05/11/2020

Niagara: a região das cataratas, das histórias e das flores

Quem visita Niagara Falls, no Canadá, tem a oportunidade de posar para fotos diante de um barril,
numa referência aos aventureiros que um dia resolveram desafiar a força das cataratas e descer suas águas dentro do artefato. A impressão inicial é que se trata de uma lenda, mas as aventuras são reais e a primeira* delas foi protagonizada por uma senhora de 63 anos - a professora aposentada norte-americana Annie Edson Taylor - que, além de não ter morrido, saiu da água praticamente sem ferimentos. Vale lembrar que isso aconteceu em 1901, quando os sexagenários não eram considerados jovens como hoje e as mulheres enfrentavam muitas restrições.

Acredita-se que a empreitada foi bem sucedida porque Annie impermeabilizou o barril, colocou uma bigorna de 45kg para mantê-lo em pé e cercou o corpo de almofadas. Além disso, antes de se lançar nas águas, testou o barril com um gato dentro para ter certeza de que tudo correria como previsto. Ao que tudo indica, a professora desafiou as cataratas em busca de publicidade e de dinheiro, tanto que anunciou o que faria e teve o acompanhamento de turistas e repórteres. O dinheiro
parece que nunca chegou, já a publicidade foi imediata. Logo depois do evento, ela passou a ser conhecida como "Heroina das cataratas do Niagara" e serviu de exemplo, e estímulo, para os que vieram depois. Mas nem todos tiveram a mesma sorte. Cerca de 25 por cento dos que tentaram segui-la não conseguiram se salvar.

O primeiro a morrer foi o dublê americano Charles Stephens, que se aventurou em um barril russo de carvalho. Assim como Annie, ele também usou uma bigorna para manter o equilíbrio, mas não quis testar o equipamento. Durante a descida, a bigorna rompeu o fundo do barril e ele sumiu nas cataratas. O caso ficou tão famoso que virou tema de um dos capítulos** do documentário da Discovery Channel, intitulado "As mais estranhas formas de morrer". Além disso, Stephens ganhou o prêmio Darwin - uma espécie de homenagem irônica a pessoas que supostamente contribuem com a evolução humana ao morrer ou ficar estéril de forma incomum e por meio de suas próprias ações.


Entre os que, como ela, conseguiram sobreviver, estão os canadenses Peter Debernardi e Jeffrey (Clyde) Petkovich – que se tornaram os primeiros a descer as cataratas em dupla. A motivação deles foi bem diferente dos demais: eles queriam às crianças que existem coisas melhores do que usar drogas. As crianças, aliás, foram alvo de mais duas ocorrências inspiradas por esse ‘desejo’ de descer as cataratas em um barril. Um deles é o episódio Niagara Falls – Vamos às cataratas, do desenho animado Pica Pau e o outro é a descida das cataratas pelo Mágico David Copperfield, em 1990, e que depois acabou se revelando um truque.

Embora muitos tenham sobrevivido, a descida é extremamente perigosa e está proibida desde 1951. Além daqueles que transformaram suas tentativas em espetáculos, há muitos outros aventureiros ou suicidas cujas façanhas ninguém fica sabendo. Pelo menos é o que indicam os mais de cinco mil corpos encontrados até hoje no local.
  

Mas nem só de aventuras vive a região. As cataratas do Niagara são fonte de energia elétrica e atraem turistas do mundo inteiro, interessados em contemplar sua beleza. Niagara Falls não é apenas o nome das cataratas. Nomeia, também, as duas cidades que margeiam o Rio Niagara na altura das quedas d’água: uma na província de Ontário, no Canadá, e outra no estado de Nova Iorque, nos Estados Undidos. Niagara é também o nome da região do Canadá por onde passa o rio e, na língua dos Iorqueses ou Haudenosaunee significa ‘trovoada de águas’. Já a palavra Haudenosaunee nomeia a maior das três quedas que compõem as cataratas e que fica do lado canadense. 


Niagara on the Lake 




Tanto as aventuras, como grande parte das visitas turísticas costumam concentrar-se no Canadá, que além de Niagara Falls, tem a pequena Niagara on the Lake, localizada no ponto de encontro entre o rio Niágara e o Lago Ontário. É uma cidade histórica, com construções em estilo vitoriano, canteiros floridos nas casas e nas calçadas, e carruagens à espera de
quem queira alugá-las para desfrutar da colorida visão de suas ruas. Entre as atrações históricas, encontra-se um museu muito especial – o Niagara Apotechary, ou Boticário de Niagara – onde se pode conhecer a arquitetura, o modo de funcionamento e os tipos de remédios usados em uma farmácia que funcionou no local entre 1820 e 1964.

Tudo isso já torna Niagara on the Lake um lugar agradável e encantador. O encantamento cresce ainda mais ao sabermos que a cidade, que esteve por meio século na condição de capital da colônia inglesa do Alto Canadá ou Canadá Superior, – hoje correspondente ao Sul da província de Ontário – foi cenário da assinatura do decreto que libertou os escravos em toda a região. Isso ocorreu em 1793, doze anos depois da fundação da cidade e cerca de 10 anos antes da Abolição da Escravatura no resto do Império Britânico***.

Além de história e beleza, Niagara on the lake guarda tradição artística, especialmente na área teatral, na qual se destaca o festival Shaw Festival, criado em 1962 pelos dramaturgos Brian Doherty de Niagara-on-the-Lake e Calvin G Rand de Buffalo (EUA), e inspirado no dramaturgo irlandês Bernard Shaw. O evento é realizado anualmente entre os meses de abril e outubro, atraindo um enorme público para a pequena cidade.


Como se tudo isso fosse pouco, Niagara on the Lake tem vinícolas e vinhedos localizados a poucos quilômetros de distância, que podem ser visitados de bicicleta. E entre a pequena cidade e Niagara Falls- onde ficam as cataratas – encontra-se o famoso relógio floral, com cerca de 12 metros de diâmetro e formado por mais de 15 mil flores.

*Cerca de 70 anos antes dela, outro norte-americano havia pulado de uma plataforma no Rio Niagara, mas do lado americano do rio e sem usar barril.

**Capítulo: O ator, o aventureiro e a banhista

*** Os territórios em poder da Companhia das Índias Orientais, Ceilão (atual Sri Lanka) e a Ilha de Santa Helena tiveram a abolição decretada ainda mais tarde, em 1843.


Niagara Falls e Niagara on the Lake - Ontário - Canadá - América do Norte

Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 


Fotos:

(1,2) Domínio público - Wikimedia commons
(3) nflibrary
(4) Imagem de chapay por Pixabay
(5) (WT-shared) Aiko99ann at wts wikivoyage, CC BY-SA 4.0 https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22847986
(6) Spudgun67 - Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=78867107
(7) noelweathers from Fort Worth, Texas, United States of America - Ontario, Canada, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=82599003

3 comentários:

  1. Muito legal, Sylvinha! A cidade é uma gracinha e vale ficar uns dois dias para visitar as cataratas, jogar no cassino e aproveitar as várias atrações.
    Beijão!

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  2. normeide neto de carvalho1 de dezembro de 2020 11:41

    Que incrível, ainda não tive oportunidade de Conhecer Niágara e suas cataratas, fiquei apaixonada pela historia. Espero ter oportunidade de conhecer.

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Obrigada por seu interesse em nossa postagem!