19/07/2020

Tira del Tiempo: a história da vida na rambla de Montevidéu

Quem caminha pela rambla de Monetvidéu pode até não saber, mas está refazendo simbolicamente a história da vida na Terra, contada por meio de marcos plantados ao longo das praias que margeiam o Rio da Prata. São 20 km de trajetória e 26 placas de ferro. Cada uma delas representa uma efeméride, ou momento crucial de desenvolvimento da vida, e está posicionada ao longo da orla em escala com a história geológica, isto é: em distâncias que correspondem, proporcionalmente, aos intervalos de tempo entre os acontecimentos ocorridos ao longo de quatro bilhões de anos.

Em um cálculo grosseiro, e talvez um tanto impreciso, pode-se dizer, apenas para dar uma ideia, que cada passo andado na rambla corresponde a 100 mil anos de história da vida. Além dessa viagem no tempo, que por si só já fascina, os caminhantes da rambla têm a possibilidade de acessar, com seus celulares, as principais informações sobre cada efeméride, bastando, para isso, que façam a leitura do código QR colocado em cada placa.

E isso não é tudo: junto à experiência temporal e ao acesso à informação científica, os observadores podem usufruir também de uma experiência estética, porque cada uma das 26 placas traz um desenho, gravado no metal, em alusão à efeméride que demarca. 


O conteúdo ao longo da 'Tira del Tiempo'

 

A história contada pela ‘Tira del Tiempo y de la Vida’ da rambla de Montevidéu toma como base a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, formulada no século 19 e apresentada no livro A Origem das Espécies, publicado em 1859.

A primeira placa nos informa sobre o "final do bombardeio tardio" - o acontecimento que teria aberto as portas para o surgimento da vida na terra. Durante esse bombardeio, iniciado quando a terra tinha cerca de 700 milhões de anos, teria havido um aumento repentino do número

de asteroides  nas regiões mais centrais do sistema solar, e isso teria provocado fortes impactos nos planetas e satélites - as crateras da lua, por exemplo, são atribuídas à ação desses asteroides. Com o fim dos impactos, a terra teria adquirido a estabilidade necessária ao surgimento da vida.

Na segunda placa, temos um desenho alusivo ao RNA - o famoso ácido ribonucleico que estudamos na escola. Essa efeméride marca a

Origem da Vida, ocorrida no momento em que, a partir de uma evolução química na atmosfera da terra, compostos simples teriam adquirido complexidade, propiciando o surgimento da primeira célula primitiva. O RNA, que já integraria essa célula mãe, teria lhe permitido copiar-se a si mesma transmitindo a informação genética , que é  a carecterística distintiva da vida.

Ao longo dos quatro bilhões de anos percorridos por essa linha do tempo, são documentados eventos como a formação da camada de

ozônio, o aparecimento da espinha dorsal, a conquista da terra firme pelos vertebrados, o nascimento das aves. Entre os momentos mais marcantes dessa jornada estão o ‘surgimento dos organismos pluricelulares’, quando células individuais passaram a reunir-se em colônias, dando a origem a seres mais complexos, e a ‘explosão câmbrica’, quando teria havido a evolução dos 35 grupos de animais que existem até hoje.

A última efeméride corresponde ao desaparecimento dos dinossauros - provocada pelo impacto de um asteroide que se chocou contra a terra. E assim como o fim do bombardeio tardio teria possibilitado o surgimento da vida em nosso planeta, o fim dos dinossauros teria deixado o terreno livre para o surgimento os mamíferos, grupo ao qual, todos sabemos, pertence a espécie humana.

 

De onde vem a 'Tira del tiempo'?

 

Por incrível que pareça, muitos Uruguaios, inclusive de Montevidéu, nunca prestaram atenção à ‘Tira del Tiempo y de la Vida’ nem sabem explicar a razão daquelas placas que alguns deles já se acostumaram a avistar quando andam pela rambla. Talvez isso se deva ao fato de os idealizadores do projeto não terem tido tempo de divulgá-lo. Na verdade, os marcos de ferro são a ponta de um bonito iceberg que prometia enriquecer a estrutura de equipamentos culturais de Montevidéu, mas foi interrompido logo no início: o Museu del Tiempo. Os marcos - única parte do projeto a ser concretizada -  seriam a interface do museu com a cidade e, ao mesmo tempo, o chamariz para seu conteúdo interno.

O Museu del Tiempo seria (ou talvez ainda seja um dia) instalado na rambla, preservando e incorporando em sua estrutura um casarão histórico que já funcionou como sede de uma empresa de gás de hulha instalada no porto de Montevidéu. Pela localização e pelo conteúdo previsto no projeto, seus idealizadores acreditavam que o novo museu seria importante não apenas para os uruguaios, mas para visitantes de toda parte.  

A ideia do projeto era concentrar no Museu del Tiempo todas as disciplinas científicas, desde a  mais simples à mais complexa, dentro de chaves como a medida do tempo e sua percepção, a evolução da paisagem e da vida, a povoação da América e sua megafauna, a harmonia entre o ser humano e a natureza. Nesta última estariam incluídos estudos sobre a Economia Azul, que propõe um desenvolvimento sustentável a partir da utilização racional dos recursos dos oceanos. O projeto do museu previa, ainda, outras três linhas do tempo: da evolução humana, da humanização da América e da História recente. 


Tira del Tiempo y de la Vida - Museo del Tiempo - Montevidéu - América do Sul


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 
(1, 8,9,10,11 ) Site Museo del Tiempo
(2) Sylvia Leite

Referências:


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8 comentários:

  1. Obrigado Sylvia, Esse assunto é fascinante e creio que cada vez mais deva tomar a atenção cotidiana das pessoas. astronomia, Geologia, Ecologia, Cosmologia etc tendem a ser ciências cada vez mais familiares aos jovens pois o futuro aponta para a vida fora do do planeta. Eu já estive por essa rambla mas não vi esses marcos. O Uruguai mais uma vez sai na frente com essa proposta educativa num equipamento urbano.

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    1. Pois é, Gilberto, pena que esteja parado. Mas quem sabe retomam? Obrigada pelo comentário. bj

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  2. Que projeto magnífico!Tomara que haja continuidade e que a rambla se torne referência na América Latina.
    Bjs,
    Val Cantanhede

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    1. Sim, tomara mesmo, mas está difícil. Já faz um tempo que pararam.

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  3. Excelente, Silvinha.
    Como sempre.
    Parabéns!

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  4. Sylvinha, quanta informação interessante!
    Adorei saber.
    Grande beijo!
    sonia pedrosa

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    1. Que bom, Soninha! É interessante mesmo. Obrigada pelo comentário. Bj

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