10/12/2020

Guimarães: o berço da identidade portuguesa

Embora as terras onde hoje se localiza Portugal já estejam habitadas há pelo menos 500 mil anos, e não
se saiba ao certo onde teve início essa ocupação – que incluiu os mais variados povos como fenícios, cartaginenses, celtas, romanos, germânicos e muçulmanos –, convencionou-se dizer que Guimarães, um distrito de Braga na antiga região do Minho, é o berço do país. A cidade, criada no século 4, foi a primeira capital do Condado Portucalense e, segundo a Unesco – que lhe concedeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade –, os primórdios de sua história “estão intimamente associados ao estabelecimento da identidade nacional portuguesa e da língua portuguesa no século 12”.

O episódio determinante dessa identificação foi a Batalha de São Mamede, ocorrida em 1128, na qual se disputava o governo do Condado Portucalense após a morte do governador Henrique de Borgonha. De um lado, estava seu filho, o infante Afonso Henriques, apoiado pelas tropas dos barões locais; do outro lado encontrava-se a viúva, condessa D. Teresa de Leão, e seu amante, o conde galego Fernão
Peres de Trava, que possuía tropas próprias. Com a vitória sobre a mãe e seu amante, Afonso Henriques tornou-se o primeiro rei do Condado de Portucale, hoje Portugal.

O centro de Guimarães é ‘testemunha’ dessa história e seu monumento mais representativo é o Castelo de Guimarães. Primeiro porque a luta aconteceu no Campo de São Mamede, em seus arredores. Depois porque nele teria nascido e se criado Afonso Henriques. É uma construção militar, erguida no século 10 para defender o condado de invasões dos Muçulmanos, e teria sido
reconstruída, tempos depois, pelos pais de Afonso Henriques, que a adotaram como moradia.

Ao lado, encontra-se a Igreja de São Miguel do Castelo – uma construção simples, imersa em controvérsia. É datada do século 13, mas acredita-se que tenha sido o local de batismo de Afonso Henriques, que viveu no século anterior, e, guarda, inclusive, sua pretensa pia batismal. Mais que isso: há quem diga que ali estão os túmulos dos 47 soldados que teriam lutado junto ao pai de Afonso Henriques em uma batalha bem anterior à de São Mamede.

Completando a tríade arquitetônica central de Guimarães, logo ao lado dos dois primeiros monumentos, está o Palácio dos duques de Bragança, conhecido também como Paço Ducal. O prédio foi construído no século 15 com a função de residência e hoje abriga um museu que reúne obras de arte, tapeçarias, réplicas de móveis e armas. Ao seu lado, sobre um enorme pedestal, encontra-se uma escultura de Afonso Henriques.

Quem visita Guimarães, também não pode deixar de conhecer o Largo da Oliveira, famoso por causa de um monumento em estilo gótico, que abriga um marco comemorativo denominado Padrão do Salado. Esse monumento foi construído a mando de Afonso IV, em 1340, para celebrar a vitória do rei de Castela, que era seu genro, em um embate denominado Batalha do Salado, travado contra os mouros
com o apoio de Guimarães. Mas a praça vai muito além disso.

A igreja de Nossa Senhora de Oliveira, por exemplo, tem origem em um mosteiro pré-românico do século 10 em torno do qual surgiu a vila de Vimaranes, batizada depois como Guimarães. Essa igreja é considerada o primeiro monumento gótico do Minho, embora tenha passado por várias alterações em diferentes períodos. Ao seu lado, está o prédio medieval do mosteiro, que hoje funciona como um museu, denominado Museu de Alberto Sampaio, e abriga mais de duas mil peças de arte sacra entre pinturas,
esculturas, tapeçarias e cerâmicas.

O Largo da Oliveira tem ainda o prédio do antigo Paço do Concelho – nome dado aos edifícios que sediavam as administrações municipais em Portugal. Em cima de sua fachada, encontra-se a escultura de um guerreiro que passou a ser popularmente conhecido como “o Guimarães”. Mas o que chama atenção nesse edifício são suas arcadas, que fazem a ligação entre a Praça da Oliveira e a Praça de São Tiago, estendendo o alcance visual dos dois espaços.


A lenda da oliveira


Além dos belos prédios, o Largo da Oliveira guarda uma lenda com versões ligeiramente distintas, mas todas envolvendo o pé de oliva plantado em plena praça. Conta-se que a tal oliveira foi colocada ali para que se pudesse retirar azeite de seus frutos e, com isso, iluminar a imagem de Santa Maria de Guimarães no interior da igreja. Mas, de uma hora para outra, a árvore secou.

Para tentar resolver o problema, um comerciante chamado Pedro Esteves doou uma cruz, que foi colocada embaixo do Padrão do Salado. Imediatamente, começaram a brotar folhas e a árvore voltou a dar frutos. A notícia de que a oliveira reviveu espalhou-se rapidamente, provocando romarias ao local e, na boca do povo, a santa passou a ser chamada de Santa Maria de Oliveira e depois Nossa Senhora de Oliveira, acontecendo o mesmo com o nome do largo.

A oliveira foi retirada da praça em 1870, por decisão da Câmara Municipal, sob a alegação de que atrapalhava a passagem dos cavaleiros, mas, em 1985 voltou ao seu lugar de origem. As três datas –
do milagre, da retirada e da restituição – foram gravadas no Padrão do Salado.


Guimarães e o Brasil


Assim como outras localidades portuguesas, Guimarães tem alguns pontos de contato com o Brasil. O primeiro deles é o fato de estar entre as cinco cidades que já foram capital do país, pois nessa lista encontra-se, também, o Rio de Janeiro, que, em 1808, assumiu o posto de capital do Reino de Portugal e Algarve ao tornar-se moradia da família real. As outras três são Lisboa, Coimbra e Angra do Heroísmo, no arquipélago de Açores.

O outro ponto de contato é o fato de um de seus jardins mais bonitos ter o nome de Largo da República do Brasil. Não consegui descobrir a razão, mas ela deve existir. Nesse largo fica a Igreja de São Gualter, também conhecida como Igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos.


Guimarães - Distrito de Braga - Minho - Portugal - Europa


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:

(1,5,6) Sylvia Leite
(2) Marco Aldeia - Wikimedia - CC BY-SA 4.0
(3) Juinha Seabra - Wikimedia - CC BY-SA 3.0
(4) CEphoto, Uwe Aranas or alternatively - Wikimedia - CC BY-SA 3.0
(7) Feliciano Guimarães - Wikimedia - CC BY 2.0
(8) nborges de Portugal - Wikimedia - CC BY 2.0 


Referências:




----------------------------------------------------- 
Gostou da matéria? Você pode deixar um comentário a seguir expressando sua opinião. E se quiser ajudar a aumentar a visibilidade do blog, é só divulgar esta postagem nas redes sociais. Basta clicar, aqui abaixo, no ícone de sua rede preferida e compartilhar.


Para ler sobre outros lugares de memória, clique nos links abaixo:

Goa 
Pedra do Ingá 
Galeria do Rock 
Igreja da Pampulha
Cádiz
Khiva
Redenção
Mesquita de Córdoba
Jantar Mantar
Grota de Angico











8 comentários:

  1. Qtas histórias tem Guimarães!!!
    Delicia de leitura!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que gostou! Volte sempre. Toda quinta tem matéria nova aqui no blog e todo dia tem link, lá no face, para uma das matérias já postadas aqui. Acomoanhe!

      Excluir
  2. A história está bem contada de forma simples e muito acessível
    Gostei muito
    Agora só uma referência à gastronomia que é excelente
    E esta cidade é das que mantém os jardins mais bonitos
    Um pequeno conselho não deixe de visitar aqui o palácio dos duques de Bragança

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo comentário. Pena que você não se identificou. Da próxima vez não esqueça de deixar seu nome, ok? Abraço! Volte sempre.

      Excluir
  3. Lero texto: Guimarães: o berço da identidade portuguesa me fez viajar no imaginário! Tenho muita vontade de conhecer Portugal, espero poder em breve!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero que possa ir logo. Portugal tem lugares lindos. Guimarães é um deles.

      Excluir
  4. Nossa, AMEI conhecer a história de Guimarães. A história da Oliveira me emocionou. É fiquei feliz de saber que tem um jardim chamado Largo da República do Brasil.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Essa história é linda mesmo. E Guimarães é bem legal. Aliás, Portugal é uma beleza e eu demorei muito a descobrir isso.

      Excluir

Obrigada por seu interesse em nossa postagem!