07/01/2021

Praia do Francês: antigo lugar de quarentena

Muita gente conhece, ou pelo menos já ouviu falar sobre a Praia do Francês, no litoral de Alagoas, conhecida popularmente como 'O Francês'. O
Foto Sylvia Leite - Matéria Praia do Francês - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
lugar ficou famoso por causa de sua paisagem paradisíaca, que combina o azul do mar com dunas e coqueirais, das piscinas naturais formadas pela retenção das ondas em uma barreira de corais, e pelo de verão que predomina praticamente o ano inteiro. Mas além dessas qualidades, a cidadezinha de 50 mil habitantes tem também histórias para contar e pelo menos parte delas diz respeito a um prédio em ruínas conhecido popularmente conhecido como Leprosário ou Lazareto.

É difícil saber ao certo quem o
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construiu e a que servia. Para alguns, foi obra dos franceses que ocuparam a região e o teriam erguido para esconder o pau-brasil que extraiam e traficavam. Embora a ocupação e o tráfico sejam historicamente confirmados, a versão mais aceita para o Lazareto é que tenha sido construído pelos portugueses para isolar doentes.

A segunda hipótese coincide com a versão oficial que relata a construção do prédio em 1855, pelo presidente da província Antônio Coelho de Sá e Albuquerque. Segundo esses registros, o Lazareto seria parte de um conjunto de medidas sanitárias e preventivas solicitadas pelo Governo Imperial do Brasil, a fim de prevenir e combater epidemias, especialmente nos arredores dos portos.

Foto Sylvia Leite - Matéria Praia do Francês - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
O local escolhido para a construção do lazareto, hoje de fácil acesso por trilhas de areia, na época era desabitado e ficava a três léguas da capital da província. Além disso, acreditava-se que as correntes de ventos que passavam por ali não se dirigiam a nenhum dos povoados vizinhos, garantindo, assim, que não houvesse contaminação de seus moradores, como afirma o próprio Sá e Albuquerque em relatório aos deputados.

Mas ao que tudo indica, a vida funcional do Lazareto durou pouco. A última menção documentada sobre sua existência foi uma fala de
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Sá e Albuquerque, em 1856. Em 1871, a instituição já era mencionada por Thomas Espíndola, no livro ‘Geografia Alagoana’, como um prédio em ruínas, abandonado pela dificuldade de acesso tanto por terra como por mar.

Uma monografia escrita pela arquiteta Sara Azevedo Martins apresenta as medidas e as divisões internas do prédio com suas respectivas funções. De acordo com Sara, o Lazareto tinha uma grande enfermaria, três áreas de serviços e uma cisterna. O prédio inteiro media 19,50m por 13,50m e tinha cobertura no formato de duas águas.

Apesar de ter ficado popularmente conhecido pelo nome de Leprosário, parece não haver registros de
Foto domínio público - Matéria Praia do Francês - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
que tenha abrigado pessoas com lepra. O mais aceito historicamente é que tenha sido construído em função da epidemia de cólera-morbo e que tenha funcionado mesmo como um lazareto, ou seja, um local de quarentena e tratamento para viajantes marítimos, com qualquer tipo de doença, que chegavam à Província de Alagoas, a fim de proteger a população do contágio. 

Sejam quais forem suas verdades, o Leprosário ou Lazareto é um lugar que traz em si importantes registros da história alagoana e que corre o risco de ser ainda mais degradado pelo tempo caso não se faça, logo, um trabalho de preservação. Projeto para isso, já existe. Durante uma Pós Graduação em Conservação e Restauração de Patrimônio Histórico na UFBA, a arquiteta Sara Martins, autora de estudo já citado sobre o Lazareto, elaobrou uma proposta de revalorização da área e conservação das ruínas. 

Foto Sylvia Leite - Matéria Praia do Francês - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Do pau-brasil à cana-de-açúcar


Mas além do Lazareto, a Praia do Francês tem muito mais a contar. O nome da praia –  não é difícil adivinhar pelo que já foi dito até aqui – , teve origem no período colonial e se refere provavelmente à presença de franceses que extraiam pau-brasil para exportar de forma ilegal. Inicialmente, o lugar foi chamado de Porto dos Franceses, depois de Praia dos Franceses até chegar ao nome atual Praia do Francês.

Apesar de provavelmente terem dado nome ao lugar, os franceses não foram os primeiros ocupantes de que se tem notícia. Antes de sua chegada, viviam ali os índios Caetés, que passaram a ajudá-los em seu comércio ilegal e o Brasil já era colônia portuguesa.

Na época, o local pertencia à Capitania de Pernambuco, que como todas as outras, foi dividida em sesmarias. A que incluía a região, tinha o nome de Sesmaria de Madalena e foi ali que nasceu, em 1591, a vila que daria origem ao atual município de Marechal Deodoro, onde está localizada a Praia do Francês. 
Foto Sylvia Leite - Matéria Praia do Francês - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Seu primeiro nome foi Vila  Madalena do Sumaúma e sua criação tinha como objetivo eliminar o tráfico de pau-brasil.  O lugar escolhido – uma planície próxima ao Rio Sumaúma e à Lagoa Manguaba – tinha visão privilegiada e facilitava a observação dos inimigos. 

Foi o plantio de cana-de-açúcar e os engenhos que fizeram a vila se desenvolver e obter status de município, com o nome de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul.

Quando Alagoas desmembrou-se da Capitania de Pernambuco, Santa Maria Madalena tornou-se sua capital e passou a ser denominada Alagoas. O nome Marechal Deodoro só foi adotado  posteriormente, por ser a terra natal do proclamador da República e primeiro presidente do Brasil, Marechal Deodoro da Fonseca.

Foto Ricardo Lêdo - Matéria Praia do Francês - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Entre a pesca e a Singeleza


Apesar da cana-de-açúcar ter sido o principal motor de desenvolvimento do município, foi a pesca que sustentou a Praia do Francês até que o turismo começasse a dominar a economia local. Conta-se que, antigamente, quando nascia um menino, as apostas em seu futuro tinham apenas duas opções: ser músico ou pescador. A música teria vindo da tradição dos pífaros que se espalhou por Pernambuco e Alagoas.

Mas o povoado também desenvolveu, por anos, a tradição do bordado, especialmente o bico e a renda que recebem o nome de Singeleza –  uma espécie de gradeado tecido com nós que lembra as redes de pesca e é feita com agulha, linha e talos de coqueiro. Atualmente, o bordado anda meio esquecido pela população local, mas há programas oficiais que trabalham para mantê-lo vivo em todo o município.


Praia do Francês - Marechal Deodoro - Alagoas - Brasil - América do Sul


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

    Fotos:

    (1,2,3,4,6,7) Sylvia Leite
    (5) Domínio Público
    (7) Ricardo Lêdo/Secretaria da Cultura de Alagoas


    Referências:

    Sites:


    Estudos e livros:

    Lazareto: ruínas de uma época -  Sara Azevedo Martins (monografia)

    Geografia Alagoana - Tomas Espíndola (livro)

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    12 comentários:

    1. Estimada Sylvia, un placer leer y conocer las historias contadas por ti! No conocía está Praia do francês. Muchas gracias!!!

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    2. normeide neto de carvalho10 de janeiro de 2021 14:23

      Fico minha encantada com seus posts. Adoro as histórias e a forma como você descreve tudo em detalhes. Especialmente esse sobre a Praia do Francês. Nunca tinha lido nada a respeito da origem da Praia do Francês. Parabéns mais uma vez.

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      1. Que bom, Normeide. Fico feliz com isso. Toda quinta tem matéria nova aqui no blog e todo dia tem link, lá no facebook, para uma matéria já publicada. Acompanhe!

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    3. Muito interessante a história da praia do francês como antigo lugar de quarentena. Não conheci a praia do Francês. Imaginar que cada uma dessas praias do nosso litoral deve ter histórias não reveladas. beijocas

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      1. Pois é, Líliam. Isso é fascinante mesmo. Tem aqui no blog uma matéria sobre Tamandaré que fala um pouco sobre a Praia dos Carneiros, e tem outra sobre Mangue Seco. Dê uma olhadinha. Acho que você vai gostar.

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    4. Muito bacana esse post sobre a Praia do Francês, estive lá mês passado e não fazia ideia da história do lugar. Muito legal!

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      1. Pois é, muita gente não sabe nada sobre o leprosário porque as ruínas ficam escondidas e quase ninguém toca no assunto, mas elas estão bem perto do povoado. Dá pra ir a pé, aliás, acho que é a melhor maneira.

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    5. Muito bom, gostoso de ler! Precisamos muito fazer o resgate de memórias quase ou totalmente esquecidas. Estive aí ha mais de 40 anos, quanta mudança nessa regiao!

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      1. Que bom que gostou, Cleide! Toda quinta tem matéria nova no blog e todo dia tem link no Facebook para uma matéria já publicada. Acompanhe!

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    6. Que interessante saber sobre a história da praia do francês. Visitei essa atração há tantos anos e não fazia ideia das curiosidades e acontecimentos que se passaram. Adorei!

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      1. Victoria, é mesmo difícil imaginar que uma praia tenha histórias, mas elas sempre têm. Que bom que gostou.

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