Atualizado em 14/01/2023 por Sylvia Leite
Conta a tradição que Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, nunca invadiu Piranhas porque era devoto de Nossa Senhora da Saúde, a padroeira de cidade . A única vez em que um de seus seguidores atreveu-se a fazê-lo foi repreendido pelo líder. Mas, ironicamente, a cidade que o Rei do Cangaço tentou proteger tornou-se a protagonista de sua derrota final. Foi de lá que saíram os seus executores e foi também lá, em frente à Prefeitura, que foram expostas, pela primeira vez, as cabeças de vários integrantes do bando para deixar claro que o Cangaço tinha sido exterminado.
A batalha final, travada no estado de Sergipe, do outro lado do rio1, talvez tenha sido provocada por aquela desobediência do cangaceiro Gato, ocorrida dois anos antes. Segundo relatos, quando a cidade foi invadida, os que ainda não tinham sido atingidos fugiram, inclusive o delegado e o juiz, mas o morador Chiquinho Rodrigues não pôde fazer o mesmo porque sua mulher, Helenira, estava de resguardo e não podia se locomover. Então ele decidiu enfrentar os cangaceiros apenas com um rifle. Conta-se que a vitória sobre o bando de Gato foi alcançada graças às rezas da esposa e à sua própria coragem, logo recompensada pelo Exército com a doação de dois rifles.
Oitenta anos depois, os rastros de todo esse medo e da violência de ambas as partes transformaram-se em história e em lendas que agora provocam apenas a curiosidade dos viajantes. A história é contada oficialmente no Museu do Sertão, instalado na antiga estação
ferroviária bem no centro da cidade ou, de maneira mais lúdica e fragmentada, nas peças do artesanato local, nas encenações dos grupos de teatro e até mesmo nos nomes de estabelecimentos comerciais.
Além do Cangaço
Mas, embora seja uma pequena cidade, aparentemente perdida no sertão alagoano, Piranhas é muito mais que um cenário histórico do Cangaço. Encanta por sua aparência colonial, com ruas de pedra e casarios coloridos no estilo inglês. Prédios históricos como a torre do relógio, a antiga estação ferroviária, o centro das artes e a Igreja de Santo Antônio levaram a seu tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2002.
Piranhas seduz, também, por sua longa e movimentada história. O local é habitado desde a época colonial e sempre foi um dos principais centros às margens do São Francisco. Inicialmente chamava-se Tapera e o site da Prefeitura Municipal apresenta três versões
que podem justificar seu novo batismo. A primeira, e mais conhecida, é a lenda de um pescador que conseguiu pegar uma enorme piranha e, chegando em casa, percebeu que havia esquecido o cutelo na beira do rio, então falou para o filho: vá ao porto da piranha e traga o meu cutelo.
A segunda vem do viajante Rodrigues Carvalho – que esteve na cidade em 1854 – segundo o qual os moradores achavam o lugar tão feio que chegavam a compará-lo aos dentes das piranhas. A terceira, e talvez a mais bem aceita, conta que em frente à cidade havia um ponto do rio onde ocorriam muitos naufrágios e os tripulantes das embarcações eram devorados pelas piranhas.
Há, ainda, uma quarta explicação, segundo alguns a única verdadeira. A palavra Piranhas seria uma corruptela do termo termo “Pira-ai”, com o qual os indígenas teriam batizado tanto o peixe como o local, e que significa peixe-tesoura.
A onipresença do Velho Chico
Nas quatro versões, assim como em todas as questões que envolvem ou envolveram a cidade, o rio está de alguma maneira presente. Nele navegaram as embarcações que, no século 17, proporcionaram a troca de mercadorias entre o litoral e o sertão de Alagoas. E foi para interligar seus trechos navegáveis que, no século 19, se construiu a Estrada de Ferro Paulo Afonso, entre Piranhas e Petrolândia, em Pernambuco.
É a força de suas águas que move a Hidrelétrica de Xingó, responsável por ganhos e perdas de semelhantes proporções. É essa usina que fornece 25% da energia do Nordeste. Sua construção provocou a enchente do cânion que atravessa quatro municípios vizinhos, transformando-o em paraíso natural, onde turistas e moradores da região passeiam em lanchas ou catamarãs e tomam banho de rio enquanto observam os paredões.
Mas foi também a usina que causou incontáveis danos ambientais, a começar pela destruição das matas ciliares, que são habitats naturais de diversos animais. A geração de energia, por sua vez, mudou a temperatura da água comprometendo a sobrevivência de algumas espécies. Houve, ainda, o surgimento de outros peixes como é o caso do tucunaré, desviado da região amazônica – uma espécie carnívora e predadora que está aniquilando os peixes locais. Houve até uma mudança no cardápio: em vez de pitu e surubim, o prato mais comum em Piranhas é agora o tucunaré.
Misturadas com o rio estão a fé e a crendice. Em suas margens, é comum se avistar altares rústicos com a imagem de São Francisco. É também na beira do rio que se ouve a maioria das lendas da região. A mais conhecida é a do Caboclo d’água, um homem que vive no rio e vira as canoas de quem navega à meia-noite. Mas há ainda muitas outras, como a do Fogo corredor, que tem várias versões Brasil afora, mas em Piranhas é uma espécie de condenação imposta aos compadres que se apaixonam traindo as pessoas com quem são casados. Ao morrerem, os amantes adúlteros transformam-se em duas chamas que movem-se sobre a água do rio, uma correndo em direção à outra.
O Velho Chico é também lugar de banho para turistas e nativos. Em terra firme, é difícil se encontrar um ponto do qual não seja visto ou pressentido pela proximidade. E, para completar, o rio ocupa grande parte da paisagem que se contempla de cima, a partir dos mirantes localizados nos dois extremos da cidade: a igreja de Senhor do Bonfim e a pirâmide que marca a passagem do século 19 para o século 20.1

Notas
- 1 Leia, aqui no blog, matérias sobre lugares, cidades e museus localizados na região de Xingó: Grota de Angico, Museu de Xingó
- 2 Leia, também, sobre outros lugares especiais à margem do São Francisco: Ilha do Ferro / Ilha dos Anjos / Penedo
Piranhas – Alagoas – Nordeste – Brasil – América do Sul
Fotos
- Coloridas - Jaqueline Rodrigues, Lúcia Bellenzani e Sylvia Leite.
- P&B - autor desconhecido.











Obrigada. Pena que você não deixouseu nome. Da próxima vez não esqueça, ok?
Cidade linda! Fiz 3 visitas a Piranhas e nunca esqueci, parabéns pela reportagem!,
Muito legal mesmo. Obrigada pelo comentário. Da próxima vez, não esqueça de dizer seu nome.
Muito legal. Já fui lá diversas vezes. Sempre encantadora e bucólica e uma boa comida na beira rio.
Que bom! Conseguir acrescentar alguma coisa é uma grande satisfação. Obrigada pela assiduidade. beijo
Só hoje parei para ler. Gostei muito. Já conhecia a história mas você conseguiu colocar coisas que não tinha observado . Parabéns.
Legal, Karina. Toda quinta tem postagem nova aqui. Fique ligada. E obrigada pelo comentário.
Que ótimo! Fui com o BLOG VIAGENS PELO BRASIL a Piranhas e amei!Gosteida sua perspectivs detalhando aspe tos históricos. Parabéns!
Que bom! Conhece o lugar?
Demais, Sylvinha! Adorei!
Ainda nao conheço, Sylvinha!
Nossa, Soninha, tão perto de você! Não deixe de ir a Piranhas e aproveite para conhecer a Grota de Angico, o Museu de Xingó e a Fazenda Mundo Novo.
Oba! Vou cobrar, heim!!! Enquanto estava escrevendo a matéria, conversei com Jaqueline Rodrigues. Ela me passou informações interessantes e até me convidou para conhecer o sobrado vermelho, o casarão dos Rodrigues. Mas quanto mais contatos, melhor! Obrigada.
Vou levar vc na casa de Celso Rodrigues, filho de seu Chiquinho Rodrigues, pra vc conhecer os diversos causos dessa cidade. Ele é um querido amigo da nossa família.
Ah, legal. Fico morrendo de curiosidade quando as pessoas não assinam rsrsr
Eu que agradeço pela visita e pelo comentário.
Acima foi eu que esqueci de assinar o meu comentário Sylvia.
Sylvia que histórias fantásticas dessa cidade Nunca tinha ouvido falar antes. Grata pela matéria. Bj
Que bom que você gostou, Rose. Volte sempre. Toda quinta tem postagem nova.
Obrigada, Valtinho. Não sabia que tinha trabalhado lá. deve ter sido muito bom.
Obrigada, Cynthia, bjs
Obrigada, Elizete. bjs
Excelente matéria. Já estive algumas vezes em Piranhas, mas adorei ficar sabendo mais detalhes sobre essa aconchegante cidade. Uma delícia saborear uma cerveja com pitu, vislumbrando o belo Chico.
Parabens, Sylvinha
Muito bom! Saudades do tempo que trabalhei nessa linda região!
Parabéns Sylvinha! Muito Bom!
Muito bom! E fotos lindas. Parabéns
Obrigada. Fico feliz com isso. Da próxima vez escreva seu nome.
Obrigada, Gilka!
Só faltou dizer seu nome. Fiquei curiosa. Obrigada pelo comentário. Bom saber que a matéria foi aprovada por quem conhece.
Parabéns, seus blogs são maravilhosos!
Sim gostei e conheço a cidade e os causos
Tive o prazer de conhecer esse lugar maravilhoso, subi a escadaria até a igreja de Senhor do Bom Fim?
Maravilhoso mesmo, Lucelia. O blog tem outras matérias sobre lugares interessantes da região: Fazenda Mundo Novo (pinturas rupestres), Museu de Xingó ( acero arqueológico), Grota do Angico (onde mataram Lampião).