01/08/2019

Morrinhos: uma história perdida no tempo

Foto Sylvia Leite - Matéria  Morrinhos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Os rastros do passado ainda estão por lá, mas não há textos sobre a história de Morrinhos - uma vila de pescadores que foi ponto de intermediação comercial entre o Centro-Oeste e o Nordeste do Brasil durante o Ciclo do Ouro.

Foto Sylvia Leite - Matéria  Morrinhos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Localizado à margem esquerda do rio Urucuia, afluente do São Francisco, o pequeno povoado parece ter parado no tempo, com aproximadamente 150 moradores segundo calculo de alguns nativos.

O chão é de areia e o traçado urbano se resume a uma praça, onde fica a igreja e a antiga casa do padre. Além disso, existe apenas uma rua, também sem calçamento, que liga esse centro ao leito do rio; e outra que logo se transforma em um caminho de terra batida. São os dois pontos de acesso ao lugar.

Quem chega pelo rio, ou pela estrada que leva à margem direita, tem que fazer a travessia em canoa, ou em uma minibalsa, guiado por uma corda que não deixa a embarcação ser vencida pela correnteza.

Para usar celular, é preciso ficar rondando uma determinada casa ao lado da igreja, que é o ponto mais alto da povoado. Se der sorte, o sinal entra em cinco ou dez minutos, mas só se sua linha for da única operadora que atua na região.

Foto Sylvia Leite - Matéria  Morrinhos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Tudo isso vale a pena. A travessia, pela paisagem. A dificuldade de sinal, claro, porque de vez em quando é bom se isolar, mas  também porque a espera se dá em plena praça e, enquanto esperamos, vamos fazendo descobertas.

Morrinhos: vontade de lembrança


Foto Sylvia Leite - Matéria  Morrinhos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA A principal delas é uma escultura que, à primeira vista, parece uma representação de nativos atravessando um rio, imagina-se que o próprio Urucuia. Em um olhar mais atento, percebemos que se trata da cena do primeiro encontro entre Riobaldo e Diadorin - os personagens principais do romance "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa - quando se conhecem, ainda meninos, e fazem um passeio de canoa.

Há quem considere a cena fora de lugar porque, no livro, ela se dá em um rio chamado de-Janeiro - também na bacia do São Francisco - e não no Urucuia, como talvez o artista, ou quem encomendou o trabalho, quisesse insinuar. Outros encaram a escultura como uma alusão simbólica ao livro, com múltiplos significados. O primeiro e mais abrangente seria a ideia de 'travessia', tão presente em cidades ribeirinhas, e da coragem a ela associada. Poderia se considerar, ainda, segundo os defensores da escultura, um cruzamento entre o fato de Rosa, nesse romance, referir-se ao Urucuia como o rio do amor, e o sentido da própria cena, que marca o início da paixão proibida entre Riobaldo e Diadorin.   

Difícil saber a quem dar razão, mas, seja como for, encontrar uma referencia literária perdida em uma vila de pescadores é, no mínimo, alentador.

Foto Sylvia Leite - Matéria  Morrinhos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA




A história não escrita


Mesmo sem livros, sabe-se um puco sobre Morrinhos, seja pela transmissão oral, seja pela pesquisa nos poucos documentos preservados. E a primeira coisa que se conta é que, provavelmente entre 1.790 e 1.840, ali funcionava um próspero porto.
Foto Sylvia Leite - Matéria  Morrinhos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Nesse período, Morrinhos teria servido como pouso e entreposto comercial, tanto na ida como na volta, de tropeiros que faziam o transporte e a comunicação entre a mineração do Centro-Oeste e a atividade pastoril nordestina. 

A cidade teria recebido também fiéis e peregrinos de toda a região, graças a uma Lei Provincial que, em 1850, a elegeu como sede da Paroquia de Nossa Senhora da Conceição.  

Esse movimento terminou no final do século 19, com a transferência da paróquia para o vizinho município de Buritis. Já a perda de importância do porto provavelmente se deve a diversos fatores como o fim do Ciclo do Ouro, a chegada de fazendeiros à região e o inicio da industrialização do país.

O porto de Barra da Vaca, que viria ocupar seu lugar na bacia do São Francisco, passa a atender novas necessidades, como o transporte de famílias de fazendeiros e de seus funcionários. Tem início, ainda, o trânsito de mercadorias produzidas no Rio de Janeiro e São Paulo, a partir do porto de Januária.

O divisor de águas dessa transição ocorreu quando Morrinhos perdeu a condição de Sede Distrital, que foi assumida por Barra da Vaca, em 1.923. Na época, ambas pertenciam a Paracatu. Mas com a presença dos fazendeiros no novo porto, Barra da Vaca havia crescido e, além de tornar-se sede, foi elevada a município com o nome de Arinos - em homenagem ao jornalista, jurista e escritor Afonso Arinos de Melo Franco. Morrinhos também foi anexada ao município, mas na condição de povoado e sem os moradores poderosos do passado. Com o fechamento do porto, ficaram ali apenas os pescadores.


De tropeiros a caminhantes


A condição de porto certamente não será mais recuperada por Morrinhos, tampouco seu florescimento comercial, mas, desde 2014, um projeto batizado como Caminho do Sertão e definido por seus autores como "uma imersão socioecoliterária no universo de Guimarães Rosa" tem levado mais de 70 pessoas por ano ao local.

É muito pouco se comparado aos velhos tempos, mas equivale a quase metade de sua população e, embora a passagem seja rápida, sempre há uma interação dos visitantes com a população local. Além disso, a
inclusão de Morrinhos na rota desse projeto tem feito com que a imagem da aldeia fique gravada na memória dos caminhantes, em sua maioria jovens, e seja levada a várias partes do país. Pelo menos dessa forma sua história vai sendo transmitida oralmente até que um dia possa chegar aos livros.

Morrinhos - Arinos - Minas Gerais - Brasil


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos:  Sylvia Leite


    Esta matéria contou com a importante colaboração de moradores de Morrinhos e guias do projeto Caminho do Sertão.


    Referências:

    • Consultoria do historiador, pesquisador e professor de História, Xiko Mendes (mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural pela Universidade de Brasília).
    • "Guia Cultural e Ecoturístico do Entorno do Parque Nacional do Grande Sertão Veredas", de Xiko Mendes - Funarte/Unifam

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    8 comentários:

    1. Minas e seus mistérios encantadores, com presença sutil de Guimarães Rosa.
      Pelo seu relato de Morrinhos, me veio à lembrança o Mangue Seco no início da década de 80, antes da novela da Globo.
      Amei o texto, Sylvinha!
      Abraços,
      Val Cantanhede

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      1. Obrigada, Val. Realmente Morrinhos lembra muito Mangue Seco e tem uma história semelhante.

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    2. Leitura da manhã, com pão e cheirinho de café... tudo isso bem Brasil. Adorei ver aqui a citação a Afonso Arinos de Melo Franco nascido em Paracatu em 1868 e tio do homônimo sobrinho também jurista Afonso Arinos de Melo Franco nascido em BH em 1905. As obras escritas pelo tio são precursoras da linguagem literária coloquial de Guimarães Rosa porém poucas vezes lembrada (talvez ofuscada pela sombra do nome que o confunde com o sobrinho). Livros como “Pelo sertão” (1898) e “Os jagunços” (1898) são uma delícia de ler e nos surpreende pela valorização de palavras e expressões (na época arrojados neologismos) que nunca antes tinha sido enaltecido pelo intelectuais literatos. São pesquisas tão importantes quanto as do contemporâneo Silvio Romero (também pouco lembrado). Enfim... agora ouvir “Sussuarana” de Heckel Tavares e Luis Peixoto pra completar a trilha dessa viagem. Obrigado Sylvia por trazer esse oasis de memórias até nós. Gilberto

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      1. Eu que agradeço pela leitura e pelo comentário, Gilberto. Afonso Arinos está citado, também, na matéria sobre Paracatu, duas semanas atrás. Beijo.

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    3. que beleza de descoberta (pelo menos, para mim). aqui sempre encontramos novidades e ótimas leituras, fora a interatividade com os outros leitores que nos enriquecem acrescentando novas informações. Abraço, Sylvia. Abração, Gilberto Habib.

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    4. Como sempre, trazendo um lugar novo e com tantas histórias. Maravilhoso.

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