01/09/2020

Aracaju: a terra do cacique Serigy

Sempre que estudamos a história de uma cidade, em qualquer parte do mundo, constatamos que antes
Foto Lineu Lins - Matéria Aracaju - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
que se formasse a população atual, viveram ali outros povos. Quando a cidade em questão faz parte do no Brasil, esses povos são chamados genericamente de indígenas e, em um grande número de casos, foram exterminados pelos colonizadores portugueses. Sabe-se que muitas tribos reagiram à chegada desses colonizadores, mas, em geral, do lado deles, não sobrou ninguém para contar a história. Na área onde hoje está a cidade de Aracaju, capital de Sergipe, foi diferente. Mesmo tendo sido exterminados pelos portugueses, os índios Serigy deixaram uma forte marca. Seu cacique é até hoje homenageado e tornou-se o primeiro indígena a ser
incluído no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria - uma espécie de monumento de aço, mantido dentro do Panteão da Pátria, em Brasília, com o objetivo de preservar a memória nacional.
Foto Pedro Ventura Agência Brasília  - Matéria Aracaju - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O cacique Serigy e sua tribo viveram entre os rios que conhecemos atualmente como Vaza Barris e Sergipe - mais precisamente onde se encontra Aracaju -, até serem vencidos, em 1590. Sua resistência à ocupação portuguesa durou cerca de 30 anos. Ao longo desse período, Serigy foi ganhando apoio de tribos vizinhas e chegou a contar com uma tropa ativa de aproximadamente 2 mil homens e um contingente de reserva em treinamento constante a fim de substituir mortos e feridos. 

Para derrotá-lo, foi preciso Portugal formar uma esquadra de guerra. O comandante das tropas , Cristóvão de Barros, tornou-se depois o primeiro dirigente da Capitania de Sergipe 
D'El Rei e fundou, perto dali, a cidade de São Cristóvão - primeira capital do Estado.  Mas a disputa não foi fácil. Além das tribos aliadas, o cacique Serigy contava com a ajuda de  franceses que chegaram ao local em busca de pau-brasil e sabiam que a conquista do território pelos portugueses resultaria em sua expulsão. Por causa dessa parceria, os índios tiveram armas de fogo para lutar de igual para igual.

Há quem diga que Cristóvão de Barros preferia ter evitado os enfrentamentos e tentou negociar com Serigy sua autorização para a criação de uma cidade portuguesa entre os rios Sergipe e Vaza Barris, 
Foto Ricardo Nunes - Matéria Aracaju - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
mas o cacique teria se recusado a negociar porque acreditava que a colonização significaria a escravização do seu povo. Outros afirmam que Cristóvão de Barros tinha sede de vingança conta todas as tribos indígenas porque seu pai, o fidalgo português  Antônio Cardoso de Barros, havia sido devorado por índios Caetés após um naufrágio. O que se sabe, efetivamente, é que foi a esquadra comandada por ele que conseguiu matar Serigy, pondo fim a um batalha de três décadas.
 

Foto Mônica Silveira - Matéria Aracaju - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
A maldição do cacique


Segundo a lenda, pouco antes de ser executado pelos portugueses, Serigy teria lançado uma maldição: que nada gerado naquelas terras que foram arrancadas de sua tribo daria bons frutos. Ao longo do tempo, a ‘praga do cacique’ serviu como justificativa para tudo que não dava certo na cidade e no Estado. Há até quem diga que a maldição de Serigy diminuiu a autoestima dos sergipanos, seja porque acreditassem de antemão, que nada daria certo, seja pelo fato de que, segundo os defensores dessa tese, os nascidos no Estado nunca conseguiam se projetar no cenário nacional. Para sorte dos sergipanos, essa crença foi desmentida pelo próprio cacique ao tornar-se o primeiro indígena (e décima primeira personalidade em todo o país) a ganhar status de herói nacional no monumento conhecido como “Livro de Aço”.

Atualmente, são poucos os que conhecem a lenda, a não ser nos meios artísticos, onde a maldição foi e continua sendo tema de quadros, poemas, letras de música, filmes e peças de teatro. Mas nem todos a interpretam da mesma forma. Para o poeta Vinícuis Oliveira, por exemplo - que se diz descendente do cacique - , a maldição foi contra Cristóvão de Barros e sua tropa, que ficaram lá no século 16. Em seu poema “Maldição do Cacique Serigy” , ele diz:
 
“(...) Mas é preciso pensar
que o amaldiçoado 
não foi a terra não
foi o opressor pela opressão(...)”

Foto Valdir Almeida - Matéria Aracaju - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Homenagens 



Talvez para que a maldição não se cumprisse, ou, mais provavelmente, por admiração e respeito pela bravura desse ancestral, artistas, intelectuais, políticos e comerciantes de Sergipe sempre procuraram homenageá-lo. Serigy é o nome de um palácio onde funcionou por muitos anos a Secretaria Estadual da Saúde e onde uma estátua do cacique ocupa o espaço central do amplo hall de entrada.

Pequenas estátuas de índios da sua tribo marcam a
Foto Sylvia Leite - Matéria Aracaju - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

entrada de um dos principais monumentos de Aracaju – a Ponte do Imperador – que apesar desse nome, é na verdade uma espécie de píer construído em 1860 especialmente para servir de ancoradouro ao vapor Apa, que levaria à cidade o imperador Dom Pedro II e sua comitiva.
  
Serigy também inspirou o nome do Cacique Chá - um restaurante inaugurado em 1950, que durante anos foi ponto de encontro de políticos, intelectuais e jornalistas e, desde 2015, funciona como restaurante-escola do Senac. No Cacique Chá, está uma das imagens mais famosas de Serigy, em uma pintura mural do modernista Jenner Augusto.

O próprio nome do Estado, Sergipe, pode ser uma de rivação ou corruptela de Serigy, que é um termo tupi formado pelas junção das palavras siri (siri) e ‘y (água), o que resulta na expressão água de siris, numa referência ao rio que hoje é denominado Sergipe. Mas sobre isso há controvérsias.


Aracaju - Sergipe - Brasil - América do Sul



Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:

(1) Lineu Lins
(2) Pedro Ventura / Ag. Brasilia/ Divulgação
(3) Ricardo Nunes
(4) Mônica Silveira
(5) Valdir Almeida
(6) Sylvia Leite

Agradecimentos: Amâncio Cardoso Neto, Luiz Eduardo Oliva, Mônica Silveira, Ricardo Nunes, Tanit Bezerra, Terezinha Oliva.

Referências:

Sites:

IBGE

Câmara Federal

Livros:

Album de Sergipe, Clodomir de Souza e Silva, 1920.

Filmes e vídeos:

Vultos: Cacique Serigy, produzido pela TV Aperipê. 

A maldição do cacique Serigy, de Alessandro Santana, Bruno Monteiro e Mauro Luciano.

                                                              ***

DESTINOS NACIONAIS: Esta matéria faz parte de uma blogagem coletiva sobre Destinos Nacionais. Acesse, a seguir, as postagens dos outros blogs:

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25 comentários:

  1. Quanta informação bacana sobre este destino nacional! Eu ainda não conheço Sergipe e sempre tive vontade. Desconhecia sobre este histórico e agora fiquei com mais vontade conhecer. Adorei seu texto sobre a terra do cacique Serigy.

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    1. Que bom que gostou, Deyse. Toda semana tem matéria nova no blog. Acompanhe! E obrigada pelo comentário.

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  2. Ao mesmo tempo que é triste relembrar nossa colonizaçao com tantas histórias de atrocidades, é um orgulho saber da tribo do Cacique serigy, e que hoje moro na Terra dele. Muito bom teu post sobre Aracaju: terra do cacique Serigy. Obrigada por divulgar tanta cultura por aqui.

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    1. Eu que agradeço pela leitura e pelo comentário. Bom saber que mora na minha terra. Beijo

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  3. Que bacana esse post, parabéns você sempre com todas as explicações. Adorei saber mais sobre Aracaju a terra do Cacique Serigy. Mais um destino para minha listinha

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    1. Que bom que gostou e colocou a cidade na sua lista. Venha aqui toda semana para conhecer outros lugares .

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  4. Olha só, muito incrível o seu post sobre a História de Aracaju e o Cacique Serigy. Eu nunca tinha ouvido nada sobre isso. Fiquei encantada. E olha que visito Aracaju sempre. Muito obrigado pelo conteúdo tão rico.

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    1. Eu que agradeço pela leitura e pelo comentário. Pena que não deixou seu nome.

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  5. Muito bom Silvinha. O tema de hoje inclusive ao citar a Ponte do Imperador lembra-me que na sua última manutenção, sumiram com as lanças nas mãos dos índios, é assim permanece descaracterizando esse monumento.

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  6. Que maravilha!
    Qtas curiosidades históricas que se perderam no tempo e desconhecidas por muitos, inclusive os sergipanos, acredito eu!

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    1. É mesmo. Muita gente nunca ouviu falar sobre o cacique Serigy, mesmo em Aracaju.

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  7. Eu não sabia sobre essa história de Aracaju ser a terra do Cacique Serigy. Muito interessante. Adorei ler esse post de um lugar que está na minha lista de desejos.

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    1. Aracaju tem muita coisa boa pra você conhecer e, como o Estado é pequeno, é possível fazer bate volta para muitos lugares do litoral e do sertão, embora eu ache que bom mesmo é dormir em cada parada para conhecer melhor rsrsr.

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  8. Muito bom o texto sobre nossa Aracaju algumas história desconhecida por mim, fiquei feliz com toda explicação

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Pena que você não disse seu nome.

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  9. Sylvia gostei muito de ler a história de Serigy. Não sabia nada a respeito sobre ele. Parabéns pela pesquisa e pelo texto.
    Augusta Leite Campos

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  10. Mesmo sendo daqui de Sergipe, muitos detalhes dessa história a gente não conhece. Diante das citações fiquei imaginando como os índios sofreram...Quanta maldade e crueldade. TOMAR literalmente uma terra já habitada por outras pessoas. Quanto sangue derramado. Porque quando estudos história na escola, tudo é muito.minikizado. Aí a gente não capta a dimensão dessa crueldade. Muito triste. Obrigada pelo compartilhamento dessas informações.

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    1. Eu que agradeço pela leitura e pelo comentário. Da próxima vez deixe seu nome.ok?

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  11. Os sergipanos precisam conhecer essa histórias e os heróis da terra. Muito legal, Sylvinha, adorei!

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  12. Olá Sylvia, que super interessante este post, gosto muito de Sergipe, mas não conhecia sobre a história de Aracaju ser a terra do cacique Serigy. Que importante registrar e divulgar tudo isso, cultura de nosso país e de nossos precursores nas terras, que ainda hoje sofrem tanto para manter seu chão! Parabéns pela matéria.

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    1. Pois é. Deveríamos cuidar melhor dos nossos indígenas e reconhecer seus direitos.

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  13. Mesmo sabendo que houve um cacique Serigy que pode ter dado origem ao nome Sergipe, não sabia nada de sua resistência aos invasores nem de sua aliança com os franceses. Nem da homenagem no panteão dos herois. Fiquei curiosa por saber mais, sobre ele e sobre essa promoção, de inimigo a heroi. Como sempre seus textos, além das novidades que trazem, nos estimulam e abrem janelas para aprofundarmos o conhecimento.Sem falar no atrativo turístico para os que não conhecem o lugar em foco. Aplausos conterrâneos!

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