03/06/2021

Tulum: uma cidade maia que cultuava Vênus

As ruínas que hoje conhecemos como Tulum, na costa mexicana do Caribe, um dia se chamou Zamá,
Foto DEZALB por Pixabay - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
que em Iucateque, o idioma maia, significa Cidade da Aurora ou Cidade da Manhã. Isso porque, como o nome bem diz, ela foi erguida sobre um penhasco, à beira mar, de onde se tem uma vista panorâmica do nascer do sol. A denominação atual teria vindo tempos depois e faz referência às muralhas que cercavam a cidade e permanecem em volta das ruínas. Embora o nome seja de origem maia, cogita-se a possibilidade de ter sido dado pelos espanhóis que invadiram a região.

A alusão ao amanhecer não é a única
Foto Carlos Delgado  - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
referência astronômica na cidade. Uma de suas construções principais, conhecida hoje como Templo dos Afrescos – por conter desenhos e inscrições rupestres –, era um observatório dedicado ao registro e estudo dos movimentos do sol. Há quem afirme, inclusive, que a cidade foi construída em torno dessa torre de observação, que era dotada de instrumentos especiais, como espelhos côncavos de obsidiana. Ali teria funcionado uma escola de astronomia frequentada por nobres de diversos reinos da região; maias, astecas, zapotecas, entre outros.

Embora as informações sejam desencontradas, e acredite-se que o nome da cidade fazia alusão ao amanhecer, predomina a tese de que os moradores de Zamá (hoje Tulum) cultuavam o planeta Vênus, conhecido por muitos como ‘a estrela da tarde’. Antes de significar uma contradição, isso pode sugerir uma dualidade, ou completude, especialmente porque as aparições de Vênus para nós, aqui da terra, são marcadas por esses dois momentos: do lado Oeste, depois do ocaso e do lado Leste, antes da aurora.

Foto CrystalDawn por Pixabay - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Outras teses relacionam Vênus a um importante prédio de Tulum: o Templo do Deus Descendente. A construção é conhecida por esse nome graças a um relevo com a imagem da deidade que ornamenta seu pórtico ocidental. O Deus descendente é também relacionado a Kukulkán, ou Serpente Emplumada – o principal elemento iconográfico dessa e de outras cidades maias, que se repete em muitas fachadas*.

A lenda do povoado subterrâneo

Foto Dronepicr  - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
É provável que as crenças dos moradores de Tulum também tivessem uma relação com a Lua, pois é sob sua luz que se desenrolam os acontecimentos míticos da lenda que tenta explicar o abandono da cidade pelos maias. Segundo essa narrativa, ao perceber a aproximação dos espanhóis, o rei de Zamá teria reunido seus súditos e os liberado para que fugissem da cidade. Mas todos se negaram a partir, reafirmando sua fidelidade ao reino, e, assim, a população foi tocando seu dia a dia até ser inteiramente cercada. Nesse momento, o monarca decidiu realizar uma retirada coletiva.

Sem comunicar sua intenção, o rei convocou um encontro logo após o pôr do sol. Cada morador deveria levar consigo seus bens mais essenciais. Assim que todos chegaram, foi feita a revelação. Mas por onde sairiam se a cidade estava sitiada? Sem dizer nada, o rei dirigiu-se à praia e golpeou a areia, abrindo um pequeno buraco, do tamanho de uma cova de caranguejo. Instantes depois, a abertura começou a
Foto  Martin Falbisoner  - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
crescer até transformar-se em um túnel.

O rei ordenou que seus discípulos entrassem no túnel e seguissem em frente, sob o testemunho e a proteção da Lua. Assim que todos os moradores obedeceram à ordem do rei, foram seguidos por ele. Iriam viver no mundo subaquático o tempo necessário para que os invasores fossem embora e eles pudessem resgatar o domínio da cidade. Por causa dessa lenda, há quem acredite que os descendentes daqueles fugitivos ainda vivam embaixo do mar esperando a hora de retornar à sua terra.
Foto   - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

As crenças do povo de Tulum não eram relacionadas apenas aos corpos celestes, mas também a fenômenos naturais, como a chuva e o vento; ou a plantas, como a ciba (espécie de paianiera), ou, ainda, a animais como o jaguar. Cada atividade cotidiana – como a pesca e a agricultura - assim como cada época do ano, era marcada por um ritual consagrado à deidade correspondente a fim de garantir os melhores resultados. Havia, ainda, um deus protetor das plantações de cacau e das atividades mercantis, denominado Ek Chuah. Para algumas fontes, o comércio contava também com a proteção de Vênus. E, por fim, como ocorre em muitas comunidades politeístas, os maias tinham um deus principal, denominado Itzamná ou deus dos céu.

Foto  Hobe / Holger Behr  - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Tulum como porto e entreposto comercial


Mas nem só de deuses, mitos e atividades de subsistência viveu Zamá. Há indícios de que, nos séculos que antecederam a chegada dos espanhóis, a cidade foi um importante entreposto comercial, onde se negociava produtos como plumas, artefatos de sílex e cerâmica local, além de cobre, jade e obsidiana – os dois últimos vindos da Guatemala, que fica a cerca de 700 km dalí. Teria sido inicialmente um porto da cidade de Cobá que cresceu e se tornou independente.

A cidade foi a última, ou uma das últimas a serem erguidas pela civilização maia, no século 6 – período considerado pós-clássico e de decadência dessa civilização –, e a primeira a ser tomada pelos espanhóis no século 16 – cerca de 70 anos depois de sua chegada ao México.

Diferente do que diz a lenda do refúgio subaquático, acredita-se que a população de Zamá pode ter sido dizimada pelas doenças trazidas pelos invasores, para as quais não havia anticorpos nem medicamentos. Mas há quem defenda a tese de que o local foi abandonado e seus moradores se dispersaram pela região.
Foto   Sverzel  - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Zamá era cercada por muralhas de seis a oito metros de espessura que resistem até hoje, mas toda essa proteção servia apenas às classes mais altas, compostas por nobres, guerreiros, sacerdote e astrônomos. Agricultores, artesãos e outros trabalhadores viviam além dos muros e alguns deles ainda tinham que pagar impostos.

As ruínas de Tulum


Tulum é o terceito sitio arqueológico 
Foto Carlos Delgado  - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
pré-colombiano mais visitado do México, ficando atrás apenas de Teotihuakan e Chichén Itzá, mas, diferente dos dois primeiros, não tem pirâmides nem prédios impressionantes. 

Dentro da cidade murada, havia cerca de 50 edifícios religiosos, governamentais e residenciais. As ruínas de alguns deles ainda encontram-se em razoável estado de conservação e podem ser vistas de fora pelos visitantes. Caso do já citado Templo dos Afrescos – provável observatório astronômico em torno do qual teria sido erguida a cidade – e do Templo do Deus Descendente – supostamente também dedicado a Vênus.

A imagem mais divulgada de Tulum corresponde ao antigo farol, que era iluminado por meio de tochas
e é conhecido atualmente como Castillo. Trata-se do edifício mais alto da cidade, com sete metros de altura e localizado à beira-mar. Teria sido usado, também, como santuário e espaço cerimonial.

Foto jhovani_serralta por Pixabay  - Matéria Tulum - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Outro cartão postal das ruínas é o Templo do Deus do Vento, construído sobre uma base circular e também localizado à beira-mar. Algumas fontes relacionam esse deus à serpente emplumada – que em alguns registros aparece associada a Vênus e ao Deus Descendente.

Embora não esteja entre os prédios hoje considerados mais importantes da cidade em ruínas, a Casa do Cenote merece pelo menos uma menção. A simples existência do edifício mostra a importância dada pelos maias a esses acidentes naturais, que podem ser descritos como poços dentro de cavernas e constituem a principal fonte de água da Península de Yucatán, onde Tulum está localizada. Neles eram realizados cultos, sacrifícios e oferendas aos deuses.

Além das ruínas, a visita a Tulum, ou Zamá, é marcada pela presença de lagartos, que são hoje seus únicos habitantes e é provável que continue sendo assim por muito tempo. A menos que a lenda se transforme em realidade e os maias ressurjam de baixo do mar para retomar a cidade que construíram tanto tempo atrás.

Tulum - Estado de Quintana Roo - Peninsula de Yucatan - México - América Central

Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 

(1) DEZALB por Pixabay
(2,9) Carlos Delgado - CC BY-SA 3.0 - Wikimedia
(3) CrystalDawn por Pixabay
(4) Dronepicr - Obra do próprio - CC BY 3.0 - Wikimedia
(5) Martin Falbisoner - Obra do próprio - CC BY-SA 4.0 - Wikimedia
(6) Angie Toh por Pixabay
(7) Hobe / Holger Behr - Obra do próprio, Domínio público - Wikimedia
(8) Sverzel - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0 - - Wikimedia
(10) jhovani_serralta por Pixabay


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4 comentários:

  1. Quanta história, quanta lenda... adoro lugares assim. Estive lá há muitos anos, mas não deu pra perceber toda a riqueza de Tulum. Mas seu post me deu informação suficiente pra saber que é um lugar importante num roteiro para o Máxico.

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