14/01/2021

Cajueiros Gigantes do Nordeste: anomalias que encantam

Contam os moradores da praia de Pirangi do Norte, no município de Parnamirim, no Rio Grande do
Norte, que tudo começou nos últimos anos do século 19 - ou nos primeiros do século 20, não se sabe ao certo -, quando o pescador Luís Inácio de Oliveira resolveu plantar, no sítio onde morava, o que hoje conhecemos como Cajueiro de Pirangi. Ele certamente imaginava que ali nasceria uma árvore como as outras, mas o cajueiro cresceu de forma inesperada, a ponto de, em 1994, ter entrado para Guinesse Book - o livro dos records - como o maior do mundo. Atualmente, o cajueiro ocupa uma área aproximadamente de 8 mil e 500 m², de onde são colhidos, a cada safra, cerca de 8.500 cajus. 

Foto Ben Tavener de Curitiba - Matéria Cajueiros gigantes - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO motivo da expansão está em duas anomalias que se alimentam mutuamente: a primeira, faz com que seus galhos cresçam para os lados e acabem tocando o chão por não a guentarem o próprio peso. A segunda faz com que, a partir de cada um desses galhos, surjam raízes que originam novos troncos. Aparentemente são árvores independentes, mas todos os trocos e galhos têm o mesmo código genético.

Por tudo isso, foi incluído nas rotas turísticas da Grande Natal, tornando-se um dos pontos mais visitados no Estado e mesmo do Nordeste. Quem vai até lá, sai impressionado com a experiência. A visita é feita por cima de passarelas e, para avistar a copa da árvore, é preciso subir em um mirante com 10 (alguns dizem 9) metros de altura. Quem vai no verão, que é a época da safra, ainda pode tomar um suco fresquinho de caju, que quase sempre está doce. 

Foto enioprado - Matéria Cajueiros gigantes - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

 Benefícios e problemas


Ao tornar-se atração turística, o cajueiro passou a contribuir com a economia local, beneficiando diretamente dezenas de artesãos e ambulantes que comercializam produtos típicos no seu entorno. Mas, além dos benefícios, a árvore gigante traz também preocupações porque seu galhos não param de crescer e, de tempos em tempos, a comunidade se depara com um desafio que gera muita polêmica: como lidar com o crescimento da árvore? podar seus galhos ou deixa-la tomar cada vez mais espaço, invadindo as áreas vizinhas?

Foto Jorge Savignon Jorrin - Matéria Cajueiros gigantes - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Por volta de 2.006, os galhos do cajueiro gigante começaram a invadir a pista de uma rodovia conhecida como Rota do Sol, que dá acesso ao litoral Sul do estado. Os partidários da poda argumentavam que além de provocar grandes congestionamentos na rodovia, os galhos do cajueiro poderiam atingir as casas de uma área próxima, ameaçando suas estruturas. Os defensores da manutenção dos galhos temiam que, com a poda, o cajueiro, mudasse de comportamento e até morresse. A solução foi construir um caramanchão sobre a rodovia de modo que os galhos, suspensos, não atrapalhasem mais o trânsito.

Foto Andrepimentasc - Matéria Cajueiros gigantes - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Ritmo de crescimento


Não se sabe exatamente quando foi que o tamanho do cajueiro começou a chamar a atenção dos moradores da região a ponto de ser detectada sua anomalia, mas como a multiplicação dos galhos tem se dado em proporção geométrica, acredita-se que nos primeiros anos a velocidade tenha sido bem menor.

Em 1955, cerca de meio século depois da suposta data do plantio, o Cajueiro de Pirangi foi tema de uma reportagem de Ítalo Viola, na revista 'O Cruzeiro'. Na época, sua área ainda era de 2 mil
Foto Jorge Savignon Jorrin - Matéria Cajueiros gigantes - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
m², mas, de acordo com o texto, tinha uma produção de 45 mil frutas por safra e já causava espanto, tanto que a própria revista o apelidou de ‘O Polvo’ .

Ainda segundo a reportagem, o cajueiro gigante já havia sido visitado por diversas personalidades, entre as quais estariam Juscelino Kubitscheck, o ex-governador de Minas que, no ano seguinte, se tornaria presidente da República;  os ex-governadores de São Paulo Lucas Garcez e, do Rio de Janeiro, Amaral Peixoto; um ex-embaixador da Espanha; o escritor e Sociólogo Gilberto Freyre e o jornalista Assis Chateaubriant.

Foto Mica Carboni - Matéria Cajueiros gigantes - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Contrastes


Entre as curiosidades do cajueiro está o 'Salário Mínimo', nome dado ao único galho que não se multiplicou como os outros porque sofreu apenas uma das duas anomalias. Ou seja: embora tenha crescido para o lado e tocado o chão, dali não surgiram raízes e muito menos um novo tronco.

Outro contraste com o gigantismo do cajueiro é o lagarto-de-folhiço ou Coleodactylus Natalensis Freire encontrado em seus galhos. Trata-se de um animal remanescente da Mata
Foto Mateussf - Matéria Cajueiros gigantes - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Atlântica e ameaçado de extinção, que mede pouco mais de 2 centímetros.

A perda do título


Por toda a sua história, o Cajueiro de Pirangi já tem lugar garantido no turismo e na memória de quem o visita, mas o título de maior do mundo já não faz mais sentido desde quando foi revelada a existência, no Piauí, de um cajueiro maior, talvez até mais antigo (segundo os piauienses com mais de 200 anos, mas sobre isso não há comprovação)  e com as mesmas anomalias. 

O concorrente é chamado de Cajueiro Rei (ou Cajueiro-rei) e tem 8.810 m² - 310 m² a mais que o de Pirangi. As medições geográficas na árvore e o sequenciamento genético para confirmar a unidade de todos os troncos e galhos foram concluídos em 2016 por pesquisadores das universidades estadual e federal do Piauí (Uespi e UFPI) e o estudo foi publicado um ano depois no periódico internacional Genetics and Molecular Research (GMR).

O cajueiro piauiense fica no município de Cajueiro da Praia e também é aberto à visitação turística.  Desde 2013, tem o título de Patrimônio Natural e Turístico do município. A luta agora é pelo tombamento nacional e para substituir o Cajueiro de Pirangi no Guiness Book.
Foto Papjerimun UESPI - Matéria Cajueiros Gigantes - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Quantos mais irão surgir?


Por mais espantoso que isso possa parecer, há indícios de que os cajueiros gigantes não sejam tão raros quanto se supunha quando apenas o de Pirangi era conhecido. Além do Cajueiro Rei, no Piauí, existe outro, no próprio Rio Grande do Norte que, embora sem comprovação científica, é tido como o segundo maior do mundo e parece ter sofrido mesma anomalia que os dois primeiros. Trata-se de um cajueiro de 3 mil 88 m² que está localizado na comunidade rural de Areias Alvas, no município de Grossos.

A valorização turística do cajueiro de Pirangi foi provavelmente o que motivou a divulgação do Cajueiro Rei e do cajueiro de Areias Alvas. Talvez pela mesma razão, ou pela ação de pesquisadores, outros cajueiros gigantes ainda possam ser descobertos no Nordeste, e até incluídos nessa disputa pelo título de maior do mundo.


Cajueiro de Pirangi - Pirangi - Parnamirim - Rio Grande do Norte - Brasil - América do 

Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes


Fotos:

(1) Mateus S Figueiredo - Flickr - Wikimedia - CC BY 2.0
(2) Ben Tavener de Curitiba - Wikimedia - CC BY 2.0
(3) enioprado - Wikimedia - CC BY-SA 3.0
(4 e 6) Jorge Savignon Jorrin - Wikimedia - CC BY-SA 4.0 / Wikimedia - CC BY-SA 4.0
(5) Andrepimentasc - Wikimedia - CC BY-SA 3.0,
(7) Mica Carboni - Wikimedia - CC BY-SA 4.0
(8) Mateussf - Wikimedia - CC BY-SA 3.0
(9) Papjerimun UESPI

Referências:

Portal de Turismo da Prefeitura de Natal

Revista 'O Cruzeiro' ( Matéria reproduzida pela revista Palavras Todas Palavras)
Site UESPI

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19 comentários:

  1. Que incrível! Muito interessante!

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    1. Obrigada pelo comentário. Da próxima vez não esqueça de dizer seu nome.

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  2. Muito interessante, tinha conhecimento apenas do cajueiro de Pirangi

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    1. O de Pirangi é o mais divulgado, mas acredito que existam outros além dos três citados na matéria.

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  3. Nossos cajueiros gigantes do Nordeste são nossas maravilhas da Natureza. Nossas sequoias. Junto com nossa caatinga deveriam ser nossos símbolos e nossa grande atração turística.
    Parabéns pela linda reportagem.
    Augusta Leite Campos

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    1. Obrigada, Gusta. Os cajueiros gigantes são maravilhosos mesmo. E você disse uma coisa interessante: são nossas sequoias mesmo.

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  4. Agora deu saudade das viagens com os Filhos ainda bastante novos.

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    1. Adoro quando minhas matérias despertam boas lembranças rsrs.Valeu, Sidney!

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  5. Que interessante sua matéria, Sylvinha! Não tinha conhecimento do cajueiro piauiense. Apenas visitei o do cajueiro de Pirangi, quase um bosque.
    Abraços,
    Val Cantanhede

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    1. É, Val, o de Pirangi é o mais conhecido mesmo, mas, como disse na matéria, acredito até que existam outos escondidos pelo Nordeste adentro.

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  6. Que interessante sua matéria, Sylvinha! Não tinha conhecimento do cajueiro piauiense. Apenas visitei o do cajueiro de Pirangi, quase um bosque.
    Abraços,
    Val Cantanhede

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  7. Belo registro, Sylvinha. O cajueiro é uma super atração, mesmo!!!
    Beijão.

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  8. Muitas curiosidades e informações interessantes sobre os cajueiros gigantes do Nordeste. O de Pirangi fui na época da escola, mas esse do Piauí é novidade pra mim. Acabamos de visitar um na Bahia, mas nem tão grande assim, porém as crianças adoram conhecer.

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    1. São muito interessantes mesmo esses cajueiros. E para as crianças é um passeio e tanto. Obrigada pelo comentário.

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  9. Os cajueiros gigantes do Nordeste, são realmente uma maravilha da natureza! Adorei a sua matéria, Cheia de curiosidades e informações legais.

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    1. Que bom que gostou! Toda quinta tem matéria nova no blog. Não eprca!

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  10. Quando visitamos o Cajueiro de Pirangi ficamos apaixonados, mas saber mais sobre ele aqui no post foi maravilhoso. Acho que mesmo que o outro cajueiro entre no lugar do Pirangi, o primeiro sempre será conhecido como o maior do Mundo.

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    1. Concordo com você. Mesmo que o títuo de maior do mundo passe a ser de outro, o de Pirangi já tem o seu lugar na história.

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