04/10/2018

Colônias pomeranas capixabas: onde tudo se faz em mutirão

Juntamento é o nome dado pelos pomeranos ao costume de se ajudar mutuamente em todas as situações que podem ser resolvidas de forma coletiva. A expressão criada por eles vem da palavra portuguesa ajuntamento que significa agrupamento de pessoas. Os pomeranos do Espírito Santo se agrupam para realizar trabalhos de interesse coletivo, como construir cemitérios e escolas, ou para viabilizar projetos familiares como colheitas, construção de casas e organização de festas.

Foi por meio de um juntamento que se construiu, com a técnica do barro úmido socado em formas de madeira, a primeira igreja luterana do Espírito Santo, no município de Domingos Martins. Uma de suas características mais marcantes é a espessura das paredes, quatro vezes maior que a média atual. A obra já tem cerca de cem anos e nunca precisou ser reformada.

São também os juntamentos que estão por trás da tradição do casamento (hochtied), tido como uma das festas mais importantes das colônias. Quando um pomerano decide se casar, os preparativos envolvem toda a comunidade. Um 'convidador' (hochtiedsbirrer), geralmente irmão da noiva, é  encarregado de fazer a convocação oral em sua língua de origem, o dialeto pomerano (pomerisch-platt).

Ele veste sua roupa domingueira (sündoschstüüch), coloca flores e fitas no chapéu e na lapela, e leva na mão uma garrafa, também enfeitada, da tradicional bebida fermentada à base de gengibre (gengibirra). Em cada sítio que chega, reúne a família dos proprietários para dar a notícia. Depois bebe com eles. O texto recitado, embora tenha conteúdo profano e bem humorado, leva o nome de oração do convidador do casamento (hochtijdsbirargibeed).

Num gesto de aceitação ao convite, o que envolve a presença na cerimônia e a colaboração com os preparativos, a dona da casa prende uma fita ou lenço colorido na roupa do convidador, que termina o dia bem alegre e cheio de penduricalhos. Mas é preciso ficar atento a um detalhe: tanto nos enfeites como nos lenços e fitas de confirmação, está ausente o amarelo pois os pomeranos acreditam que essa cor pode trazer azar aos noivos.

A colaboração chega das mais diversas formas: doação de ingredientes, empréstimos de panelas, pratos, talheres e copos, além do pagamento dos músicos, com o qual cada convidado colabora, deixando alguma quantia dentro de uma cesta já na entrada da festa. As melhores cozinheiras
(hochtiedskoca) da região são convidadas pelos pais dos noivos para comandar a cozinha e não cobram pelo trabalho. Ao contrário: sentem-se reconhecidas por terem sido escolhidas.

As festas de casamento costumam durar três dias. O baile da sexta-feira é um encontro íntimo, iniciado com a cerimônia do quebra-louças (puldaroowand ou polterowend), em que pratos são atirados ao chão e seus cacos sã varridos pelos noivos e enterrados em volta da casa para dar sorte. Trata-se de um momento de confraternização entre os que se envolveram nos preparativos. Na mesma noite, é servido um jantar cujo prato principal é uma sopa de miúdos de galinha (hinapoudan). Os pomeranos acreditam que,
por ser uma ave que cisca, a galinha afasta tudo que possa prejudicar a felicidade dos noivos. Ao final, começa o baile, ao som de pequenas sanfonas conhecidas como concertinas.

A cerimônia religiosa é realizada no sábado de manhã, também para convidados, e em seguida os noivos saem em cortejo pela cidade. Durante todo o dia, a casa fica aberta com bolos e doces em cima da mesa. À noite, é realizado o segundo baile de concertinas. Nessa noite, é permitida a entrada de não convidados, inclusive pessoas que estejam visitando a cidade, desde que paguem uma quantia determinada pela família da noiva para ajudar nas despesas da festa. No domingo, é realizado um almoço que reúne os restos do que foi servido nos dois primeiros dias.

Um costume que está caindo em desuso, mesmo entre os que ainda festejam o casamento de forma tradicional, impressiona e instiga a curiosidade: é a noiva vestida de preto. Durante anos, historiadores acreditaram que se tratasse de um protesto pelo fato dos senhores feudais pomeranos obrigarem as camponesas a passarem a primeira noite de casada com eles. Mas pesquisadores recentes contestam essa tese e apresentam outra explicação: o vestido preto é um símbolo da morte social da noiva, que deixa a casa de sua família para ir viver com os parentes do noivo e assumir um novo papel familiar".

Os pomeranos são brasileiros


Há quem diga que a colaboração faz parte da natureza dos pomeranos. É provável que sim. Mas quando chegaram ao Brasil, eles não tiveram escolha: ou se juntavam ou não sobreviveriam às dificuldades, que iam desde diferenças geográficas, climáticas e gastronômicas, até a falta de estrutura e de apoio. Precisaram se acostumar ao calor, a alimentos que nunca tinham visto, como arroz com feijão e, pelo menos no caso do Espírito Santo, foi preciso desbravar a floresta e cultivar café e tomate nas encostas - uma experiência bem difícil para quem vinha de planícies.

Na época da segunda guerra, sofreram perseguições, foram proibidos de realizar cultos e de falar seu idioma. Mulheres e crianças dormiam escondidas no cafezal com medo de ataques e os homens ficavam em casa armados, guardando os armazéns que estavam sob ameaça constante de saques - uma situação desoladora para que abandonou o próprio país em busca de um futuro melhor. Coincidentemente, o Espírito Santo demorou a ser povoado porque era considerado uma área de proteção a Minas Gerais e isso fez com que os colonos recém-chegados demorassem algumas décadas até começar a conviver com os brasileiros.

O isolamento, as dificuldades e ameaças uniram esses imigrantes e os frutos da união podem ser vistos não apenas na tradição dos mutirões e da ajuda mútua, mas também na preservação da cultura. O Brasil é o único lugar do mundo onde as tradições pomeranas se mantêm praticamente intactas e onde se fala a sua língua.

Na época em que os pomeranos chegaram ao Brasil, ainda não tinha havido a unificação da Alemanha. Existiam reinos, principados e ducados independentes, com dialetos próprios, e a Pomerânia era um deles. Ficava na região Norte, banhada pelo Mar Báltico - hoje
pertencente à Polônia. Ali, como em toda a Europa, faltava perspectiva. No campo, a Pomerânia ainda estava sob o regime feudal e nas cidades não havia emprego.

Os pomeranos começaram sua emigração rumo aos Estados Unidos, mas a uma certa altura o governo americano suspendeu o incentivo e a rota migratória foi desviada para o Brasil, concentrando-se principalmente no Espírito Santo, mas também aconteceu em Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Antes deles já tinham vindo outros povos da mesma região, mas os pomeranos estavam em maioria e isso fez com que sua língua e cultura prevalecessem sobre as outras. Até onde se sabe, os pomeranos dos Estados Unidos se dispersaram. No lugar de onde vieram, também não existe mais essa identidade. Os poucos que ficaram misturaram-se a outros povos para escapar de perseguições. No final das contas, parece que hoje todos os pomeranos são brasileiros.

Festas e crenças


Entre os traços culturais preservados nas colônias do Espírito Santo, estão as festas e danças folclóricas. O acontecimento coletivo mais importante é a Festa da colheita, realizada no outono, entre maio, junho e julho. Nesse dia, os colonos agradecem e comemoram os resultados da safra anual depositando produtos no altar da igreja para doação. Depois do ritual, os produtos são benzidos e distribuídos. Os pomeranos também festejam as estações e, a partir da década de 1960, passaram a realizar a festa do colono.

Embora sejam luteranos, conservam práticas que parecem contraditórias com a religião e chegaram a ser proibidas, décadas atrás,  por pastores que vieram da Alemanha. Uma delas é o costume de benzer pessoas e animais contra mau-olhado (slechtouchan) e feitiçaria . Existe até um nome em pomerano para a benzedeiras (bispreekar). Mas o que talvez se diferencie mais de seus preceitos religiosos é uma espécie de manual pomerano de magia. Escrito em estilo gótico, o livro apresenta fórmulas mágicas para solucionar diversos tipos de problemas. Sempre foi usado pelas mulheres e era passado, em segredo, de mãe para filha.

Esta é apenas uma amostra da complexa cultura do povo pomerano. Para guardar e divulgar todos esses traços foi criada a Casa de Memória (Waiands Huss), um museu particular onde as pessoas são recebidas pela proprietária Marineuza, que se veste com roupas típicas para recepcioná-las.

Colonias pomeranas- Região Serrana e Norte capixabas - Espírito Santo - Brasil 

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24 comentários:

  1. Muito obrigada. Um pouco de conhecimento sobre povos que vivem entre nós.

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  2. Que legal! Não sabia da existência dessa cultura aqui! Como sempre você é show!

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  3. Excelente ! Já tinha ouvido falar mas tinha pouco conhecimento sobre eles... ótima matéria! ��

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  4. Como sempre, adorei. Gostei tb de saber como eles se ajudam. E resolvem os problemas entre eles.

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  5. Legal, não conhecia essas colônias, nunca ouvi falar. Obrigada pelo conhecimento. Bjo Suzana

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  6. Adorei a postagem de hj como sempre. Viver em comunidade, com juntamento como proposta maior é uma riqueza. Parabéns Sylvinha �������� Thelminha

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    1. Obrigada. Também acho muito legal essa vida em mutirão.

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  7. Mais uma coisa que nunca tinha ouvido falar! Parabéns! Valtinho

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  8. Que maravilha de tradição e que bom humor e alegria a dos Pomeranos. Que heranca riquissima recebemos. Obrigado Sylvia por nos contar a história e de forma muito interessante.
    Augusta Leite Campos

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    1. É. Uma bela herança. E agora, até onde se sabe, só o Brasil tem pomeranos.

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  9. Que alegria ver o trabalho tão competente da jornalista e pesquisadora Ednéia Harckbart. Realmente o livro é de uma riqueza memorial ímpar, com um conteúdo sensível. A obra dessa brilhante pesquisadora é uma contribuição histórica importante a partir de um trabalho minucioso, sério e muito dedicado. Parabéns por compartilhar com a gente.

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    1. Obrigada pelo comentário. Vou transmitir a Ednéa. Pena que você esqueceu se identificar.

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    2. Meu nome é Kátia Fraga, sou Professora de Jornalismo da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais

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  10. Silvia , muito interessante a "viagem" dessa semana ! Eu julgava que os descendentes haviam se concentrado em Santa Catarina ( Pomerode ) - nao sabía da existencia de uma colônia forte em tradições no ES. Muito legal conhecer um pouco dos costumes , obrigada , beijos

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  11. É interessante mesmo. Também fiquei surpresa quando soube. Fui passar uns dias com amigos que tinham casa em Domingos Martins e eles me levaram a uma festa pomerana. Bela descoberta.

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