17/12/2020

Getty Center: uma obra de arte que abriga milhares de outras

Não é incomum que museus ocupem prédios bonitos e admiráveis. Muitos aproveitam imóveis
Foto Sylvia Leite - Matéria Getty Center - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
históricos relacionados diretamente ao seu tema central, como é o caso dos ‘museus casas’, instalados, geralmente, em antigas residências de artistas ou escritores. E, nesse caso, os imóveis estão incluídos nos respectivos acervos. Outros são especialmente construídos para esse fim e, com o tempo, passam a ser considerados obras de arte. O que impressiona no prédio do Getty Center – complexo cultural localizado em Los Angeles, que gira em torno de um importante museu – é o fato de ter sido concebido para ser, ele próprio, uma obra de arte, sem perder de vista a função de abrigar milhares de outras obras.

Um dos sinais dessa especificidade é o fato do
Foto Sylvia Leite - Matéria Getty Center - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
museu oferecer, entre suas visitas guiadas, um tour voltado exclusivamente para a arquitetura do prédio, que se desdobra em vários edifícios alinhados em duas alas sobre colinas da Serra de Santa Mônica. Em uma das alas, ficam os prédios administrativas e educacionais. Na outra, estão os pavilhões do museu propriamente dito.

Ao apresentar o prédio, a equipe do Getty Center faz questão de destacar o revestimento em pedra travertino de cor bege e altamente texturizada. Os motivos da escolha teriam sido o fato dessa rocha calcárea ter sido historicamente associada à arquitetura pública; suas qualidades como solidez e simplicidade; e sua capacidade de capturar e refletir luz e calor. De quebra, o travertino trouxe um ganho estético inesperado: entre suas pedras encontram-se folhas, penas e galhos fossilizados que só foram revelados após a separação dos blocos.

Foto Sylvia Leite - Matéria Getty Center - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Outro elemento central na construção é o uso de luz natural especialmente em halls, por meio de claraboias e paredes envidraçadas. As galerias do segundo andar também recebem iluminação natural regulada por um sistema de persianas e cortinas, com filtros especiais que garantem a proteção das obras de arte.

Discutir as formas arquitetônicas é trabalho para arquitetos e seus críticos, mas qualquer leigo é capaz de perceber a harmonia alcançada pela combinação de linhas retas, que projetam sombras paralelas, deixando interessantes desenhos no chão da área externa, com as formas curvas e circulares presentes tanto em prédios como em canteiros. Caso do Jardim de Cactus e do labirinto de azaleias do Jardim Central, que também tem formato circular.

O Jardim Central, aliás, é um dos pontos mais impactantes do lugar por oferecer ao visitante uma variedade de formas, cores,
sons e aromas. Segundo seu autor, o artista californiano Robert Irwin, “trata-se de uma escultura em forma de jardim, que pretende ser arte” e está em constante evolução. Para lembrar disso, uma frase sua que diz – "Sempre mudando, nunca duas vezes igual" – foi esculpida em um degrau no jardim.

Foto Sylvia Leite - Matéria Getty Center - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Resistência ao fogo


A intenção de construir um monumento artístico, no entanto, não fez com que Richard Meier deixasse de lado seu aspecto prático. Para transportar os visitantes do estacionamento subterrâneo até o andar térreo, por exemplo, o Getty Center tem um bonde particular. Além de dispor os módulos no espaço conforme sua funcionalidade, com já foi visto, o arquiteto teve a preocupação de adequar os ambientes a cada tipo de acervo. Os itens mais sensíveis a luz, por exemplo, estão localizados no primeiro andar, enquanto somente os menos sensíveis localizam-se no segundo, recebendo a iluminação natural. Além disso, o conjunto de prédios é resistente a terremotos e a fogo.

A estrutura da construção é composta por barras de aço e o travertino que reveste suas paredes de 
concreto é extremamente resistente ao fogo. Além disso, o teto
Foto Sylvia Leite - Matéria Getty Center - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
tem pedra triturada, os jardins são projetados para retardar a aproximação das chamas e o sistema de ventilação pode ser revertido de modo que a fumaça, mesmo estando muito próxima, não entre pelas janelas.

Tudo isso precisou ser feito com total rigor porque o museu reúne mais de 125 mil obras e cerca de 1,4 milhões de documentos. A prova dos nove já foi tirada em mais de uma ocasião, com destaque para o incêndio que atingiu a região em 2019, destruindo 300 hectares de floresta e, devido à proximidade com a instituição, ficou conhecido como Getty, mas as obras ali guardadas permaneceram intactas. O resultado de tudo isso é que o Getty Center se tornou modelo de segurança, e passou a ser visitado por representantes de outras instituições, e até de governos estrangeiros, que buscam conhecer seu sistema de proteção.

Uma obra póstuma

O Getty Museu – ou Getty Museum – foi criado em 1954 pelo
Foto Marnin Somerman - Matéria Getty Center - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
magnata do petróleo Jean Paul Getty, que reformou sua própria residência – em Malibu, no bairro de Pacific Palisades – a fim de acrescentar uma ala destinada a reunir, e apresentar ao público, sua coleção particular de obras de arte. Pouco tempo depois, o acervo não cabia mais naquele lugar, e ele mandou construir, no mesmo terreno, um prédio inspirado nas vilas romanas – que ficaria conhecido como Getty Villa. O milionário não chegou a usufruir do novo prédio, inaugurado em 1974, e morreu dois anos depois. Mas essa obra foi contratada por ele e traz a sua marca. O Getty Center, no entanto, foi inteiramente concebido e realizado depois de sua morte. O terreno foi adquirido pelo grupo Getty em 1983 e a inauguração do prédio ocorreu somente em 1997.

Foto domínio público - Matéria Getty Center - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Getty Center foi planejado para abrigar não apenas o Jean Paul Getty Museum, mas também as outras instituições culturais associadas como o J. Paul Getty Trusts, o instituto de pesquisas Getty Research Institute, o instituto de conservação Getty Conservation Institute e o instituto de lideranças Getty Leadership Institute – este último dedicado à formação de museólogos.

Acervo dividido


O prédio anterior, o Getty Center, ainda existe e permanece com a função original, mas, desde a criação do Getty Center, passou a reunir a parte antiga do acervo que data de 6.500 aC até 400 dC. É também esse prédio que sedia o programa de mestrado em Conservação Arqueológica e Etnográfica em parceria com a UCLA, mas o Getty Villa é assunto para outra matéria.

Para o Getty Center foram levadas as obras da Europa e dos Estados Unidos desde a Idade Média até os nossos dias. Além do Jardim Central, que é considerado parte do acervo, estão em exposição permanente no museu pinturas, desenhos, manuscritos iluminados, esculturas e artes decorativas europeias do século 20; fotografias estadunidenses e internacionais dos séculos 19 e 20; esculturas modernas e contemporâneas distribuídas dentro e fora dos prédios. Isso, sem falar das exposições especiais rotativas.


Getty Museum - Los Ângeles - Califórnia - Estados Unidos - América do Norte


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos:

    (1,2,3,4,5) Sylvia Leite
    (6) Marnin Somerman - Flickr, CC BY 2.0, Wikimedia
    (7) Domínio Público

    Referências:



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    14 comentários:

    1. Realmente, fiquei impressionada com esse museu. Mais com o prédio do que com as obras, para falar a verdade. Belo registro, Sylvinha!

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      1. Mas a coleção é muito boa e o museu tem várias exposições e atividades paralelas. É que conhecemos outros museus com boas coleções, mas, nenhum, pelo menos entre os que eu conheço, tem um prédio tão interessante.

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    2. Um grande visionário! Bem diferente dos milionários brasileiros...
      Beleza de matéria, Sylvinha!
      Abraços
      Val

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    3. Que obra de arte o getty center! eu não conhecia, mas amei muito os prédios e achei incrível que um magnata reformou a casa para servir de museu, bem legal

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    4. Impressionante! Devia fazer parte da formação de todo arquiteto uma visita minuciosa a esse museu. Ou, pelo menos, uma excursão virtual completa, para os que não puderem se dar o privilégio de vê-lo ao vivo. Parabéns, Sylvinha, por mais esta escolha para nos brindar.

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      1. Devia mesmo, Jane. De todo arquiteto e de toda pessoa interessada em arte e arquitetura.

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    5. Nossa eu não sabia desse prédio, gostaria de ter visitado o Getty Center quando fui para Los Angeles! Adorei a arquitetura

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      1. É incrível mesmo. Não deixe de ir da próxima vez. E ainda tem o Getty Villa que também é incrível e será tema de outra matéria.

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    6. A arquitetura do Getty Center é linda. Comcordo com você, uma verdadeora obra de arte que abriga outras. Lindo post!

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      1. Obrigada, Ângela. Bom saber que gostou da matéria. O Getty Center realmente é muito interessante!

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    7. Este museu está na minha lista de atrações a visitar na Califórnia, iríamos em setembro de 2020, mas deu ruim por causa da pandemia, infelizmente, rsrs. Rindo pra não chorar!
      A sua definição de que o Getty Center é uma obra de arte que abriga milhares de outras é perfeita e me deu mais vontade ainda de conhecer. Beijos.

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      1. Que bom que a matéria te deu vontade de conhecer o Getty Center. Adoro quando isso acontece. Sinal de que houve uma boa comunicação. heheh Toda quinta tem matéria nova aqui no blog. Acompanhe!

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    Obrigada por seu interesse em nossa postagem!