08/11/2018

Piriápolis: um balneário de inspiração alquímica

É difícil imaginar que um homem sozinho tenha sido capaz de erguer uma cidade, a partir do nada, com seus próprios recursos materiais. A surpresa aumenta quando sabemos que Francisco Piria, o autor da façanha, viveu no século 19, quando os sistemas de comunicação e transporte ainda eram muito precários. E o mais instigante: ele teria planejado e executado sua obra tomando por base o simbolismo alquímico.

Piriápolis, como foi batizada em homenagem a seu fundador, é considerada uma cidade talismã por estudiosos de Alquimia. Desde o seu traçado até a estrutura e decoração de alguns prédios estão repletos de referências a essa prática ancestral, que tem como um de seus princípios básicos a equivalência e o equilíbrio entre as realidades celestes e terrestres.

Antecipando a Era de Aquário


De acordo com estudiosos, o simbolismo geral da cidade está ligado à Era de Aquário - um intervalo de aproximadamente dois mil anos no qual, segundo acreditam, o ser humano conseguirá harmonizar as instancias material e espiritual. Há divergências sobre o seu início: para uns, já estamos nessa era desde a década de 1960, para outros, isso só ocorreu na virada do século e ainda há outros para quem seu início se dará por volta do ano 2.600.

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Matéria Piriápolis - Foto Sylvia LeiteAntecipando-se pelo menos um século a todas
essas datas, Piria teria tomado a Era de Aquário como tema central de sua obra. A expressão mais clara dessa escolha seria o projeto arquitetônico de um dos hotéis construídos por ele (o Argentino Hotel), que visto de cima tem a forma da letra "H".  Coincidência ou não, esse é o traçado básico da representação de Urano, o planeta que rege o signo de Aquário.

Na decoração do hotel há inúmeras outras referências. A mais significativa delas talvez esteja no vitral localizado na ecada principal do hotel, onde se veem dois golfinhos estilizados sobre uma fonte. A mensagem implícita na imagem seria a de que assim como o golfinho, por ser um mamífero, precisa subir à superfície para respirar, o ser humano também precisa periodicamente subir ao plano espiritual para ter acesso à sua essência e, com isso, manter o equilíbrio entre suas instâncias visíveis e invisíveis.


A dualidade da vida aparece ainda na entrada do hotel, nas esculturas de grifos - figuras mitológicas que simbolizam um embate entre o leão, de energia material e terrena, com a águia, de energia espiritual e celeste, que acabam fundindo-se de maneira harmônica no leão alado.

Circuito alquímico


O simbolismo aquariano também estaria presente ainda no posicionamento dos marcos que determinam os pontos energéticos da cidade: a fonte do touro, a fonte de Vênus, o cerro de Santo Antônio, a Catedral e o Castelo de Piria. Ao traçarmos uma linha ligando os cinco locais, obteríamos uma forma semelhante à da constelação de Aquário. 

Cada um desses pontos teria um significado especial. A fonte do touro, por exemplo, representaria a primeira etapa do processo alquímico, quando se extrai a água da pedra.  Mas há também uma lenda segundo a qual um touro moribundo recuperou-se ao beber a água dessa fonte e essa seria a razão do monumento.

Um dos pontos mais impressionantes do circuito é a Catedral de Piria, que nunca foi aceita pela Cúria por conter várias referências alquímicas. Conta-se que foi usada por ele para fins não rituais, mas agora encontra-se em ruínas. Segundo anotações do próprio Píria, a catedral teria sido posicionada de tal forma que no equinócio de primavera um raio de sol atravessaria o vidro de sua roseta frontal e iluminaria um ponto específico do altar. Nesse ponto iluminado seria deixada a substância que possibilita as transmutações alquímicas.

O castelo onde Piria viveu até morrer é outro local repleto de referências. Ali encontram-se quadros, móveis e parte dos instrumentos que teriam sido usados por ele em seu laboratório alquímico. Entre os elementos de maior destaque está uma porta que não leva a parte alguma. Sua função era lembrar às pessoas, e ao próprio Piria, que a entrada para para outros mundos encontra-se neste mundo, mas para enxergá-la é preciso estar atento.

O local exibe também testemunhos de outros aspectos desse homem visionário, que cultivava muitas paixões além da alquimia. Uma delas era o socialismo, como fica claro em um dos cômodos do castelo, onde há uma foto de Lênin na parede, lado a lado com a sua; e no livro "El socialismo triunfante - Lo que será mi país dentro de 200 años", escrito pelo próprio Piria em 1898.


Um projeto que parecia inviável


Piriápolis não foi o nome dado por Piria ao balneário que fundou. Há relatos de pelo menos duas outras denominações: "Cidade del porvenir", em função da ideia futurista que ele tentou vincular ao empreendimento, e Heliópolis, um nome de inspiração alquímica que faz referência à equivalência analógica entre o sol e o o ouro. Acabou vencendo um nome que inicialmente não passava de apelido irônico pelo qual  jornalistas referiam-se ao projeto do balneário, que lhes parecia algo irrealizável. 

A fundação dessa lendária cidade pode ser melhor compreendida se antes explorarmos um pouco a história de seu criador, um uruguaio de nascimento que aos seis anos foi enviado à cidade italiana de Diano Marina, próxima a Gênova, onde seria educado sob a orientação de um tio Jesuíta. Acredita-se que a ligação com a Alquimia tenha surgido dessa relação com o tio, pois sabe-se que os Jesuítas herdaram os conhecimentos dos Templários, entre os quais encontravam-se as operações alquímicas.

Piria voltou ao Uruguai aos 13 anos e depois de uma experiência militar começou a trabalhar como leiloeiro no Mercado Velho, em Montevidéu. Depois de um incêndio que destruiu o mercado, passou a negociar com roupas e nessa época começou a demonstrar uma impressionante criatividade publicitária. Sua primeira grande esperteza teria sido uma coincidência de nomes.

Conta-se que nas últimas décadas do século 19, surgiram na capital uruguaia os primeiros fuzis da marca Remington para atender uma população em constante conflito pelo domínio do país. Aproveitando a situação, Piria teria criado uma espécie de capa comprida que batizou com o nome do fabricante de armas. Para atrair compradores, imprimiu um panfleto com o seguinte texto:  "todos os orientais* devem ir encontrar seu Remington", com o endereço da loja logo abaixo. Ao chegar ao local indicado, em vez de fuzis os clientes encontravam as capas a baixos preços e acabavam comprando. Esse recurso teria proporcionado a venda de aproximadamente 5.000 capas.

Depois das roupas vieram os terrenos, que Piria vendia em dezenas de prestações, possibilitando sua aquisição por trabalhadores. As terras à venda eram localizadas nos arredores de montevidéu e, para seduzir os compradores, ele organizava visitas aos locais com transporte grátis e os recebia com espetáculos e coquetéis, prática bastante difundida hoje em dia mas inteiramente nova para a sociedade uruguaia do século 19.

Ao final de vinte anos, ele tinha criado cerca de 350 bairros em Montevidéu e vendido 175 mil terrenos. A fortuna que conseguiu acumular era suficiente para sustentar sua família por muitas gerações. Mas em vez de usufruir dessa condição, preferiu lançar-se em outro desafio: a construção de um balneário nos moldes dos que acabara de conhecer na Europa.

Para concretizar o seu sonho, Piria adquiriu 2.700 hectares de terras no departamento de Maldonado, próximo ao local onde hoje se encontra Punta del Este.  Loteou a área, construiu hotéis e até uma linha férrea para possibilitar o transporte da nova cidade até a cidade mais próxima. A ideia era construir uma cidade autônoma que vivesse do turismo.

O Argentina Hotel, como o próprio nome sugere, foi criado para atrair os vizinhos argentinos e tornou-se, naquele momento, o maior e mais luxuoso da América Latina. Para se ter uma ideia da grandiosidade do investimento, o estoque de louça personalizada encomendada por Piria na época da construção do hotel para garantir a reposição de peças quebradas nunca precisou ser renovado e segundo informações do próprio hotel, a quantidade remanescente é capaz de atender a demanda futura por muitos anos.

Piria foi um homem polêmico, amado por muitos e odiado por outros tantos. Se dizia socialista, mas era tido por muitos como conservador. Não se sabe ao certo se foi um alquimista ou se apenas admirava o simbolismo alquímico. Talvez por todas essas incertezas mas, principalmente, pelo que conseguiu concretizar, vale a pena conhecer a sua cidade.


*Orientais era a denominação dos uruguaios pois seu país está localizado na margem Leste do rio Uruguai.

Piriápolis - Maldonado - Uruguai


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos: Sylvia Leite

    Referências:
    Livro: "El socialismo triunfante - Lo que será mi país dentro de 200 años", de Francisco Piria.

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    28 comentários:

    1. Sensacional. Estive de passagem por essa cidade. Eu mal sabia que, além da beleza, ela guardava tantos mistérios. beijos

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      1. Obrigada, querida. Bom te ver sempre por aqui. Beijos.

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      1. Obrigada! Queria saber seu nome. Da próxima vez não esqueça de colocar, ok?

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    4. Que instigantes esse lugar e seu fundador! E vc nos conduz a viagens fascinantes, sempre descobrindo fatos, locais e pessoas muito especiais.
      Quando voltar ao Uruguai irei conhecer Pirápolis.

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      1. Obrigada! Pena que você não se identificou. Da próxima vez, coloque seu nome ao final do comentário.

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    5. Adriana Calabró Orabona8 de novembro de 2018 23:53

      Adorei! Parabéns!

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      1. Obrigada, Adri, volte sempre. Toda quinta tem matéria nova.

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    6. Fiquei fascinada pela história de Piriápolis. Espero conhecer logo esse balneário. Val
      ������

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    7. Sempre ótimo teu blog!!! Pablo.

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    8. Super interessante a matéria de hoje, Lúcia Almeida.

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    9. ��������������������estive mês passado em Piriápolis e adorei. �� Aida Carrera.

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      1. É muito interessante mesmo, Aida! Obrigada pelo comentário.

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    10. Quando estive lá, a caminho de Punta, a guia nos contou muitas histórias engraçadas sobre este grande empreendedor

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    11. Que história incrivel! Como um Pais tao tranquilo pode ter essa efusao de paixoes. ......
      Augusta Leite Campos

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      1. Obrigada pelo comentário, Gusta. Piriápolis é incrível mesmo, mas na época de Píria o pais não era tão tranquilo assim.

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