29/06/2020

Elevador Lacerda: um meio de transporte que virou símbolo de baianidade

O Elevador Lacerda é hoje um dos principais cartões postais de Salvador e sua imagem é usada em 

inúmeras - senão em todas - as campanhas turísticas sobre a Bahia. Mas quando foi criado, na segunda metade do século 19, sua função era estritamente utilitária: fazer o transporte de pessoas e de mercadorias entre as partes alta e baixa da cidade, até então realizado a pé, por cansativas ladeiras ou escadarias, e, no caso das cargas, por meio de guindastes.

Foi uma obra audaciosa para a engenharia do século 19. Era a primeira vez no mundo que se construía um elevador urbano e os desafios não se limitavam a isso. A obra exigiu a perfuração de dois túneis na encosta de pedra conhecida como Ladeira da Montanha: um vertical, para a instalação da torre, e um horizontal para fazer sua comunicação com a rua. Além disso, tratava-se do maior elevador de que se tinha notícia, com 63 metros de altura. 

Um século e meio de história


Chamado inicialmente de Elevador Hidráulico da Conceição da Praia, porque era movido pelo vapor de uma caldeira, logo ganhou o apelido de Parafuso em alusão a uma estrutura espiralada que impulsionava as cabines. Somente duas décadas depois é que foi rebatizado em homenagem ao seu idealizador, o empresário Antônio de Lacerda, criador e proprietário da Companhia de Transportes Urbanos, a primeira operadora de trens de Salvador. Para a construção do elevador, Antônio contou com a ajuda técnica do irmão Augusto Frederico, que era engenheiro, e com o financiamento do pai, Antônio Francisco, que tinham o mesmo sobrenome. 

Nos primeiros tempos, havia apenas uma torre, encravada na pedra, e duas cabines. Os passageiros eram pesados individualmente para que a soma final não ultrapassasse o limite de segurança. Desde soa Nesse
século e meio de existência, o elevador passou por cinco obras, entre as quais, destacam-se duas grandes reformas: uma em 1906, para eletrificação, e outra em 1930, para a construção de uma nova torre e mais duas cabines. Foi nessa segunda obra que o elevador ganhou a aparência atual, com uma longa passarela de entre as duas torres que se projeta em direção ao mar. Na mesma ocasião, sua altura foi elevada para 72 metros.

Ao longo do tempo, o Elevador Lacerda foi ganhando fama e tornando-se um dos símbolos mais representativos da Bahia. Em 2011 foi tombado pelo IPHAN - Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e pelo IPAC - Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. O monumento também virou tema de doodle do Google em seu aniversário de 145 anos.

Um monumento para se conhecer por dentro    

Agora, quase um século e meio depois de sua criação, o Elevador Lacerda pode não ser mais a principal opção de transporte entre a Cidade Alta e a Cidade baixa, pois a essa altura já existem vários outras, mas suas cabines continuam lotadas. Por elas passam, em média, cerca de 30 mil pessoas por dia, quase todos moradores em suas jornadas diárias. Os turistas, mesmo seduzidos pelos encantos e pela fama do prédio, nem sempre se animam a conhecê-lo por dentro e muitos preferem admirá-lo de longe ou fazer fotos em suas proximidades. Talvez isso ocorra porque seu interior continua voltado apenas para o transporte: nenhuma das cabines é  panorâmica e somente as da frente proporcionam alguma visão da paisagem por meio de escassas venezianas. 

Mas os que se aventuram a ir até o local só têm a ganhar. Primeiro porque seu maior encanto talvez esteja no fato de ser um monumento vivo que, diariamente, serve aos moradores da cidade, propiciando subida e descida de maneira rápida e barata - e, como diria o baiano Caetano Veloso, isso é bonito de se ver. São apenas 30 segundos de viagem por um preço simbólico de poucos centavos. Segundo, porque é interessante identificar os pontos que o elevador integra: na Cidade Alta, a Praça Tomé de Souza, onde funcionam a Prefeitura, a Câmara dos Vereadores e o Palácio Rio Branco, antiga sede do Governo hoje transformada em espaço oficial de recepções. Na Cidade Baixa, a Praça Cairu, onde se localiza o icônico Mercado Modelo. Terceiro porque na parte alta, diante de suas portas de entrada e de saída, está a sorveteria Cubana, considerada a mais antiga de Salvador. É um lugar simples e também voltado para os soteropolitanos, mas capaz de encantar visitantes por sua história e tradição: foi aberta em 1930, por uma família de cubanos, depois de uma das reformas do elevador, e criou fama com itens como o Dusty Miller, feito com duas bolas de sorvete, duas caldas, leite em pó e biscoito; e também com o bolinho da Cubana, que é uma receita secreta e quase centenária, com calda de cacau em pó e castanhas picadas. Para completar, de suas mesas é possível admirar a Baía de Todos os Santos e toda a zona portuária.


Elevador Lacerda - Salvador - Bahia - Brasil - América do Sul

 
Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Participação especial: Mário César Dantas Rodrigues

Fotos: 
(1 e 4) Sylvia Leite
(3) Doodle do Google
(5)  Ciroamado, CC BY-SA 4.0

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    4 comentários:

    1. Muito bom saber mais sobre esse cartão postal de Salvador! Adorei, Sylvinha!
      sonia pedrosa

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    2. Ficou legal Sylvia, como sempre. Precisamos valorizar esses monumentos, pois o Elevador Lacerda é um deles. Beijos

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      Respostas
      1. Feliz por você ter retomado a leitura do blog. Obrigada. Seus comentários fazem falta. Beijão!

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