19/11/2020

Cuscuz: patrimônio gastronômico e cultural do Nordeste

Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Germana Gonçalves de Araújo
Muita gente, no mundo inteiro, come pão no café da manhã. O nordestino prefere cuscuz. É claro que quando o assunto é gosto não se pode generalizar, mas basta passar uns dias na região para constatar que se isso não for inteiramente verdade, pelo menos está longe de ser mentira. E o costume fica ainda mais aparente na medida em que nos deslocamos para o interior. A escritora Rachel de Queiroz, em seu livro "O Não me Deixes - Suas Histórias e Sua Cozinha", chega a dizer que o cuscuz é o pão do sertanejo.

É difícil encontrar no Nordeste, um cozinheiro ou uma dona de casa que 
Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Toluayenão saiba preparar a iguaria. A receita é aparentemente simples. Basta umedecer a farinha de milho – ou de arroz – com água ligeiramente salgada, deixar a mistura descansar um pouco e colocar para cozinhar no vapor. Os mais detalhistas acrescentam uma colherinha de tapioca, ou de farinha de mandioca, ‘que é para dar liga’. Mas quem já se arriscou a por a mão na massa, sabe o quanto é difícil deixar o cuscuz fofinho, sem solar por excesso de água ou esturricar por falta de hidratação.

Como a quantidade de água é medida ‘a olho’, é preciso ter alguma experiência para acertar o ponto de umidade. E o pior de tudo é que isso garante apenas um resultado correto, aceitável no dia a dia. Para conseguir fazer aquele cuscuz especial é preciso, como se diz no Nordeste, ter mão boa para o preparo da massa. E não podemos esquecer de um detalhe importante: para fazer a iguaria é preciso ter um cuscuzeiro – panela de cozimento a vapor que pode ser encontrada em qualquer feira ou loja popular da região.

Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Germana Gonçalves de Araújo
No Nordeste se come cuscuz com manteiga, cuscuz com ovos, cuscuz com charque, carne ensopada ou de sol , cuscuz com frango, cuscuz com queijo, cuscuz com leite e açúcar e por aí vai. O consumo principal é no café da manhã. Em algumas casas, o costume se repete no jantar, ou café da noite. Com menos frequência, tem até quem coma cuscuz no almoço, principalmente desmanchado como farofa.

Hoje o cuscuz está presente nas mesas de todas as classes sociais da região, da mais rica à mais pobre, mas nem sempre foi assim. No Brasil colonial, o prato era visto como um alimento de segunda
Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Germana Gonçalves de Araújo
categoria, reservado apenas aos escravos e às famílias de trabalhadores braçais.

O próprio milho tinha um status inferior a outras culturas - como algodão, cana de açúcar e café - , por não ser considerado lucrativo e destinar-se exclusivamente à subsistência familiar. Já entre os escravos, o cereal tinha um significado que ultrapassava as esferas nutricional ou econômica, e assumia um caráter sagrado, constituindo uma das principais oferendas ao orixá Oxossi, divindade relacionada à caça e à comunidade. Suas sementes simbolizavam prosperidade e suas folhas traziam boa sorte. E isso acabava aumentando a importância do cuscuz nas senzalas.


Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Domínio público


Uma herança dos berberes 



Até aqui, o assunto foi cuscuz nordestino, mas existem vários outros, tanto no Brasil como em outras partes do mundo. A origem de todos está na África, mas em uma região diferente daquelas de onde vieram os africanos escravizados pelo Brasil. O primeiro cuscuz que se tem notícia era feito pelos berberes. Eram povos nômades que habitavam o Noroeste do continente* - numa região conhecida como Magreb* – palavra árabe que significa Poente ou Ocidente. Os berberes misturaram-se aos árabes que chegaram à vizinha Península Ibérica no século 8, aderindo inclusive à religião islâmica. Talvez por isso, alguns registros atribuam a esse prato uma origem árabe.
Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Domínio público

O cuscuz teria surgido entre os séculos 11 e 13, entre o final da dinastia Zirid e a ascensão do califado almóada, e sua primeira referência escrita estaria no Livro de Culinária do Magrebe e Andaluzia (Kitab al-tabikh fi al-Maghrib wa’l-Andalus) de autor desconhecido. Seu nome berbere – Seksu, – vem da raiz √KS, que significa "bem formado, bem enrolado, arredondado", mas há quem garanta que o prato foi nomeado pelo som do cuscuzeiro, que seria semelhante à pronúncia da palavra Seksu. Seja qual for a a motivação que levou à escolha desse nome, o fato é que ele foi transportado para o árabe como kuskus e daí para o francês couscous e para o português cuscuz.

Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Catskingloves
Dos berberes, o cuscuz nordestino herdou, principalmente, o modo de fazer - com cozimento a vapor -, e a cuscuzeira – taseksut em berbere e kiskas em árabe – usada desde a idade média no Magreb. Herdou, ainda, alguns tipos de acompanhamento, como carne ou frango ensopados, embora no caso berbere os guisados de carneiro ou de legumes sejam mais frequentes, em muitos casos acompanhados de frutas secas.

O uso do milho foi uma adaptação brasileira, pela abundância do cereal e por uma provável influência indígena. A matéria prima do cuscuz berbere – que conhecemos como cuscuz marroquino – é a sêmola de trigo. Outra diferença é que o cuscuz nordestino é geralmente feito em forma de bolo para ser cortado em fatias, enquanto o segundo é servido soltinho, com aparência de farofa**.


Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Rainer Zenz
A tradição do cuscuz berbere mantém-se viva, com maior ou menor intensidade, em todos os países do Magreb, com inúmeras variações de acompanhamentos. Na Tunísia, por exemplo, é comum se usar peixe e frutos do mar. Na mesma Tunísia, na Mauritânia e na Líbia, o cuscuz pode ser acompanhado por crane de camelo.

A convivência entre os berberes e árabes por cerca de sete séculos fez com que a iguaria fosse levada para o Maxerreque – em Árabe, Levante ou Oriente –, região que inclui todos os países árabes a leste da Líbia. O Egito, por exemplo, repete uma tradição do Marrocos de cuscuz doce, servido como sobremesa. E o mais curioso é que o cuscuz do Magrebe chegou também a Israel, levado pelos judeus que deixaram a Península Ibérica.

Matéria Cuscuz - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Foto Everton137


O cuscuz paulista


Foi também a partir de Portugal e da Espanha que o cuscuz chegou ao Brasil. E talvez sejamos o único país em que a iguaria berbere se desdobrou em pelo menos dois pratos inteiramente diferentes, mas conhecidos pelo mesmo nome***. Quem mora no Sudeste ou anda por lá sabe que além do cuscuz nordestino temos também o cuscuz paulista. E há outros menos conhecidos em Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, além de variações do nordestino na Bahia e em outros estados, mas, nesta matéria, vamos nos contentar com o nordestino e o paulista. As diferenças são muitas. Desde a maneira de fazer até os acompanhamentos, que no caso do cuscuz paulista são usados dentro da própria massa, como uma espécie de recheio: tomate, ovos cozidos, peixe (que pode ser substituído por frango ou porco) e, em alguns casos, frutos do mar e conservas de azeitona, ervilha ou milho. Os paulistas também não usam cuscuzeira porque sua massa não é cozida no vapor.

Outra diferença importante é que o cuscuz paulista é servido no almoço e no jantar enquanto o do Nordeste compõe principalmente a mesa do café da manhã e do café da noite. Sorte nossa que, se soubermos fazer os dois ou encontrarmos quem saiba, podemos nos deliciar com o nordestino no café da manhã e com o paulista no almoço, deixando para a noite a possibilidade de repetirmos um ou outro.


*Países do Magreb habitados por berberes: Marrocos, Argélia, Tunísia, Mauritânia e Líbia.

** Talvez por praticidade. Muitos hotéis e restaurantes do Nordeste, especialmente os de esquema ‘self service’, adotam o cuscus desmanchado em forma de fatofa, mas esta não é a tradição da maior parte do Nordeste.

*** Alguns países africanos têm pratos similares ao cuscuz, mas os nomes são diferentes e não há evidências de que tenham se originado no cuscuz berbere.


Cuscuz – Nordeste – Brasil – América do Sul 


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes

Fotos:

(1,3,4) Germana Gonçalves de Araújo - @editoracodice
(2) Wikimedia - Usuário:Toluaye, Domínio público,
(5) Domínio público - Luce Ben Aben - Library of Congress Prints and Photographs Division Washington, D.C. 20540 USA
(6) Dominio público.
(7) Rainer Zenz , Wikimedia CC BY-SA 3.0.
(8) Everton137, Wikimedia CC BY 3.0

Referências: 

Livros:

A História da Alimentação No Brasil., Luiz da Câmara Cascudo, Luiz (1963) - Global Editora.

Cuscuz, um livro de memórias afetivas, de Germana G. de Araújo e Breno Loeser - @editoracodice 

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24 comentários:

  1. Como sempre, importantes e ricas informações. Parabéns

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  2. Excelente Sylvia. Há realmente uma arte em fazer um bom cuscuz nordestino...nem sempre o simples é fácil!

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    1. Com certeza. Disse isso não apenas como repórter mas, principalmente, como nordestina kkk Eu não consigo fazer um cuscuz especial, mas conheço gente que consegue rsrsr

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  3. Bem Silvinha, como nordestino não tenho dúvidas da necessidade de um bom cuscuz de manhã cedo. Mas, depois desse seu fantástico mergulho no assunto, toda manhã vou me sentir dando um grande passeio pela história.

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    1. Esta é a ideia do blog kkk fazer com que as experiências se tornem mais significativas rsrsr Tô brincando.

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  4. Gostei muito Sylvia da matéria. O meu faço assim para cada xícara do pó do milho, meia xícara de água e uma colher de sobremesa de tapioca em pó e sal. Como todos os dias. Parabéns prima pela reportagem.

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  5. Depois de meses em casa, hoje estou indo ao Mercado Central e vou aproveitar para comer um cuscuz com carneiro. Muito interessante a história desse prato tão marroquino.

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    1. Pena que você não deixou seu nome. Da próxima vez não esqueça.

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  6. Matéria Maravilhosa!!! Parabéns Sylvia!!!

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  7. Excelente postagem, é realmente um patrimônio gastronômico. Eu moro em SP e aqui em casa consumimos cuscuz com atum ou frango, adorei conhecer mais sobre a história.

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  8. normeide neto de carvalho22 de novembro de 2020 17:41

    Gosto demais de cuscuz Sylvia, e concordo que ele é um patrimônio cultural
    e gastronômico do Nordeste. Sou nordestina, baiana e sempre tive cuscuz à
    mesa, desde criança. E gosto muito do cuscuz paulista também que vim a
    conhecer bem mais tarde, com minhas andanças por aí. Adorei conhecer sobre
    as origens dessa comida que mata a fome de tanta gente por aqui. Obrigada.

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    1. Eu que agradeço. Pela leitura e pelo comentário. Toda quinta tem matéria nova no blog. Acompanhe!

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  9. Quando estive no nordeste a trabalho, em diferentes cidades, tinha cuscuz quase todo dia no café da manhã. Realmente, Cuscuz é um patrimônio gastronômico e cultural do Nordeste que aprecio!

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  10. eu adooooro o cuscuz nordestino e o magrebino. Ja o paulista nao sou fã.
    muito interessante conhecer a historia, como sempre post nota 10!

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  11. Que interessante ler sobre as origens do cuscuz e como ele chegou a Brasil, não tinha visto nada a respeito sobre essa comida que é parte da identidade nordestina e eu adoro!

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    1. Que bom que gostou, Fabiola. A próxima nessa área de comida será sobre a Maniçoba rsrsr Fique ligada.

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