05/12/2019

Gabinete Português de Leitura: um templo literário no centro do Rio

Foto Sylvia Leite - Matéria Gabinete Português de Leitura - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Foto Sylvia Leite - Matéria Gabinete Português de Leitura - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Ele integra praticamente todas as listas das mais belas bibliotecas do mundo publicadas em veículos internacionais como o jornal espanhol  El País, ou as revistas norte-americanas
Travel+LeisureForbes e Time, para citar apenas alguns. Suas instalações são comparadas às de prédios como o do Trinity College, em Dublin, na Irlanda, que abriga o lendário Livro de Kells*, o de El Escorial,  na Espanha, tombada pela Unesco 

como Patrimônio Mundial da Humanidade, ou, ainda, o da célebre Biblioteca de Alexandria, no Egito. E, além das qualidades arquitetônicas, o Real Gabinete Português de Leitura, localizado no centro do Rio de Janeiro, abriga dezenas de obras raras, entre as quais um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, impressa em 1572, e os manuscritos originais do Dicionário da Língua Tupi, de Gonçalves Dias.

Muitos dos cerca de 350 mil exemplares que compõem seu acervo estão ao alcance visual de qualquer visitante. São guardados em estantes artesanais de madeira que se estendem do chão ao teto, ao longo de três andares, e dispostos de forma tão organizada que, à primeira vista, parecem uma grande pintura. O acesso aos andares superiores só é permitido aos funcionários mas - com exceção dos livros raros ou em estado de fragilidade - todos os volumes podem ser consultados gratuitamente no local. Basta, para isso, que o visitante localize o livro previamente pelo site do Gabinete e transmita o código de localização aos bibliotecários.

Foto Sylvia Leite - Matéria Gabinete Português de Leitura - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Passado o impacto da primeira visão, que por si só já valeria a visita, começamos a descobrir os detalhes. Os móveis, incluindo as mesas de leitura, são talhados em jacarandá; as galerias têm grades e pisos de ferro decorado e são sustentadas por colunas com detalhes dourados. No teto, mais duas preciosidades: um enorme lustre com base de ferro e uma claraboia octogonal com detalhes vermelhos e azuis. Nos cantos, quatro medalhões homenageiam Luís de Camões, a deusa Minerva das artes, do comércio e da sabedoria, e os navegadores Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama.


Foto Sylvia Leite - Matéria Gabinete Português de Leitura - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Embora o nome deixe dúvidas, o Real Gabinete Português de Leitura é uma iniciativa privada* - e sua fundação não teve qualquer vínculo oficial com Portugal. Ao contrário: foi criado por um grupo de 43 imigrantes, a maioria comerciantes ou outros profissionais liberais, e entre eles havia exilados políticos que vieram para o Brasil por terem sido perseguidos pelo regime absolutista de Dom Miguel - caso do advogado e jornalista  José Marcelino Rocha Cabral, que era considerado o mentor intelectual da instituição e acabou sendo eleito o  seu primeiro presidente. 


Em busca de conhecimento


A intenção desses portugueses, ao criar o Gabinete Português de Leitura, em 1837, era "promover a instrução entre seus associados e não associados", por meio de um acervo literário e científico que reunisse "obras impressas ou manuscritas
sobre quaisquer assuntos e em diversos idiomas.", segundo consta na primeira ata de sua diretoria**.

Desde o início, a biblioteca foi ganhando naturalmente um grande volume de obras em língua portuguesa, o que se acentuou a partir de 1935 quando foi instituído, pelo governo de Portugal, o "depósito legal"*** pelo qual todos os editores do país devem doar um exemplar de cada livro que publicam à Biblioteca Nacional de Lisboa que os remete ao Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro. A obrigatoriedade permanece até hoje e o Real Gabinete é a única instituição fora de Portugal que mantém o benefício.

Foto Sylvia Leite - Matéria Gabinete Português de Leitura - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Mesmo com essa tendência à especialização em edições portuguesas e brasileiras, a biblioteca reúne, em seu acervo, como foi previsto em sua criação, livros de diversas áreas e idiomas, entre as quais se incluem importantes edições de autores estrangeiros como Voltaire, Victor Hugo e Cervantes.


Acredita-se que os fundadores do Real Gabinete tenham sido influenciados pelas "boutiques à lire" (lojas de leitura, em tradução literal), que começaram a surgir na França logo depois da revolução de 1789, e eram lugares onde se podia alugar livros por pequenas quantias.

Foto Sylvia Leite - Matéria Gabinete Português de Leitura - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
O 'Gabinete', por sua vez, serviu de inspiração para o surgimento de instituições semelhantes em Recife (1850) e em Salvador (1863). Na mesma época, e impulsionados também pela Maçonaria e por ideais republicanos, surgiram gabinetes de leitura em cidades menores, depois transformados em bibliotecas municipais.


A sede atual do Real Gabinete Português de Leitura, que posiciona a instituição entre as mais belas bibliotecas do mundo, foi inaugurada em 1887, pela princesa Isabel, mas o grande acontecimento parece ter sido a colocação da pedra fundamental do prédio por Dom Pedro II, em 1880, ano do tricentenário da morte de Luis de Camões. Aproveitando a data, os sócios do Gabinete decidiram construir sua nova sede, mais uma vez sem se deixar influenciar pela realidade de Portugal, que na época atravessava uma crise econômica, social e política.

Foto Sylvia Leite - Matéria Gabinete Português de Leitura - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Entre os inúmeros eventos da dupla comemoração, pode-se destacar o lançamento de uma edição especial de Os Lusíadas, a inauguração de um busto de Camões no então Teatro Dom Pedro II, a cunhagem de uma medalha de ouro com a face de Camões e a exibição da peça "Tu, só tu, puro amor", escrita por Machado de Assis especialmente para a ocasião e cujo texto original hoje integra o acervo do Gabinete. O sarau artístico-literário em que a peça foi apresentada, contou ainda com um concerto musical regido por Arthur Napoleão, e encerrado com o "Hino Triunfal a Camões", composto pelo brasileiro Carlos Gomes. Cerca de três mil pessoas compareceram ao teatro, apesar dos ingressos terem custado pequenas fortunas.

Atividades complementares 

Foto Sylvia Leite - Matéria Gabinete Português de Leitura - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Desde 1933, o Real Gabinete mantém em sua sede uma oficina própria para encadernação, reparação e manutenção do volumes de seu acervo. O local, embora não seja aberto ao público, constitui um pequeno museu, com antigos equipamentos de impressão, gravação, douração e corte, todos em perfeito estado de conservação e alguns deles ainda em funcionamento.

No primeiro andar do mesmo prédio, está a sala dos brasões, um auditório decorado com os ícones das diversas cidades de Portugal, onde são realizados cursos, palestras e congressos organizados pelo Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras, que é ligado ao Centro de Estudos do Gabinete. 

Quando não há eventos, é permitido entrar no auditório e vale a pena esticar a visita por mais uma  horinha para apreciar as pinturas do teto e da parede, as molduras das portas e os vitrais das janelas.


*Leia, aqui no blog, matéria sobre a vocação literária de Dublin, a capital da Irlanda. 
** A palavra Real foi um título concedido pelo rei Carlos I, em 1906.
*** Livro de atas da Diretoria, 1837. 5.14 a 1847.2.30. Citado por Regina Anacleto, 
**** Esse depósito é uma espécie de concessão do governo português. 


Real Gabinete Português de Leitura - Centro do Rio - Rio de Janeiro - Brasil


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

    Fotos: Sylvia Leite

    Participação especial: Rosalie Correa


    Referências:

    Livro: O Real Gabinete Português de Leitura do Ro de Janeiro, de Antônio Gomes da Costa, Regina Anaclto e Beatriz Berrini.

    Vídeo:

    A Mais Bela Biblioteca do Mundo
    Beautiful Libraries Around the World Every Booklover Should Visit 


    Agradecimento:
    Rosalie e Oton Correa


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    8 comentários:

    1. Que maravilha! Até agora, eu não conhecia nada sobre essa biblioteca. Obrigada.

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    2. Maravilhoso! Ñ curto o Rio de Janeiro, mas vale só para conhecer este espaço. Gratidão Sylvia.

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      1. Eu que agradeço. Da próxima vez não esqueça de dizer seu nome, ok? Abraço!

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    3. Deu vontade de conhecer Silvinha. Boa sacada.

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    4. Maravilha! Obrigada pelos momentos deliciosos apreciando o texto e as fotos! Anna Vasconcellos

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      1. Eu que agradeço, Anna, pela leitura e pelo comentário. Toda semana tem matéria nova no blog e todo dia tem link, no Facebook, para uma matéria já publicada. Acompanhe!

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