.

Foto Sylvia Leite   - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAAs dificuldades continuavam quando os hopu alcançavam a ilha desabitada, onde não havia água nem comida, a não ser peixes, algas e frutos silvestres. Por isso, acredita-se que os próprios competidores levavam seus mantimentos ou eram ajudados por parentes ou serventes. Ao chegarem lá, ainda precisavam esconder a comida dos outros competidores para não serem roubados.

A volta era ainda mais complexa, pois, além de todos os riscos e dificuldades, o hopu tinha que se preocupar com a segurança do ovo, que deveria chegar intacto a Orongo. A solução para mais esse desafio, segundo os pesquisadores, era usar uma espécie de tiara - ou diadema - que sustentava uma cestinha feita especificamente para o para transporte do ovo. 

Encerrada a disputa, era a vez do chefe da tribo vencedora iniciar sua saga. Durante todo o ano seguinte, cabia a ele assegurar a fertilidade da ilha e, por isso, era preciso cumprir uma série de determinações, algumas delas em forma de restrições, outras, de proibições - ou Tapu. Antes de deixar Orongo, o homem-pássaro tinha seus cabelos, sobrancelhas e pestanas retirados e, em seguida, percorria a ilha ao lado de familiares e aliados, cantando e dançando, para exibir sua vitória.

A partir daquele dia, passava a viver isolado, tendo como única companhia um sacerdote - ou Ivi Atua - que se encarregava de lhe repassar a comida fornecida pelas tribos perdedoras. O Homem-pássaro não podia lavar-se nem cortar cabelos e unhas. As proibições, ou tapus, se mantinham até o início do ciclo seguinte.
Foto Mônica Guimarães  - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Orongo - uma moradia temporária


Foto Sylvia Leite   - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAOs competidores - assim como todas as outras classes envolvidas na cerimônia, como chefes políticos e religiosos - passavam cerca de três meses do ano em Orongo. Chegavam em julho para a fase de  preparativos e deixavam o local somente em setembro, depois que um deles voltava de Moto Nui trazendo o primeiro ovo de Manutara. A travessia de ida para a ilha provavelmente variava de acordo com a chegada dos pássaros, porque há registros indicando o mês de agosto e outros que falam em setembro.

O alojamento era feito em cerca de 50 casas construídas com lascas de pedra superpostas. As construções tinham forma oval e teto coberto de terra. Eram dispostas em meia-lua de frente para três pequenas ilhas - ou motu - entre as quais encontrava-se Motu Nui, onde os guerreiros iam buscar o ovo de Manutara.

As casas eram baixas, com entradas estreitas e tinham pouco espaço interno. Para entrar nelas era preciso se arrastar pelo chão. Mas, segundo os registros, ofereciam boa proteção contra a chuva e o vento. Algumas delas resistem ate hoje e podem ser vistas de fora pelos que visitam o sítio arqueológico.

 Foto Sylvia Leite  - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Um museu de arte rupestre


Dentro e fora das casas, havia inúmeras gravuras rupestres, a maioria relacionada ao ritual: figuras de homens-pássaros, do deus Makemake, dos remos de dança e de vulvas - que representavam a fertilidade.

Foto de cartaz turístico em Rapa Nui - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAQuase 500 petróglifos com desenhos de homens-pássaros foram encontradas na ilha, a maioria em Orongo ou em seus arredores, inclusive no teto de uma caverna denominada Ana Kai Tangata, que fica ao pé do vulcão.

Algumas dessas imagens estavam gravadas em lascas de basalto, como as da foto ao lado, retiradas de uma das casas em 1886, por marinheiros do navio de guerra norte-americano USS Mohican, que integravam a Expedição de Willim Thompson.

Outras foram esculpidas em pequenas pedras, em frente às casas, e acredita-se que cada um desses baixos-relevos representava um dos vencedores da competição. 

Inúmeras inscrições rupestres foram encontradas, também, nas cavernas de Motu Nui - a ilhota onde os competidores recolhiam o ovo sagrado do Manutara - entre elas uma pintura vermelha da cabeça do deus Makemake.

Apesar da beleza das inscrições, que às vezes combinavam baixos relevos com pintura em uma ou mais cores, elas não eram produzidas como obras de arte. O propósito de seus autores, os sacerdotes da ilha, era apenas religioso e documental. 

 Foto de cartaz turístico em Rapa Nui  - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O ciclo do Tangata-Manu 

Não se sabe exatamente quando o ritual do homem-pássaro - ou Tangata-Manu- começou a ser realizado, mas acredita-se que tenha surgido como solução política para as guerras tribais que puseram fim ao período das estátuas de pedra - ou Moais - , quando as diversas tribos coexistiam pacíficamente sob o comando de um descendente do provável povoador da ilha - Hotu Matúa - e a proteção de um único deus: Makemake.

A era do Homem-pássaro manteve a crença no deus Makemake, mas substituiu o culto aos ancestrais - perpetuados nos moais - pelo culto ao homem pássaro. Alterou, ainda, a estrutura de poder terreno. Em vez do comando vitalício dos descendentes de Hotu Matúa, instaurou-se o mandato anual assumido pelo chefe da tribo vencedora da disputa.

O ritual foi extinto por volta de 1867, com a chegada dos colonizadores, que converteram a população rapa nui à religião católica**

 Fotos de cartaz turístico em Rapa Nui  - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO amigo roubado


Foto de cartaz turístico em Rapa Nui   - Matéria Orongo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAEmbora na era do Homem-pássaro não hovesse mais produção de Moais, havia uma dessas estátuas dentro de uma das casas de Orongo*. Era uma escultura de 4 toneladas, com 2,4 metros de altura, e ficou conhecida como Hoa Hakananai'a.

O nome, que no idioma Rapa Nui significa "o amigo roubado", faz referência ao sumiço estátua e à destruição da casa onde ela se encontrava, denominada Taura Renga.

A estátua foi retirada da ilha por integrantes da
expedição do do navio inglês MNS Topaze, com ajuda de alguns nativos, para ser levado à Rainha Vitória. Hoje, o Moai roubado integra o acervo do Museu Britânico e está sendo reclamado pelos habitantes da ilha.

O lamento dos rapa nuis pela perda do Hoa Hakananai'a parece ir além do fato, por si só significativo, de um elemento de sua cultura ter sido levado por estrangeiros. Nesse caso, tratava-se de um Moai singular, em parte por ser um dos poucos talhados em basalto***, mas, principalmente, pelo fato de conter petróglifos alusivos ao ritual do Homem-pássaro, e de fazer parte da própria cerimônia, representando o elo entre esses dois importantes períodos da história rapa nui.

A destruição da casa que abrigava o Moai, no momento de sua retirada pelos ingleses, também foi significativa para os habitantes da ilha, pois além de abrigar os participantes do ritual do Homem-pássaro, ali era realizada uma cerimônia de iniciação de jovens, denominada Poki-Manu.

Os ingleses também levaram o moai Tita'a Hanga o Te Henua, de 57 cm de altura, que foi encontrada na ilha de Moto Nui, e acredita-se que marcava a separação entre as duas grandes confederações de tribos que dominavam Rapa Nui na antiguidade. Hoje a estátua encontra-se no museu Pitt Rivers, em Oxford e sua devolução também está sendo cobrada pelos rapa nuis.


* Breve postaremos uma matéria sobre os moais.

** O sincretismo em rapa Nui será tema de uma nova matéria sobre Rapa Nu

*** Como as casas eram muito baixas, a estátua estava enterrada até a metade.

****A maioria dos moais era talhada em tufos - rochas compostas por cinzas vulcânicas já consolidadas.


Orongo - Rapa Nui/ Ilha de Páscoa - Polinésia - Oceania


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos:

     Mônica Guimarâes

     Sylvia Leite


    Participação especial:

    Mônica Guimarães, da Modê Bijus


    Referências:

    Museo Atropológico Padre Sebastián Englert




    Livros:

    Isla de Pascua, Historia del Pueblo Rapanui - Catherine & Michel Orliac.

    Islade Pascua, Isla Tierra - Paul Bahn /John Flenley

    Los Ancestros de Rapa Nui, guía do Museo Atropológico Padre Sebastián Englert.


    Filme:

    Rapa Nui, uma aventura no paraíso, de Kevin Reynolds. (Obs: o filme é baseado na lenda do homem pássaro, mas é uma obra e ficção e, por isso, suas informações nem sempre correspondem à realidade).  

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    Para ler sobre outros lugares de memória, clique nos links abaixo:


    Arara-azul-de-Lear
    São Cristóvão




    8 comentários:

    1. Que interessante, Sylvinha!!! Muito legal, mesmo! Adorei.
      sonia pedrosa

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    2. Adorei. Sou doida para viajar para esta ilha. Mas enquanto não acontece vou viajando com você

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      1. Bom saber disso, mas queria saber também o seu nome. Da próxima vez não esqueça de dizer, ok?

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    3. Beleza de matéria, Sylvinha!
      Abraços
      Val Cantanhede

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    4. Ficam tão pequenas as estátuas diante de tanta história. Parabéns .

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      1. Kkk É mesmo! A história é maior que seus vestígios. Mas as estátuas também tem história é isso será contado no blog. Aguardem!!!

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