25/10/2018

São Cristóvão: testemunha do intercâmbio de valores

A maioria das cidades brasileiras, históricas ou não, provavelmente recebeu influência de duas ou mais
culturas, tendo em vista a miscigenação que houve aqui desde a chegada dos portugueses. Poucas, no entanto, conseguem expressar o fenômeno de forma tão clara como São Cristóvão, a povoação mais antiga do Estado de Sergipe.

A evidência maior dessa mistura é a Praça São Francisco, tombada pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade por ser considerada a melhor representação, no Brasil, da simbiose entre padrões arquitetônicos e urbanísticos de Portugal e Espanha.

Construído, em sua maior parte, na época da União Ibérica, quando os dois países eram governadas pelo mesmo rei,  Felipe II, o conjunto arquitetônico segue o conceito de Plaza Mayor (Praça Maior) empregado na Espanha e em suas colônias americanas, mas também incorpora elementos e insere-se em um traçado urbano tipicamente portugueses.

Por toda a cidade, a convivência de culturas se repete em igrejas e outros edifícios, em sua maior parte tombados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como é o caso da Igreja Matriz (de Nossa Senhora da Vitória) e da Igreja de Senhor dos Passos.

Talvez influenciada por esse começo de valores e saberes compartilhados, a mescla de culturas  ultrapassa o período da União Ibérica e vai além da arquitetura e do urbanismo, chegando a outros aspectos da cidade, como é o caso da culinária.


Bricelets e queijadinhas


Entre as tradições gastronômicas seculares de São Cristóvão está o Bricelet, trazido da Suíça pelas irmãs Beneditinas que viveram no Convento do Carmo. O famoso biscoito das freiras, como ficou conhecido, é uma espécie de waffle muito fino e crocante, com discreto sabor de laranja, bastante conhecido na Europa e em algumas partes no Brasil. O que poucos sabem é que além de suíço ele agora é também sergipano pois, além de ter alimentado moradores e visitantes ao longo de séculos, o biscoito tornou-se parte da história de São Cristóvão.



Nos primeiros tempos, proporcionaram recursos para ajudar na manutenção do convento. Quando as beneditinas foram embora, repassaram a receita e o equipamento para as freiras da ordem Imaculada Conceição que comandavam o Lar Imaculada. Recentemente, o conhecimento e a prensa foram entregues a antigos funcionários que continuam produzindo e vendendo com o mesmo empenho, mas agora sem vínculo com qualquer instituição.

Outro elemento gastronômico importante e representativo do intercâmbio de saberes são as queijadas, um tipo de doce trazido de Portugal e adaptado pelos escravos às condições locais. Na receita original portuguesa o recheio era feito com queijo, mas devido à escassez de recursos os escravos trocaram o ingrediente por coco, que é uma fruta abundante na região.

A mescla nos folguedos

Elementos africanos e portugueses, sagrados e profanos, unem-se nos diversos folguedos populares de São Cristóvão. A Caceteira, por exemplo, foi criada para louvar São João, mas o elemento rítmico da música e da dança é o Coco, tocado com instrumentos como ganzá, zabumba e cuíca e marcado por passos como o sapateado ou "sambado" e pela "umbigada - movimento usado para a escolha do parceiro com quem se vai dançar no centro da roda.

A Caceteira anuncia a chegada do mês de junho e faz isso em frente à Igreja do Carmo, onde os
participantes esperam as badaladas da meia-noite no último dia de maio para comemorar festivamente a chegada do mês de seu santo protetor.

Em 25 de junho, o dia do santo, o grupo faz uma procissão ao morro São Gonçalo onde há uma imagem do Cristo Redentor. A subida é acompanhada por fogos e regada a cachaça.

Uma romaria que mobiliza o nordeste


São Cristóvão tem ainda uma romaria famosa que, assim como a arquitetura, os biscoitos, a queijada e os folguedos, veio de fora e foi absorvida pela população. Conta-se que na segunda metade do século 18, dois pescadores encontraram uma caixa boiando no rio Paramopama, que banha o município. Era uma imagem de Senhor dos Passos e na embalagem estava escrito: "Para a Cidade de Sergipe d'El Rei". 

A imagem foi levada à Igreja da Ordem Terceira do Carmo e isso deu início à maior manifestação religiosa do Estado ligada ao tema da Penitência. A romaria inclui duas procissões: a primeira é realizada no segundo sábado da quaresma para levar a imagem do santo da Ordem Terceira do Carmo até a matriz Nossa Senhora da Vitória. A segunda é realizada no domingo e inclui dois cortejos: um com a imagem de Senhor dos Passos e outro com a imagem de Nossa Senhora da Soledade. O clímax é o encontro das duas imagens na Praça São Francisco, seguido pelo Sermão do  Encontro e pelo Canto de Verônica.


História e histórias


São Cristóvão foi fundada em 1590, por espanhóis, num ponto médio entre a Vila de Olinda e Salvador da Baía de Todos os Santos, para facilitar a comunicação entre as duas povoações e aumentar a vigilância sobre os rios da região por onde franceses e holandeses podiam realizar seus ataques.

Entre lutas e disputas políticas, a cidade mudou três vezes de lugar, sofreu invasões de povos distintos, tornou-se um anexo da Bahia e reconquistou sua independência. Por mais de 30 anos foi a capital de Sergipe, condição que perdeu em 1855, quando um movimento liderado por senhores de engenho conseguiu a transferência da capital para Aracaju, onde seria construído um porto fluvial em condições de facilitar o escoamento do açúcar.

A julgar por relatos históricos e transmissões orais, a mudança provocou um forte impacto nos moradores de São Cristóvão e um deles entrou para a história, ou para o folclore, por sua inconformação. João Nepomuceno Borges, mais conhecido como João Bebe Água por causa do consumo excessivo de cachaça, teria mobilizado cerca de 400 homens para protestar contra a mudança da cidade e jurado que nunca poria os pés em Aracaju. Ao perceber que seus esforços não produziram efeito, teria escondido foguetes atrás da porta da casa para soltar no dia em que a sede do estado fosse novamente São Cristóvão.

O Festival de Arte

A capital não voltou mais para lá. Pelo contrário. Na década de 1950, o município perdeu sua faixa litorânea para Aracaju.

A São Cristóvão restou a condição de polo cultural. Está incluída em todos os roteiros turísticos por sua riqueza histórica e arquitetônica. Abriga vários museus, entre os quais se destacam o  Museu Histórico de Sergipe  e o Museu de Arte Sacra. O primeiro reúne móveis, documentos, moedas, louças e o famoso quadro de Horácio Hora que retrata Ceci e Peri - personagens principais do romance O Guarani, de José de Alencar.  O segundo possui um acervo de aproximadamente 500 peças e é considerado o terceiro do país na categoria.


Foi em suas terras que se construiu o campus da UFS (Universidade Federal de Sergipe) e foi também lá que a própria UFS criou, em 1972, um dos maiores festivais de arte do país, com uma programação voltada para a integração entre as diversas manifestações artísticas e folclóricas, locais e de outras regiões. O FASC (Festival de Arte de São Cristóvão) foi realizado anualmente até ser interrompido em 1995. A retomada ocorreu em 2017 e estamos às vésperas da próxima edição que será focada na diversidade cultural.


Novos saberes

Uma das mais novas atividades artesanais de São Cristóvão é a de bonequeira. Foi crida em 2011, durante uma oficina de bonecas de pano e atrai mulheres de todas as idades. Elas reúnem-se diariamente na Sala dos Saberes e Fazeres, anexa à Secretaria Municipal da Cultura, para produzir e comercializar seu trabalho. Além de possibilitar um novo ofício, as bonecas de pano representam mais um suporte de divulgação das tradições locais.

São Cristóvão - Sergipe - Brasil


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
Fotos: Sylvia Leite, Tanit Bezerra, Everaldo Fontes (Gaspeu) e Prefeitura Municipal de São Cristóvão (Divulgação).

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16 comentários:

  1. Fiquei surpresa com os padrões. E, com vontade dos biscoitinhos. Muito bom "conhecer" mais um lugar do nosso Brasil. Obrigada

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  2. Sylvinha, esse seu blog é fantástico!

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    1. Obrigada. Queria saber quem escreveu o comentário. Você não quer se identificar?

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  3. Quantas informações históricas interessantes!
    Parabéns,Sylvinha,pela excelência de seu blog!

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    1. Obrigada!Você esqueceu de se identificar.Não quer me dizer seu nome?

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  4. Sylvinha, que linda a nossa São Cristóvão! Fui lá há umas quatro semanas, para fotografar e escrever sobre ela pro meu blog. Mas, ainda não consegui tempo pra isso. Outros temas entraram na frente. Parabéns por retratá-la com tanta beleza!

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    1. Obrigada, Soninha! Bom te ver sempre por aqui. Beijos

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  5. Excelente trabalho de pesquisa, Sylvinha!
    Com tantos anos morando em Sergipe e participando de alguns festivais de São Cristóvão, só agora com essas informações em seu blog, a antiga capital sergipana me foi encantadoramente desvelada.
    ������❤ Val

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    1. Obrigada, Val. Bom saber que gostou. Toda quinta tem matéria nova aqui no blog. Espero que se torne leitora assídua! beijo

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  6. Que maravilha termos Sao Cristóvão em nosso pequeno mas "rico" Estado. Rico em Patrimonio Cultural e Humano. Parabéns Sylvia por nos mostrar isso através de São Cristóvão.
    Augusta Leite Campos

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    1. Obrigada, Gusta, pelo comentário e pela assiduidade. Beijo

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  7. Gostei de saber que Sao cristovão, cidade cuja arquitetura que me encanta é de inspiraçao Espanhola, alem da tradição portuguesa em nossas cidades. Descrição muito fiel em estilo leve e sgradável. Parabens

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    1. Obrigada, dra Clara Leite. Da próxima vez não esqueça de assinar rsrs. Se não tivesse me contado, eu não teria como saber que o comentário é seu. Beijo.

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