14/06/2020

Ronda: uma cidade inspiradora à beira do penhasco

Inúmeras cidades, do mundo inteiro, foram e continuam sendo cantadas por seus poetas e escritores,
mas certamente não são tantas as que receberam ou recebem menções entusiasmadas por parte de artistas estrangeiros. A pequena e pouco conhecida Ronda, no Sul da Espanha, é uma delas. Foi descrita pelo austríaco* Rainer Maria Rilke como a cidade dos seus sonhos, e, pelo norte-americano Ernest Hemingway como o lugar da Espanha para onde se deve ir em lua de mel porque "a cidade inteira [...] é um cenário romântico". Para completar, Ronda foi o lugar escolhido pelo cineasta, também norte-americano, Orson Welles, para morrer e, embora o destino não tenha permitido que isso acontecesse, o desejo de ficar para sempre em Ronda foi cumprido dois anos depois, com o envio de suas cinzas à fazenda Recreo de San Cayetano, que
pertence à família Ordoñez, onde permanecem guardadas no fundo de um poço.

A propriedade onde estão as cinzas não é aberta ao público e a história  de Welles  não está incluída no imaginário coletivo de Ronda, mas quem quiser relembrar a relação entre o artista e a cidade pode visitar sua escultura , onde uma placa exibe a seguinte frase "Um homem não é de onde nasceu, mas de onde escolhe morrer.."**. Pode, ainda, ainda, andar sem pressa pelo "Passeo Orson Welles", uma espécie de parque que fica bem próximo. Na mesma área, encontra-se a escultura a Ernerst Hemingway***. Um e outro passaram verões em Ronda, atraídos por sua beleza e pelas touradas. Um fez filmes, o outro escreveu, e ambos ficaram amigos do toureiro Antonio Ordoñez em cuja fazenda encontram-se as cinzas de Welles.

A experiência de Rilke foi mais solitária, mas nem por isso menos intensa. Desconhecido dos moradores, e hospedado em um hotel com poucos hóspedes, o poeta aproveitou o anonimato para passear livremente pela cidade e  observar as montanhas da região que, segundo ele "se abrem para entoar salmos por suas vertentes"****. Foi em Ronda que ele conseguiu vencer uma profunda crise artística e espiritual, em consequência da qual havia parado de escrever a série de poemas considerada pelos críticos como sua mais importante obra: "As Elegias de Duino" (Duinos Elegies).
Nos três meses que viveu em Ronda, de dezembro de 1912 a fevereiro de 1913, Rilke não apenas recuperou a inspiração e retomou a obra interrompida - começando a escrever a IV Elegia -  como produziu outros textos, em prosa e verso, que foram reunidos no livro "En Ronda: cartas y poemas", lançado, em comemoração ao centenário de sua passagem pela cidade.
Assim como Welles e Hemingway, Rilke também ganhou uma escultura em Ronda, mas a sua fica no jardim do hotel Reina Victoria, o local onde ficou hospeadado. Por muito tempo, o hotel manteve, praticamente intacto, o quarto ocupado por Rilke, mas, depois de uma reforma, os objetos usados por ele passaram a ser expostos em uma área comum. 

A comunhão entre Geografia e Arquitetura 

Não foi à toa que Ronda despertou e ainda desperta tantas paixões. Como a cidade está plantada sobre  um penhasco, situado a mais de 700 metros acima do nível do mar, para qualquer lado que se vá, tem-se uma vista privilegiada das montanhas que encantaram Rilke. Mas isso não é tudo. Um enorme despenhadeiro aberto pelo rio Guadalevín, e denominado El Tajo de Ronda, divide o penhasco e a cidade em duas partes, dando a impactante impressão de que as casas erguidas em seus limites estão
prestes a cair no abismo. 
Como se isso não bastasse, os dois lados separados pelo abismo são comunicáveis por meio de três pontes que marcam diferentes momentos históricos: a Velha, a Árabe e a Nova. Essa última, apesar do nome, existe há dois séculos, e, por sua monumentalidade, acabou se firmando como o principal símbolo de Ronda e um dos mais conhecidos da Andaluzia. 
A Ponte Nova, ou Puente Nuevo, como dizem os espanhóis, tem quase cem metros de altura e levou 42 anos para ser construída com pedras extraídas do fundo do precipício, durante o reinado de Felipe V.
Em seu interior, funciona hoje um Centro de Interpretação que estuda desde a arquitetura e engenharia do monumento até fauna flora, geologia, urbanismo e história da região.

 Uma história milenar 

Até onde se sabe, quem primeiro habitou o local, no Século 6 antes de Cristo, foram os Celtas, que lhe deram o nome de Arunda. Depois vieram os gregos, que a chamaram de Runda, seguidos pelos Romanos e pelos Árabes, que permaneceram ali por cerca de sete séculos. A cidade foi reconquistada pelos reis católicos em 1485 e depois invadida por Napoleão.

Os árabes talvez sejam aqueles que deixaram influencias mais marcantes na paisagem urbana, a começar pelas ruas estreitas com casas caiadas, muito comuns em outros pontos da Andaluzia, especialmente nos chamados "Pueblos Blancos"*****.  Desse período, restaram algumas muralhas, inclusive as que cercavam a cidade com sua entrada principal conhecida como Puerta de Almocabar. Sobrevivem também os banhos árabes, construídos no século 13 e  considerados os mais bem conservados da Espanha, com o sistema hidráulico praticamente intacto e as aberturas no teto para passagem de luz ainda bem delineadas em
forma de estrela. Foi também do período de domínio árabe o Palácio de Mondragón, usado como residência oficial pelo rei Abomelik e pelo governador Hamed el Zegrí, que hoje abriga o Museu de Ronda.

Do domínio católico, que de certa forma permanece até hoje, ficaram a Ponte Nova e as igrejas, entre as quais se destaca a de Santa Maria Maior - uma construção que mistura os estilos renascentista e gótico e levou 200 anos para ficar pronta. 

A mescla das duas culturas aparece de forma explícita na Casa del Rey Moro, um palácio que teria recebido esse nome por ter um painel de azulejos que retrata um dirigente árabe. Não fica claro em que período o palácio foi construído. Sabe-se apenas que em seu subsolo há uma galeria subterrânea - com uma escadaria de 236 degraus cortados na rocha - construída pelos árabes no século 14 como parte de um sistema de bombeamento de água. Já no plano térreo, o palácio tem jardins assinados pelo arquiteto e paisagista francês Jean-Claude Forestier, o mesmo  que construiu o Parque Maria Luisa, em Sevilha.


Das touradas ao bandoleirismo

A mais forte tradição de Ronda talvez seja a tourada - uma pratica hoje condenada por associações protetoras de animais por ter como clímax a morte do touro. A  tauromaquia parece ter começado em Creta, na Grécia, durante a Antiguidade Clássica. O próprio nome vem do grego tauromachia ou combate com touros. Ainda assim, Ronda é tida por seus moradores como um dos berços das touradas.

Sua Praça de Touros é uma das mais antigas da Espanha e um dos pontos turísticos mais
procurados da cidade. Foi nela que Madonna gravou cenas do videoclip "Take a bow", em que aparece como amante não correspondida de um toureiro, interpretado por Emílio Muñoz. Foi também a tourada que atraiu para Ronda tanto Welles como Hemingway.

Na Praça de Touros há um museu que guarda a memória das touradas de Ronda. Museu, aliás, é o que não falta na cidade e um deles costuma atrair a curiosidade dos visitantes. É o Museu del Bandolero - dedicado à memória do banditismo social na Andaluzia e em outros pontos do país. O museu reúne mais de 1.300 peças entre documentos, jornais, livros, fotografias, filmes, quadros, romanceiros, vestuário e armas, entre outros.  

Assim como ocorre com o Cangaço brasileiro, o Bandoleirismo Espanhol é cercado de mitos e lendas e seus integrantes são objeto das mais diversas interpretações, que vão desde a reprovação como ladrões, assassinos e salteadores, até o mito do ladrão do bem, que é visto como galã, justiceiro e homem valente.



* Rainer Maria Rilke nasceu em Praga, durante o império autro-hungaro, por isso é tido como austríaco, mas alguns referem-se a ale como um poeta alemão por ter escrito nesse idioma.
** Inscrição completa em Espanhol: "Un hombre no es de donde nace, pero donde elige morrir y Rinda fue la elegida. Quiso ser un rondeño más para siempre. Sus cenizas fueran depositadas aqui en el Recreo de San Cayetano. Ronda, 2013"
*** As duas esculturas estão em um parque contíguo ao Passeo Orson Welles. 
**** Citação completa em Espanhol: "Aquí corre un aire fuerte y magnífico, las montañas se abren para entonar salmos por sus vertientes y, apilada sobre una meseta, se levanta una de las más antiguas y extrañas ciudades españolas". En Ronda: cartas y poemas.
***** Leia, aqui no blog, matérias sobre os seguintes "Pueblos Blancos": Arcos de la Frontera e Algodonales 


Ronda - Málaga - Andaluzia - Espanha - Europa


Texto: Sylvia Leite 

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 
(1, 7, 8 e 9)  Frank Nürnberger por Pixabay 
(2) Aapo Haapanen from Tampere, Finland - Ronda, CC BY 2.0
(3) Pablo Valerio por Pixabay 
(4) Capa do livro "En Ronda: cartas y poemas", divulgação.
(6) Joëlle Moreau por Pixabay 
(10) By SweetnessParadise, CC BY-SA 2.0.

Referências:

Sites:


Livros:

"As Elegias de Duino", Rainer Maria Rilke.
"Ronda: cartas y poemas" Rainer Maria Rilke
--------------------------------------------
Gostou da matéria? Você pode deixar um comentário a seguir expressando sua opinião. E se quiser ajudar a aumentar a visibilidade do blog, é só divulgar esta postagem nas redes sociais. Basta  clicar, aqui abaixo, no ícone de sua rede preferida e compartilhar.

Para ler sobre outros 'lugares de memória', clique nos links abaixo:

12 comentários:

  1. Fiquei curiosa, Sylvinha. Deu vontade de conhecer Ronda!
    Beijão,
    sonia pedrosa

    ResponderExcluir
  2. Essa cidade deve ser linda! Vontade de conhecer! Quem sabe um dia! Ah!! Sul da Espanha maravilhosa!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vale a pena. Se for, aproveite para cohnecer outros lugares próximos como Cádiz e Jerez de La Frontera.

      Excluir
  3. Gostei muito de saber destes lugares, não tão divulgados, cheios de belezas e de histórias.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom, Maria Cristina. Toda semana tem matéria nova no blog. Acompanhe!

      Excluir
  4. Mais um texto delicioso de ler, Sylvinha!
    Ronda parece ser um pequeno paraíso na Andaluzia de tantas belezas a conhecer.
    Bjs,
    Val Cantanhede

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É um deles. A Andaluzia tem inúmeros pequenos paraísos. Cada um mais interessante que o outro. Aqui no blog já tem matéria sobre alguns deles: Alhambra, Arcos de La Frontera, Algodonales, Cádiz, Guadix (em Granada).

      Excluir

Obrigada por seu interesse em nossa postagem!