21/09/2020

Vassouras: a terra da sinhazinha que se tornou independente

Foto Claudia Lucchi  - Matéria Vassouras - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Vassouras é uma das principais cidades históricas do vale do Paraíba - conhecido hoje como Vale do Café – região do Estado do Rio de Janeiro que, no século 19, teve grande importância na economia nacional. Em seu centro histórico, casarões e prédios públicos, tombados pelo Iphan, guardam a memória dessa época de prosperidade. E como se isso não bastasse, a cidade mantém vivas as histórias da curiosa personagem Eufrásia Teixeira Leite, que ficou famosa por haver quebrado todos os padrões de sua época e por ter deixado sua herança para obras sociais.

A presença de Eufrásia está inscrita
Pintura de autor desconhecido  - Matéria Vassouras - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
em vários pontos, como o prédio do Colégio Sul Fluminense de Aplicação – construído com recursos doados por ela – ou o sítio Casa da Hera, que foi por muitos anos a residência da família. No colégio, sua lembrança se resume a um busto de bronze no jardim da entrada, mas o sítio abriga um museu inteiramente dedicado à sua história, reunindo móveis, objetos e até vestidos de alta costura que eram usados por ela nos anos que viveu em Paris.

Para entender a importância dessa personagem, é preciso conhecer um pouco a história da cidade, que começou a se formar a partir de acampamentos de tropeiros no ciclo do ouro, tornando-se importante somente no século seguinte,com o auge das exportações de café. 

Vassouras iniciou sua história colonial com uma sesmaria batizada com o complicado nome de "Sertão da Serra de Santana, Mato Dentro por detrás do Morro Azul", que depois passou a ser chamada de Sesmaria de Vassouras e Rio Bonito" por causa da abundância de um tipo de arbusto utilizado na confecção de vassouras. 

Por muito tempo, o lugar foi usado como ponto de parada para os transportadores do ouro. Nessa época, seus únicos habitantes eram tribos nômades de índios Coroados, submetidos posteriormente ao processo de aldeamento – ou confinamento em aldeias – para que a área fosse ocupada por plantações de cana e depois de café. E é aí que começa a época de prosperidade. 

Foto Suely Regina de Souza  - Matéria Vassouras - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
De sinhazinha a financista


Eufrásia descendia de duas das mais importantes famílias da região, ligadas à economia do café: os Corrêa e Castro, ricos plantadores, e os Teixeira Leite, donos de uma espécie de banco, que financiava as plantações, emprestando dinheiro a juros e intermediando negócios dos fazendeiros. Era neta, pelo lado paterno, dos barões de Itambé. Já seu avô materno, Laureano Corrêa e Castro, era comandante da guarda Nacional e tinha o título de barão de Campo Belo. Era, ainda, sobrinha do barão de Vassouras e do Barão de Aiuroca.

Seus pais tiveram três filhos, mas só ela e uma irmã mais velha chegaram à idade adulta. Quando ficaram órfãs – de mãe, em 1871, e, de pai, em 1872 – as duas tinham menos de 30 anos e receberam uma fortuna equivalente, na época, a cinco por cento
Foto Marilza Pinho de Souza Machado  - Matéria Vassouras - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
das exportações brasileiras.

Como conheciam matemática financeira e falavam francês, decidiram vender todos os bens – incluindo a maioria dos escravos e a casa do Rio de Janeiro – para ir morar em Paris, onde multiplicariam a fortuna herdada dos pais, investindo na Bolsa de Valores.

Além de terem recebido formação francesa, na escola de moças de madame Grivet - em um distrito de Vassouras hoje denominado Sebastião Lacerda - as duas irmãs haviam morado em Paris, na companhia dos pais, entre 1857 e 1869, o que provavelmente contribuiu para o sucesso da ‘empreitada’.

A paixão por Joaquim Nabuco


Um dos fatos mais comentados da vida de Eufrásia foi sua relação amorosa com o diplomata, historiador, jurista e jornalista Joaquim Nabuco, de quem ficou noiva dentro do navio, durante a viagem do Rio de Janeiro para Paris - ela de mudança e ele como turista. 

Sua irmã e tios eram contra o noivado por diversas razões. Embora Joaquim Nabuco tivesse uma formação tão aristocrática como a dela, era evidente sua inferioridade econômica. Havia, ainda, questões políticas. Enquanto a família de Eufrásia era escravocrata, Nabuco era abolicionista e defensor de causas sociais. 
Capa do livro Eufrásia e Nabuco  - Matéria Vassouras - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

As cartas trocadas pelo casal ao longo de 14 anos contam a história desse relacionamento. As recebidas por ele fazem parte do acervo da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, e são comentadas por Neusa Fernandes no livro “Eufrásia e Nabuco”, lançado pela Mauad. Já as recebidas por ela estão quase todas perdidas. Há quem diga que foram queimadas, quando Eufrásia morreu, seguindo suas determinações prévias. Outros afirmam que, pela mesma razão, foram enterradas junto com ela. Sobrou apenas uma em que Nabuco rompe da relação. A história do casal deu origem a pelo menos mais dois livros: “Um mapa todo seu”, de Ana Maria Machado, e “Mundos de Eufrásia”, de Claudia Lage. 
Conta-se que, apesar dos antagonismos entre Nabuco e a família da Eufrásia, o maior conflito da relação foi gerado pela promessa feita por ela, no leito de morte do pai, de que jamais se casaria. E, de fato, a ex-noiva de Nabuco morreu aos 85 anos e permanecia solteira. Solteira e ainda mais rica porque, cerca de uma década depois do rompimento com Joaquim Nabuco, ela herdou a fortuna da irmã, que também não se casou. 

Verdades e lendas sobre Eufrásia

Foto Claudia Lucchi  - Matéria Vassouras - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Enquanto viveu na França, Eufrásia veio poucas vezes ao Brasil. Voltou definitivamente alguns anos antes de sua morte, porque estava doente,
e passou a viver reclusa entre a Casa da Hera, e o Rio de Janeiro. Seu isolamento atiçava a imaginação dos moradores de Vassouras, que inventavam histórias a seu respeito. Contava-se, por exemplo, que sua paixão por formigas era tamanha, que ela proibia os empregados de matá-las. A mais, famosa, no entanto, é de que ela teria feito um testamento deixando toda a sua fortuna para o burro Pimpão. 

Sobre as formigas, o que acontecia era exatamente o inverso: Eufrásia ordenava que se colocasse inseticida nos jardins para que as formigas não comessem as roseiras. Quanto ao burro, ela realmente teve um animalzinho chamado Pimpão e seu testamento foi quase tão fora do padrão da época como seria se tivesse deixado tudo para o burrico, mas seus verdadeiros herdeiros foram os pobres de Vassouras.


Uma fortuna para os que precisam


Os principais beneficiários do testamento foram a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras e o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração. O Colégio Salesiano de Santa Rosa de Niterói também estava na lista, mas não chegou a herdar por não ter aceito a condição imposta por Eufrásia: fundar um
Foto Suely Regina de Souza  - Matéria Vassouras - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
colégio, mantendo gratuitamente 50 órfãos. Várias instituições foram erguidas em terrenos deixados por ela. Entre os herdeiros estavam, ainda, a Fundação Oswaldo Cruz, seu agente de Paris, mendigos que moravam na sua rua, em Paris, empregados e ex-escravos. Alguns primos contestaram o testamento e conseguiram receber uma pequena parte. A disputa foi longa e provocou até greve na cidade.

As contestações, a complexidade do testamento e, principalmente, os limites e as condições impostas aos herdeiros fizeram com que nem tudo que Eufrasia planejou pudesse ser concretizado. Parte de sua herança acabou corroída por acontecimentos econômicos como, por exemplo, a hiperinflação, porque seus herdeiros estavam impedidos de alterar os investimentos feitos por ela. Por outro lado, foram suas exigências que mantiveram erguida a casa de seus pais, que hoje abriga o Museu Casa da Hera e é considerada o melhor exemplo de habitação urbana preservada na região. 
Foto site Iphan  - Matéria Vassouras - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

De Eufrásia a Cazuza


Mas Eufrásia não é a única personalidade rebelde que o visitante vai encontrar em Vassouras. O cantor, compositor Cazuza, filho e neto de vassourenses, também teve o seu quinhão de homenagem. Desde 2018, o roqueiro dá nome ao centro cultural da cidade, que dedica um andar inteiro a seus rascunhos, fotos e objetos pessoais, como a máquina de escrever e uma garrafa de wisky aberta, que ele havia deixado sobre a escrivaninha.

O Centro Cultural Cazuza funciona em um casarão século 19, que foi o local de nascimento de sua mãe, Lucinha Araújo. Além da exposição permanente de objetos do roqueiro, o centro mantém aulas gratuitas de música e uma programação de espetáculos de música, ópera e teatro. 

O que restou da sociedade tradicional dos cafeicultores está hoje mesclada à memória de seus personagens famosos, que pouco tiveram de tradicionais, e com as manifestações culturais herdadas, principalmente, dos escravos africanos, e dos portugueses,  que se mesclaram na região. E tudo isso divide espaço com estudantes e intelectuais, porque, com o tempo, Vassouras foi se transfrmando em uma cidade universitária. 


Vassouras - Vale do Café - Rio de Janeiro - Brasil - América do Sul

Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes

Fotos:

(1,6) Claudia Lucchi
(2) Pintura de autor desconhecido
(3,7) Suely Regina de Souza
(4) Marilza Pinho de Souza Machado
(5) Capa do livro Eufrásia e Nabuco

Participação especial: Fátima Ferreira (Fafá), Claudia Lucchi, Suely Regina de Souza e Marilza Pinho de Souza Machado.
Site do Iphan

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18 comentários:

  1. Obrigada por mais uma matéria linda!
    Parabéns.

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  2. História maravilhosa, Sylvinha! Que bom que você dividiu com a gente!

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    1. Pois é, uma mulher bem interessante, com uma história de independência.

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  3. Parabéns por sua materia. Sempre é bom ler sobre Eufrasia e Vassouras. Sucesso!

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    1. Obrigada!Pela leitura e pelo comentário. Da próxima vez, não esqueça de deixar seu nome.

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  4. Muito bom...uma grande benfeitora que deixou um legado importantíssimo para a história e para nossa querida Vassouras...

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    1. Verdade! benfeitora e exemplo de independência. Pena que você nao se identificou. Da próxima vez não esqueça, ok?

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  5. Que mulher inovadora a Eufrásia, ficou marcada para sempre na História de Vassouras. De sinhazinha a mulher independente. Fiquei surpresa com a relação dela e Joaquim Nabuco e desse romance estar nos arquivos da fundação que leva o nome do abolicionista. Quando visitar a fundação, ficarei atenta a mais essa História.

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    1. Gosto quando as matérias do blog provocam curiosidades e desejos. É uma forma de saber que valeu a pena escrever. Obrigada pelo comentário.

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  6. Que interessante a história de Eufrásia, uma sinhazinha que se tornou independente! Fiquei com mais vontade de conhecer Vassouras! Gosto de locais históricos!

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    1. Que bom, Ângela. Gosto de atiçar as pessoas. E tenho certeza que você não vai se arrepender.

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  7. Obrigada por me lembrar das aulas de história. Estudei sobre Correia e Castro, Teixeira Leite e a economia do Café a mais de 30 anos. Não conhecia Vassouras e adorei sua aula de história aqui neste blog. Eu morava em São Paulo em uma rua chamada Joaquim Nabuco e amei saber mais sobre ele aqui no seu blog. Obrigada mais uma vez.

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    1. Eu que agradeço. Bom saber que a matéria lhe trouxe lembranças. Volte sempre.

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  8. Adorei saber mai sobre Eufrasia e Vassoras que historia linda

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    1. Legal, né? Tem muita história perdida por aí. Precisams resgatá-las.

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  9. Que bacana essa história de Eufrásia e Vassouras. Quero muito conhecer Vassouras, um ótimo local de passeio e de conhecimento sobre a história!

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