26/07/2020

Ipiabas: uma vila escondida no Vale do Café

Cercada por cidades históricas e localizada bem ao lado de Conservatória - a famosa cidade da seresta -
Ipiabas pode parecer, à primeira vista, apenas um lugar de passagem onde é possível viver momentos agradáveis em meio a um cenário natural. Seus atuais frequentadores foram atraídos tanto por essa característica como pelos vários eventos musicais e esportivos que a pequena vila passou a sediar. Mas é no Ciclo do Café que se concentra a riqueza cultural desse distrito de Barra do Piraí, no interior do Rio de Janeiro.

Até onde se sabe, os primeiros
habitantes da região foram os Coroados - tribo formada a partir da assimilação dos Coropós pelos Goitacases de Campos. Os Coroados, por sua vez, dividiam-se em dois grupos: os Purús, que habitavam Valença, e os Araris, instalados em Rio Bonito (atual Conservatória) e em Ipiabas. Desse período, tem-se poucas notícias. Os registros históricos da região só vão ter início  no final do século 18, quando os colonizadores portugueses chegam à região em decorrência das sesmarias - a distribuição, pelo Estado, de terras destinadas à produção agrícola.

A localidade surgiu na primeira metade do século 19, impulsionada por fazendas de café e por uma zona eclesiástica - curato - da Igreja Católica - denominada Nossa Senhora da Piedade das Ipiabaso qual restou a igreja de mesmo nome erguida em 1870.  Na época, pertencia a Valença, passando a Barra do Piraí somente um século depois. Não há informação disponível sobre as razões que determinaram a escolha do nome, mas sabe-se que, em Tupi-Guarani, Ipiabas significa sardinha, ou aquele que tem a pele manchada.

Durante o Ciclo do Café, Ipiabas teve grande desenvolvimento, e foi marcada, como toda a região, pela escravidão e pelo desmatamento. Além de reunir grandes fazendas, sua vila era considerada um importante entreposto na rota do café. No casarão que hoje abriga o centro cultural, funcionava uma espécie de quartel conhecido como A Remonta - onde a Guarda Imperial descansava e fazia a troca de
animais durante as viagens. Ipiabas tinha também, uma das estações de embarque e desembarque mais movimentadas da Rede Mineira de Viação, que fazia o transporte de café do Sul de Minas para o Rio de Janeiro e de passageiros de Ipiabas para Barra do Piraí. O prédio resiste até hoje, e está à espera de uma já programada restauração.

Um túnel construído por escravos


Um dos monumentos mais significativos de Ipiabas é o chamado Túnel Velho, feito a pedido da Rede Mineira, para viabilizar a passagem dos trens por uma rocha, hoje conhecida como Pedra do Gavião, que em seu ponto máximo chega a 250 metros de altura.  Assim como outros túneis históricos do Estado do Rio, o Túnel Velho de Ipiabas foi aberto por escravos no século 19, mais precisamente em 1883, e permanece intacto, embora não esteja tombado. 

Desde a desativação da Rede Mineira, em 1964, o túnel perdeu sua função original, e também os trilhos, mas não deixou de ser utilizado. Por baixo de seu arco passam hoje turistas e curiosos atraídos pela história de Ibiabas e pelas fazendas históricas, algumas delas abertas à visitação. O túnel também recebe a visita de moradores e frequentadores antigos que o elegeram como local de reflexão ou
ponto de parada nos passeios pelas redondezas. 

A lenda do Capitão Mata-Gente


Além de arquitetura histórica, Ipiabas guarda lendas e a mais conhecida delas é inspirada em uma história real, que tem como protagonista o empresário e fazendeiro Antônio Gonçalves de Morais. Não não se sabe, ao certo, onde termina o fato e começa a lenda. Conta-se que tudo começou quando um feitor da fazenda "Salto Pequeno", de sua propriedade, foi morto por 20 escravos revoltados com os maus tratos que sofriam. 

Para pagar pelo crime, os escravos deveriam ser enforcados. Mas se isso acontecesse, o fazendeiro teria um grande prejuízo, pois precisaria comprar mais negros para substituir a mão de obra perdida. Ele decidiu, então, ordenar aos escravos que jogassem o corpo do feitor no açude preso a uma pedra, para que não fosse encontrado. Como a polícia foi avisada, o corpo teve que ser retirado do açude e levado para um novo esconderijo, desta vez em uma bacia de cal virgem.

Mesmo com o corpo desaparecido, o fazendeiro foi processado e se livrou da cadeia com um
pagamento de 60 contos de réis. A partir daí, outras histórias começaram a ser reveladas e Antônio Gonçalves de Morais ganhou o apelido de Capitão Mata-Gente. Segundo corria a boca miúda, ele pagava todas as mercadorias que comprava a caixeiros viajantes e depois os abordava na estrada para pegar o dinheiro de volta. Os que resistiam eram mortos e seus corpos iam parar no açude. 

Os fiscais do governo, segundo a lenda, também eram vítimas do  Capitão Mata-Gente, que foi o primeiro dono da fazenda Prosperidade, hoje aberta à visitação. Conta-se que embaixo de um alçapão,
localizado em uma de suas salas, passava um córrego onde eram jogados os corpos dos fiscais que insistiam na cobrança de impostos.


O Vale do Café


Ipiabas integra hoje o destino turístico conhecido como Vale do Café, que reúne 15 municípios do Vale do Paraíba. É também um dos locais de realização do Festival Vale do Café - evento criado pela  harpista Cristina Braga, e dirigido pelo compositor e violonista Turíbio Santos, que realiza anualmente concertos musicais nas fazendas históricas, shows em praças públicas e oficinas de música para crianças. Conta, ainda, com uma programação musical e esportiva organizada por comerciantes locais.

Ipiabas - Barra do Piraí - Rio de Janeiro - Brasil - América do Sul


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Participação especial: Luiz Zappa (Zappa Bar e Restaurante)

Fotos: 
(1, 2,4,5,6,7) Luiz Antônio Zappa 
(2) ( Foto da Estação) João Carlos Paulino Paiva

Referências:


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    13 comentários:

    1. A história da dita "civilização" é sempre marcada pelo genocídio das nações indígenas e dos africanos escravizados.
      A dívida social com esses povos é imensa e apoiar a luta para resgatá-la é o que deve nos mover nesses tempos em que o genocídio se explicita nessa pandemia.
      Sylvinha, estamos com saudades dos nossos encontros e diálogos.
      Abraços de Afonso e meu.
      Val Cantanhede

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      1. Também estou com saudade de vocês, Val. Que essa pandemia passe logo para voltarmos a nos encontrar. Beijão

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    2. Respostas
      1. Que com que gostou! Toda semana tem matéria nova no blog. Acompanhe. beijão

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    3. Sou suspeita para falar de Ipiabas, porque foi o meu refúgio e de outros arteiros que lá derramavam seus talentos. Alguns "até demais"...e que lá deixaram escorrer sons, poesias e outras modinhas.Embora a história de sua arquitetura possam deixar fixadas a recordação física...quando por lá eu passo,ecoam os acordes de violões, cavaquinhos,flautas,gaitas e folhas de fico.Muitos "causos" , risadas e muita camaradagem a céu aberto nas quatro estações que marcaram este coração barrense..Fica aqui o meu abraço para a jornalista Sylvia Leite ,que caminha por aí com olhos abertos pelos cantos do planeta.Até a próxima parada.

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      1. Eu também tenho essas lembranças musicais e poéticas de Ipiabas, Shellah. Viajei no tempo com seu comentário. Beijo.

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    4. passei minha adolescência, brincando carnaval no antigo clube de Ipiabas, marchinhas, bandas... muitas recordações. E até hoje sempre estou presente neste lugar maravilhoso e aconchegante...

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      1. Que legal, Romualdo! Eu também passei um carnaval no antigo Clube Ipiabas. Inesquecível.

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    5. Belo registro, Sylvinha!Parabéns!
      sonia pedrosa

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    6. Acredito que merece uma visita. Nossa história não diverge muito de outros países colonizados e com envio de nossas riquezas para os dominadores.

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    7. Acredito que merece uma visita. Nossa história não diverge muito de outros países colonizados e com envio de nossas riquezas para os dominadores.

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