04/04/2019

Khiva: ícone da cultura islâmica e berço da computação

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Khiva - Foto  LoggaWiggler por PixabayA cidade de Khiva, no Uzbequestão, foi historicamente um dos pontos da Ásia Central com maior presença da tradicional cultura islâmica e, ao mesmo tempo, tornou-se o berço de conhecimentos que podem ser considerados precursores da computação atual. A explicação para essa coexistência aparentemente díspar é simples: na Idade Média, alguns pensadores islâmicos contribuíram de forma decisiva para o desenvolvimento da  Matemática e um deles - al-Khwarizm (ou Aucuarism)* - nasceu e viveu nessa pequena cidade amuralhada.

Khiva é um oásis localizado entre os desertos Kyzyl kum e Karakum que a partir do século 10 tornou-se um importante ponto de descanso da Rota da Seda. Em seus caravançarais pousavam milhares de comerciantes que voltavam da China em direção à Pérsia levando, entre outros produtos, tecidos, porcelanas, papel e especiarias. 
BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Khiva - Foto  LoggaWiggler por Pixabay
Talvez por ser muito pequena, e não tão importante como Samarkanda** e Bukhara, teve seu centro histórico, conhecido como Ichan Kala (que significa cidade interior), praticamente todo preservado***, razão pela qual foi a primeira cidade do Uzbequistão a receber da Unesco o título de Patrimônio Mundial da Humanidade.


Khiva - um museu vivo a céu aberto 


BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Khiva - Foto  LoggaWiggler por PixabayAndar por Khiva é como visitar um museu no meio do tempo. São mais de 50 monumentos, em uma área de 260 m²,  protegida por uma enorme muralha de tijolos aparentes com quatro portas de entrada - uma em cada lado de sua estrutura retangular. Na porta ocidental está a imagem do matemático al-Khwarizmi, considerado o avô da computação.

O contraste entre as estruturas de tijolo e a decoração em mosaicos coloridos de argila vitrificada, faz de Khiva uma paisagem inconfundível. É uma combinação que nos faz lembrar a terra, na crueza dos tijolos, e o céu, no azul brilhante dos mosaicos.

Um dos detalhes mais impressionantes em sua arquitetura está nos azulejos que revestem as paredes internas de alguns monumentos - em parte pela beleza das cores e dos padrões geométricos, ou arabescos, mas, principalmente, pela maneira surpreendente de fixação das peças que estão presas por tachas de metal.
BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Khiva - Foto Sylvia Leite

Os prédios que no passado serviram como palácios, madrassas, mesquitas e até casas de moradores comuns, hoje estão ocupados principalmente por museus e oficinas de artesanato, especialmente de  entalhe em madeira, uma das especialidades locais.

Quem dispõe de tempo e paciência, pode sentar numa dessas oficinas para apreciar alunos que conseguem trabalhar em público, usando martelos e cinzéis de forma precisa e sem perder a concentração.

Depois, se quiser admirar trabalhos prontos, é só procurar os monumentos da cidade que são fonte de inspiração para os artesãos atuais e testemunham a antiguidade dessa técnica preservada ao longo de séculos. Sem dúvida, o exemplo mais significativo está nas 112 colunas de madeira de olmo que sustentam o teto da sala de orações na Mesquita Djuma (ou Mesquita da Seta-feira) - principal templo da cidade, construído no século 10****.
BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Khiva - Foto Sylvia Leite


A história envolta em lendas



BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Khiva - Foto Sylvia LeiteNão se sabe ao certo como nem quando Khiva surgiu, mas várias lendas, que ainda hoje são contadas pelos moradores, trazem em comum alguma referencia ao herói bíblico Noé - aquele que, segundo a Bíblia, construiu uma arca a mando de Deus para salvar todas as espécies da Terra de um dilúvio.

Segundo uma das versões, Noé teria chegado ao local em caravana e, para matar a sede dos seus companheiros de viagem, e a sua própria, teria cavado um poço que deu origem à cidade. A água fresca desse poço teria um sabor tao especial que mereceu dele a observação "Khey vakh!" - expressão que significa "que prazer" e teria derivado para Khiva. 

Outra versão conta que foi Sem, o filho mais velho de Noé, quem cavou o poço, tornando-se, assim, o fundador de Khiva.

Há lendas também sobre o Kalta Minor (ou minarete curto) - um monumento inacabado que é considerado o símbolo de Khiva. A obra foi iniciada em 1852, pelo governante Mohammad Amin Khan, e interrompida três anos depois, em decorrência de seu assassinato. No projeto original, a torre deveria ter uma altura entre 70m e 80m, mas acabou ficando com menos de 30m. Diz a lenda que o desejo de Amin Khan era erguer um minarete tão alto que lhe permitisse avistar Bukhara - uma das cidades das mil e uma noites - que fica a 400 km dali.

O avô da computação


BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Khiva - Foto  LoggaWiggler por PixabayBLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Khiva - Foto  LoggaWiggler por PixabayEm meio às lendas e às tradições, Khiva teve seu período de progresso intelectual. Era a época da Casa de Sabedoria (ou Casa do Saber) - nome dado à Biblioteca Real de Bagdad, onde inúmeros eruditos trabalhavam sob o comando de califas abássidas e entre eles estavam pelo menos dois matemáticos nascidos em Khiva: al-Biruni e al-Khwarizm.

Como ocorria com a maioria dos sábios antigos e medievais, ambos realizaram estudos em diversas áreas. A al- Biruni são atribuídos 146 livros, dos quais 95 são dedicados à matemática, à astronomia e a assuntos relacionados com as duas áreas. Al-Biruni teria contribuído ainda para o desenvolvimento da Física, Geografia,
Farmacologia, Mineralogia, Antropologia e também para a História das Religiões.

A al-Khwarizm atribui-se a criação da Álgebra. Seu "Livro da Restauração e do Balanceamento", escrito em árabe por volta do ano 820, apresenta resoluções para dois tipos equações (lineares e quadráticas) que seriam os alicerces desse ramo da matemática.

Os conhecimentos de al-Khwarizm seriam precursores, também, da criação do algoritmo - uma sequência de ações que devem ser executadas para solucionar um problema e que constitui a estrutura de um programa de computador. Embora haja várias versões para a etimologia da palavra algoritmo, há quem afirme que se trata de uma derivação da forma latina do nome de  al-Khwarizm.

Além do saber e das lendas


Em paralelo à charmosa memória da Rota da Seda, dos monumentos decorados com mosaicos e azulejos, dos estudos de matemática e da tradição artesanal - que além do entalhe em madeira, inclui a tecelagem, cerâmica e bordados - Khiva teve um história de instabilidade.

Foi invadida por diversos governantes como Alexandre, o Grande, Gêngis Khan e Amir Timur. Os últimos a chegar foram os russos que dominaram a região por mais de um século e, nesse período, Khiva foi aneada ao Uzbequistão. 

Em 1991, com o fim da União Soviética, o Uzbequistão tornou-se independente e Khiva passou a receber viajantes do mundo inteiro interessados na beleza arquitetônica da cidade e em suas tradições.

* Leia, neste log, matéria sobre Samarcanda.
**Abū ʿAbd Allāh Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī
***Poucos monumentos são da época de sua fundação, mas o conjunto preserva o estilo original.
****A mesquita foi reformada no século 18, mas as colunas oram aproveitadas da primeira construção.

Khiva - Khorezm - Uzbequistão - Rota da Seda - Ásia Central


Texto: Sylvia Leite 

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 
 (1,2,3,7, 8 ) - LoggaWiggler /Pixabay 

(4,5,6) - Sylvia Leite 


--------------------------------------------
Gostou da matéria? Você pode deixar um comentário a seguir expressando sua opinião. E se quiser ajudar a aumentar a visibilidade do blog, é só divulgar esta postagem nas redes sociais. Basta  clicar, aqui abaixo, no ícone de sua rede preferida e compartilhar.

Para ler sobre outros 'lugares de memória', clique nos links abaixo:


10 comentários:

  1. Adorei... E como voltar a Khiwa, agora com detalhes que eu não havia notado antes, talvez pelo ancantamento de tudo que vi, na cidade onde também viveu Nasrudin...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Legal saber que alguém que foi lá se identificou com a matéria. Sinal de que consegui passar a mensagem rsrs Obrigada, Leandro, beijos

      Excluir
  2. Lindo e interessantíssimo. A cada semana uma nova.hstotia de conhecimento. E sério.que nosso Mula nasceu lá ?

    ResponderExcluir
  3. Sylvia seu texto é uma aula de cultura geral. Parabéns

    ResponderExcluir
  4. Mais uma matéria fascinante, Sylvinha!
    A beleza e a genialidade da cultura islâmica se manifestam em Khiva.
    Abraços
    Val Cantanhede

    ResponderExcluir
  5. Obrigada, Val. Bom constatar que é uma leitora assídua. Abraços.

    ResponderExcluir
  6. Encantada com seu texto. Vontade de arrumar a mala e ir logo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Júnia. É muito bom saber que meu relato provocou uma mobilização. É o melhor retorno que eu posso ter. Toda quinta tem postagem nova aqui no blog. Volte sempre!

      Excluir
  7. Quando a fé se faz arte anestesia nossa doença terminal, imortaliza a vida!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bonito! Só faltou assinar. Não esqueça de fazer isso da próxima vez, ok? E obrigada pelo comentário.

      Excluir