16/08/2020

Theatro Municipal: o templo clássico que abriga renovação

A maioria dos teatros centenários que ainda se mantém de pé, aqui no Brasil, tem uma importância
Foto skeeze por Pixabay - Matéria Theatro Municipal de São Paulo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
especial para a memória das cidades onde estão localizados, seja por sua arquitetura histórica, seja por terem sido palco de movimentos artísticos, culturais ou políticos. O Theatro Municipal de São Paulo cumpre as duas condições, mas destaca-se pelo fato de ser uma tradicional casa de ópera que virou palco de movimentos não apenas artísticos e culturais, mas também sociais e políticos; e essa vocação parece ter sido instaurada em fevereiro de 1922, quando sediou a famosa Semana de Arte Moderna.

Mais que um evento, a ‘Semana

Cartaz Semana de 22 - Matéria Theatro Municipal de São Paulo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
de 22” foi um movimento que pregava a liberdade, a ruptura com os valores artísticos herdados do século 19 e, embora tivesse recebido influências de movimentos vanguardistas internacionais, como o ‘futurismo’ italiano, propunha uma abordagem nacionalista para a poesia, a literatura, a música, a pintura e as outras artes. Na falta de um projeto estético comum, a recusa à literatura e à arte importadas era o que unia nomes como Mário e Oswald de Andrade, Menottti Del Picchia, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti e Heitor Viila Lobos. 

A Semana de Arte Moderna aconteceu quando o Theatro Municipal tinha apenas 11 anos de construído. Até aquele momento, sua era composta basicamente por espetáculos líricos apresentados por companhias italianas, francesas, alemãs e russas. Além de figurar como um dos acontecimentos mais importantes da história do teatro, o evento marcou o início da abertura da casa de ópera para expressões artísticas não convencionais, como é o caso da dança negra de Katherine Dunhan, em 1950; da ópera em sete atos de Robert Wilson, intitulada,
Cartaz Semana de 22 - Matéria Theatro Municipal de São Paulo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
‘Life and times of Dave Clark’, com duração de 24 horas, em 1974; e do espetáculo Roda Viva, de Chico Buarque, com montagem de Zé Celso Martinez, em 2020, para citar apenas algumas.

Com o tempo, o teatro e, principalmente, suas escadarias, ganharam status de tribuna, e passaram a abrigar todo tipo de manifestação: de performances de artistas anônimos e mesmo de alguns já consagrados, a movimentos políticos e sociais. Ao longo das décadas, o teatro recebeu manifestações como os protestos contra o Estado Novo e a ditadura militar, no século 20, ou, mais recentemente, a Semana de Arte contra a Barbárie.  

Um prédio que abalou a cidade

Site TMSP - Matéria Theatro Municipal de São Paulo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Mas a abertura para a vanguarda e para as causas políticas é uma característica adquirida ao longo do tempo. Em seu nascimento, o Theatro Municipal foi um capricho da elite cafeeira paulista que apreciava espetáculos internacionais de ópera e suas instalações precisavam atender aos anseios desse segmento que era, ao mesmo tempo, financiador e público alvo. 

O projeto foi concebido pelo escritório Ramos de
Foto site TMSP - Matéria Theatro Municipal de São Paulo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Azevedo – em colaboração com os italianos Cláudio Rossi e Domiziano Rossi - e a obra durou oito anos para ser concluída. O prédio tem estilo Eclético – que combina características dos estilos Renascentista, Barroco e Art Nouveau – e foi inspirado nos grandes teatros europeus como a Opera de Paris, mas, talvez antecipando-se aos modernistas que se lançariam, uma década depois, em suas instalações, seus construtores não se renderam totalmente ao que vinha de fora e misturaram formas e materiais importados com elementos nacionais como pedras das regiões de
Foto site TMSP - Matéria Theatro Municipal de São Paulo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Itaquera e Sorocaba. As pinturas do salão nobre são assinadas pelo brasileiríssimo Oscar Pereira da Silva, mesmo tratando-se de uma época em que as atenções estavam voltadas para a arte europeia, e quando vários pintores italianos haviam imigrado para São Paulo. 

Se o luxo da decoração impressiona até hoje, imagine o que não significou para a população de São Paulo, quando mal começava a segunda década do século 20. O lustre da sala de espetáculos, por exemplo, é composto por sete mil cristais e 220 lâmpadas. Além das pinturas, o prédio reúne outras obras de arte como mosaicos, vitrais, além de inúmeras esculturas de bronze e de mármore distribuídas nas fachadas principal e lateral.

Sua inauguração, em 1911, foi uma festa privada para convidados ilustres, mas reuniu, do lado de fora, cerca de 20 mil pessoas atraídas pela pompa do edifício e, principalmente, por sua iluminação, numa época em que a luz elétrica ainda era novidade. Costuma-se dizer que, graças ao evento, São Paulo teve 
nesse dia o seu primeiro engarrafamento.

Do lado de dentro, os convidados assistiam a uma programação lírica. A escolha inicial tinha a ópera
Foto arquivo Secretaria da Cultura -  Matéria Theatro Municipal de São Paulo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Hamlet, na versão do francês Ambroise Thomas, mas os nacionalistas protestaram e o jeito foi incluir, antes do espetáculo, a execução de o Guarani, de Carlos Gomes. Resultado: não houve tempo para tudo e a programação teve que ser interrompida, deixando a ópera sem epílogo.
 

Os fantasmas do Municipal 

A influência francesa no Municipal de São Paulo parece não ter se limitado à arquitetura e à escolha da programação. Da mesma forma que Paris tem ‘O Fantasma da Ópera’, São Paulo também tem suas histórias de assombração. A diferença é que, segundo a lenda urbana, no Theatro Municipal, não há apenas um, mas vários fantasmas. Seriam espíritos de artistas que se apresentaram ali e continuam atuando depois de mortos.

Foto Webysther - Matéria Theatro Municipal de São Paulo - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Outra diferença em relação à assombração francesa é que “O fantasma da Opera” tem a identidade revelada e está contido em uma obra literária – o romance homônimo do escritor Gaston Lerouxenquanto em São Paulo há apenas relatos de funcionários e vigias sobre luzes que se acendem de madrugada, ruídos nos camarins quando o teatro está vazio e pianos cujas teclas tocam sozinhas.

Para os que acreditam nas histórias de assombração do teatro paulista, sua veracidade foi confirmada por dois fatos inexplicáveis ocorridos em 2016: o primeiro foi durante a apresentação da ópera Aida quando um elevador cênico que estava em perfeito funcionamento, na hora H não funcionou. O segundo, ocorrido semanas depois, foi na apresentação da ópera “Don Giovanni”, de Mozart. O problema, nesse caso, foi com a energia elétrica, que teve uma queda repentina entre a terceira e a quarta récitas. Mas a direção do teatro não embarcou na tese da assombração e interpretou as falhas como casos de polícia. Mas isso é outra história. 

Theatro Municipal de São Paulo – São Paulo - São Paulo – Brasil – América do Sul

Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:   

(1) skeeze / Pixabay
(2 e 3) Cartazes da Semana de Arte Moderna
(4,5 e 6) Site do Theatro Municipal de São Paulo
(7) Arquivo da Secretaria da Cultura
(8) Webysther 

Referências:




-----------------------------------------------------

Gostou da matéria? Você pode deixar um comentário a seguir expressando sua opinião. E se quiser ajudar a aumentar a visibilidade do blog, é só divulgar esta postagem nas redes sociais. Basta  clicar, aqui abaixo, no ícone de sua rede preferida e compartilhar.

 

Para ler sobre outros lugares de memória, clique nos links abaixo:

Chácara Sapucaia

Tilonia

Museu do  Sertão

Samarcanda 

Paranapiacaba

Kolam

Delfos

Candeal

Piriápolis

Azulejos portugueses




11 comentários:

  1. Parabéns pela reportagem do Theatro Municipal...belissima é a historia do Municipal de São Paulo.!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo comentário. Pena que você não se identificou. Da próxima vez não esqueça de deixar seu nome.

      Excluir
  2. Que delicia de leitura. Como sempre suas narrativas são muito preciosas.

    Há alguns anos, uma diretora do Teatro, esqueci o nome dela, convidou o Grupo Miguilim para se apresentar.

    Não dentro do teatro, mas na entrada, em frente àquela majestosa escadaria.

    Elvis começou tocando o aboio e os meninos narraram lindamente, três dias seguidos. A diretora do teatro queria que os trabalhadores transeuntes entrassem para assistir estórias que vinham lá do sertão mineiro.

    Ela convidou o grupo para fazer visita monitorada no teatro. E as histórias de assombração do teatro se misturaram com as histórias que os meninos ouviam no sertão.

    Depois ela convidou o grupo para assistir o baile Cisne Negro. No camarote.

    Acho que era no centenário de Manuelzão quando veio um grupo de Cordisburgo, Andrequicé e Morro da Garça se apresentar no Museu da Casa Brasileira. Aproveitando a vinda deles, a diretora do Teatro Municipal os convidou também.

    Olha só: memórias que retornaram depois da leitura do seu texto.

    Rosa Haruco

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Rosa. É muito bom saber que a matéria lhe trouxe boas lembranças. Beijo

      Excluir
  3. Esse Theatro é um monumento, tive o privilégio de assistir uma ópera aí em um final de semana inesquecível!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É mesmo um monumento. Concordo com você. Obrigada pelo comentário.

      Excluir
  4. Lindo demais, esse teatro. Uma das muitas preciosidades em São Paulo.

    ResponderExcluir
  5. Nunca visitei o Theatro Municipal de São Paulo. Sou apaixonado por essa arquitetura antiga e todo o simbolismo cultural ao qual os teatros nos trazem à mente. Aprender um pouco mais lendo seu texto foi uma delícia.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico feliz com isso. Espero que volte sempre por aqui. Toda semana tem postagem nova no blog. Acompanhe!

      Excluir
  6. Sou doida pra assistir uma apresentação no Theatro Municipal de São Paulo, mas nunca consegui.Até agora só conheci o prédio, que aliás é muito bonito. Quem sabe um dia, né ?

    Sil Mendes

    ResponderExcluir

Obrigada por seu interesse em nossa postagem!