21/01/2021

Marília de Dirceu: romance e poesia em Ouro Preto

Da última janela do casarão onde morava, em Vila Rica, atual Ouro Preto, o poeta Tomás Antônio
Foto Aline Bernardes - Matéria Marília de Dirceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Gonzaga olhava rua abaixo e enxergava ao longe uma casa larga e avarandada. Nela, avistava uma adolescente de no máximo 16 anos*. Era Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, musa do poema Marília de Dirceu, de sua própria autoria, que acabou se transformando em um dos ícones da cidade. Gonzaga e Doroteia chegaram a marcar casamento, mas o noivado foi bruscamente interrompido e os dois nunca mais se encontraram.
O desfecho dramático deveu-se à prisão repentina do noivo. Tomás Antônio Gonzaga, que além de poeta
Foto Menalton Braff - Matéria Marília de Dirceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
era jurista e ativista político, foi um dos líderes da Inconfidência Mineira – a conspiração separatista que lutava para tornar Minas Gerais independente de Portugal e livrar sua população do excesso de impostos. Acusado de traição, foi preso em 1789 – ano em que se casaria com Dorotéa – e levado para a Fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, onde ficou detido por três anos. Ao final desse período, saiu da prisão, mas foi degredado para Moçambique, na época também colônia de Portugal.
No exííio, Gonzaga casou-se com a filha de um traficante de escravos, com quem teve dois filhos e viveu por lá até morrer, em 1810. Doroteia retirou-se para uma fazenda da família no município de Ituverava, onde permaneceu até a morte de seu pai, em 1815. Depois retornou à casa de Vila Rica, onde permaneceu até morrer, solteira, aos 85 anos de idade. Doroteia teria criado um menino, chamado
Capa de livro - Matéria Marília de Dirceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Anacleto, que para alguns era seu filho mas, para outros, era um sobrinho, filho da irmã Emerenciana, que teria feito algumas manobras para esconder sua maternidade.

As liras imortais


O poema Marília de Dirceu, inspirado nesse caso de amor frustrado entre Gonzaga e Dorotéia, conta, em versos, a história de dois pastores de ovelhas. Marília é a musa inspiradora e Dirceu é o personagem narrador.

Na primeira parte, composta por 33 liras e publicado em Portugal no ano do degredo de Tomás Gonzaga, Dirceu exalta a beleza de Marília, com quem deseja ter uma vida simples e bucólica. O segundo livro, publicado sete anos depois, tem 38 liras e fala, em tom pessimista, da saudade que sente na solidão no presídio.

O sucesso das duas primeiras partes fez com que os editores portugueses acrescentassem uma terceira, provavelmente apócrifa, publicada em 1812, dois anos após a morte de Gonzaga. Nele, Dirceu expõe a saudade da amada no exílio.
Domínio público - Matéria Marília de Dirceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

A obra do poeta inconfidente ganhou tamanha projeção que Minas Gerais tem hoje um município denominado Marília, em referência à sua personagem. E por todo estado é comum que se encontrem ruas, instituições e estabelecimentos comerciais – como lojas, pousadas e restaurantes – batizados em homenagem ao livro ou a seus personagens.

Mas a repercussão de ‘Marília de Dirceu’ não alcançou apenas os mineiros. Por causa dessa obra, importantes escritores e críticos classificaram Gonzaga como o mais importante poeta árcade do Brasil. Machado de Asis, por exemplo, comparou a popularidade de Gonzaga à de Basílio da Gama e dizendo que ‘ninguém deixa de ter lido ao menos uma vez o livro do Inconfidente’, e acrescentando ainda que ‘muitos de seus versos correm de cor’.

Manuel Bandeira afirmou em seu livro “Apresentação da poesia brasileira”, que ‘Marília de Dirceu’ ‘tornou-se desde
Selo postal - Matéria Marília de Dirceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
logo a lírica amorosa mais popular da literatura de língua portuguesa e nenhum poema, a não ser ‘Os lusíadas’, tem tido tão numerosas edições”.

Uma das homenagens mais significativas ocorreu em 1962, quando os Correios do Brasil decidiram incluir Marília em uma série de selos que reunia mulheres ilustres, fazendo a personagem literária ocupar um lugar de honra junto a personagens reais como Ana Neri e Anita Garibaldi.

Quem foi Marília?


Até aqui contamos a versão oficial do ‘mito’ Marília da Dirceu, que relaciona Doroteia com Marília e sua relação com Gonzaga ao romance literário. Mas apesar do noivado e seu desfecho terem acontecido de fato, há quem suspeite que Marília não era um pseudônimo de Dorotéia, mas uma figura simbólica usada por Gonzaga para representar genericamente a mulher amada e que podia estar relacionada não apenas a ela, mas a diferentes pessoas, em distintos momentos.

Há, ainda, uma terceira tese, defendida pelo historiador Tarquínio de Oliveira – estudioso da obra de Gonzaga –, segundo a qual a personagem Marília estaria associada a Maria Joaquina Anselma de Figueiredo, uma abastada viúva que teria sido amante de Gonzaga, e seria a causa de sua inimizade com o governador de Vila Rica, Luís Cunha Meneses. De acordo com Oliveira, Maria Joaquina seria não apenas a ‘Marília’, mas também a personagem ‘Nise’ do livro Cartas Chilenas, lançado no ano da prisão de Gonzaga. 

Foto Aline Bernardes - Matéria Marília de Dirceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

A memória da Marília Dorotéia


As teses que contestam a conexão entre Marília e Doroteia são cada vez mais conhecidas dos mineiros, dos amantes da literatura e até de quem visita Ouro Preto. É possível que seus autores tenham razão e não se descarta a hipótese de que uma ou outra dessas suposições possam um dia ser comprovadas. Mas, provavelmente, nada disso destruirá o mito que encanta os visitantes e enche de orgulho os nativos da antiga Vila Rica.

Foto Ricardo André Frantz - Matéria Marília de Dirceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

No imaginário local, Marília e Dorotéia continuam se fundindo em vários pontos da cidade. A começar pelo casarão onde viveu Tomás Antônio Gonzaga, hoje ocupado por setores da Secretaria de Turismo e por um museu. Conta o mito que, de sua janela, ele não apenas admirava a amada à distância, como pedia a uma vizinha que levasse bilhetes para ela.

As duas ressurgem juntas, também, na Ponte Antônio Dias, apelidada de Ponte dos Suspiros, por ser o lugar onde, supostamente, Dorotéia recebia e lia os escritos de Gonzaga. E voltam a se mesclar na Praça do Chafariz batizado com o nome de Marília, por estar próximo à casa onde Doroteia morava, hoje transformada na Escola Marília de Dirceu.

Passeando pela cidade, é possível encontrar praças e igrejas onde Doroteia e Gonzaga, ou melhor, Marília e Dirceu estiveram juntos. E para completar o passeio, é importante visitar o Museu da Inconfidência, onde os dois descansam juntos. 

Marília de Dirceu - Vila Rica / Ouro Preto - Minas Gerais - Brasil - América do Sul


Texto: Sylvia Leite 

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 


Fotos: 

(1,6) Aline Bernardes - site oficial Ouro Preto
(2) Menalton Braff
(3) Domínio público - Wikimedia
(4) Autor desconhecido - Domínio Público - Pantheon Escolar Brazileiro. p. Cartão 09 Wikimedia 
(5) Selo postal - Autor desconhecido - Dominio público - Wikimedia  
(7) Ricardo André Frantz - site oficial Ouro Preto


Referências:

Sites:



Livros:

Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga

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12 comentários:

  1. Adoro esse tema. Paixão quase igual a de Dirceu por Marilia, por tudo o que ele representa de cívico e de romance. Obrigado Sylvia

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  2. Não conhecia a fundo a história de Marília de Dirceu, obrigada por nós proporcionar o texto acima. Parabéns. Divulguei com amigos

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    1. Eu que agradeço. Pelo comentário e pela divulgação. Da próxima vez deixe seu nome, ok?

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  3. Excelente, apesar das visitas que já fiz, desconhecia esses detalhes. Parabéns Silvinha.

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    1. Bom saber que a matéria acrescentou alguma coisa. Obrigada pelo comentário.

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  4. Que legal conhecer tão a fundo a história de Marília de Dirceu, Ainda não conheço a cidade de ouro preto, mas tenho certeza que vou amar por todas as histórias e romance.

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    1. Vai amar com certeza. Pelas histórias e pela Arquitetura. Não deixe de ir.

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  5. São tão famosos os versos dedicados a Marília que sei alguns de cor.
    Mas existe outra face da obra de Gonzaga muito importante. Uma veia cortante, uma ironia que influenciou vários outros autores. Isso temos em Cartas chilenas. Vale um comentário.

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    1. Muito legal, Helô. Eu gostaria de saber alguns versos de cor, mas minha memória é horrível. Se eu não ler ou ouvir todo dia, não gravo rsrsrs Quanto às Cartas Chilenas, você tem toda razão. Vale o comentário que você fez e vale uma matéria só pra elas. Quem sabe não rola? Fique ligada! Beijo.

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  6. Perfeito este conteudo sobre Marilia de Dirceu com romance e poesia. Interessante que vemos várias ruas com o nome Marilia de Dirceu mas até então não sabia quem era. Foi bom ver neste post. Abraços

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    1. Que bom que você gosotu. Toda quinta tem matéria nova no blog. Volte sempre.

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