25/08/2020

Valparaíso: uma cidade repleta de cores, histórias e lendas

Um dos maiores atrativos da cidade chilena de Valparaíso é o casario colorido espalhado em suas
Foto Michelle Maria por Pixabay - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
colinas (cerros, em espanhol), que foi tombado pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade, e é amplamente divulgado como cartão postal da cidade. Outro importante ponto turístico é a famosa La Sebastiana - casa em forma de barco onde o escritor Pablo Neruda viveu em companhia de sua terceira esposa, Matilde Urrutia. Entre as casas históricas - algumas com mais de duzentos anos - e o refúgio de Neruda, que nos remete à história mais recente da cidade, há décadas de acontecimentos culturais, políticos e econômicos - tudo isso diante de
Foto Sylvia Leite - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
um porto que já foi o mais importante da América do Sul.

Talvez o fato mais marcante seja o ocorrido 1.939, quando Valparaíso abriu suas portas, de uma só vez, para cerca de 2 mil refugiados* da Guerra Civil Espanhola. Os fugitivos viajaram durante um mês a bordo do cargueiro Winnipeg, em uma missão chefiada por ninguém menos que o poeta Pablo Neruda, que tinha sido consul em Barcelona e Madrid e foi nomeado pelo governo do Chile para conduzir a operação. Eram trabalhadores, intelectuais, artistas e suas famílias, que haviam atravessado a fronteira da Espanha com a França para escapar às perseguições da ditadura sangrenta instaurada por Francisco Franco e estavam vivendo em condições sub-humanas.

O cargueiro ficou conhecido como 'o barco da esperança' e Neruda declarou, anos depois, que Winnipeg era o seu maior poema, acrescentando: "que a crítica apague toda a minha
poesia, se achar por bem, mas este poema, que hoje recordo,
ninguém poderá apagar." A histórica viagem de salvamento foi contada pela escritora Isabel Allende em seu romance "Longa Pétala de Mar", lançado em 2019, quando a operação de resgate completou oito décadas. Isabel era amiga do engenheiro e jornalista Victor Pey, que estava entre os refugiados, e sua história serviu como base tanto para a narrativa, como para a construção do principal personagem, o médico Victor Dalmau.

Valparaíso: abrigo de muitas nacionalidades


Não era a primeira vez que Valparaíso recebia imigrantes. Como cidade portuária, Valpo, como é carinhosamente chamada pelos mais íntimos, assistiu, desde sempre, ao desembarque de estrangeiros. Uns vinham para ficar, outros estavam apenas de passagem.

Foto Sylvia Leite - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Os primeiros a aportar na cidade foram os espanhóis, em 1536. Na época, Valparaíso era habitada pelos Changos – nome dado às tribos que viviam no Norte do Chile e no Sul do Peru durante o período pré-colombiano. Depois veio a época dos corsários e piratas ingleses que durou quase 60 anos. Com o aumento das exportações, Valparaíso foi ganhando importância e chegou a tornar-se, entre os séculos 19 e 20, o mais importante porto mercantil das rotas que ligavam os oceanos Atlântico e Pacífico através do Estreito de Magalhães. 
Foto Sylvia Leite - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
São dessa época os cinco bairros históricos, dispostos em colinas (ou cerros), hoje tombados pela Unesco. Sua aparência reflete a diversidade dos imigrantes, seja pela mescla de estilos e técnicas de construção, seja pelo status das edificações que vão de pequenas casas a prédios monumentais.

Como Valparaíso tem mais de 40 colinas, o transporte na época de maior efervescência do porto passou a ser feito por cerca de 30 sistemas funiculares. Alguns deles existem até hoje, inclusive dentro da área tombada, embora nem todos funcionem.

E se esses bairros já eram coloridos pela variedade de tons das paredes, nos últimos tempos ganharam ainda mais vibração com os painéis de arte urbana que invadiram as fachadas e até os vagões dos funiculares. Surgidos como protesto contra o regime de Augusto Pinochet, hoje são incentivados e até patrocinados pelo governo.
Foto Sylvia Leite - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


As cores, aliás, parecem brotar do chão ou cair do céu em alguns pontos de Valparaíso. Quem olha para o mar a partir dos 'cerros', por exemplo, chega a pensar que as paredes das casas estão se projetando sobre o porto, tamanha a variedade de tons dos contêineres.

História e lendas em Valparaíso


Passear pelas ruas estreitas dos bairros históricos,
Foto Sylvia Leite - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
observando suas casas coloridas, e andar um dos seus funiculares é uma experiência que, por si só, já justificaria uma visita à cidade, mas Valparaiso tem mais. A famosa e já citada La Sebastiana, que tornou-se um dos três museus de Pablo Neruda**, é visita obrigatória. Além de guardar a história do poeta e de sua literatura, tem uma linda vista da cidade. Não foi à toa que ele elegeu essa casa como local preferido para passar as entradas de ano.

Valparaíso tem, ainda, alguns cemitérios que passaram a ser considerados atrativos culturais seja por guardar a memória das imigrações, seja por abrigar túmulos de personagens populares
envoltos em lendas. O dos Dissidentes, por exemplo, desperta interesse histórico pelo fato de reunir apenas corpos de não católicos, em sua maioria imigrantes ingleses ou escoceses. 

Mas o que causa maior impacto visual é o de Playa Ancha, conhecido por reunir, em um de seus setores, sepulturas improvisadas pelos que não tinham recursos para construir túmulos convencionais. Esses jazigos são denominados berços (cunas ou corrales em Espanhol) por lembrarem a forma dos leitos infantis, por serem feitos com madeira ou metal retirados de suas estruturas, ou, em alguns casos, por serem constituídos por berços inteiros descartados por seus antigos donos.Esse cemitério chama a atenção, ainda, pelo fato de abrigar tumbas de personagens históricos bastante populares.

Foto Alexxxos Wikimedia - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Duas sepulturas podem ser consideradas as mais procurados do local e, coincidentemente, ambas pertencem a personagens polêmicas. Uma delas é a de Émile Dubois – uma espécie de Hobin Hood chileno. Para a história oficial, trata-se de um francês condenado ao fuzilamento por ter cometido assassinatos em série, mas o
povo de Valparaíso o elevou à condição de herói, na certeza de que seus crimes eram cometidos apenas contra burgueses usurpadores e em defesa da classe trabalhadora. A história de Dubois está registrada em pelo menos duas biografias e é tema de dois romances. Um deles, “Todas aquelas mortes”, de Carlos Droguett, foi
Foto Digital Journal - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
vencedor do Prêmio Alfaguara.

O outro personagem de grande popularidade no cemitério é Martin Busca, um milionário que, segundo a narrativa popular, enriqueceu depois de fazer um pacto com satanás. O pagamento pelo favor, seria feito com a própria alma, assim que ele morresse e seu corpo tocasse a terra. Mas Busca foi mais esperto e pediu para ser sepultado em um mausoléu suspenso. Resultado: ficou conhecido como o homem que enganou o diabo e seu túmulo, que é sustentado por patas de leão, tornou-se cenário para feitiços e sacrifícios de animais.

Com esses dois memoriais, o cemitério de Playa Ancha não precisaria de mais nada para atrair a curiosidade dos visitantes, mas ainda não acabou. Além das histórias comuns em cemitérios, como as que falam de mulheres de branco e de outras assombrações, há, ainda uma torre que, segundo a lenda, é na verdade um portal que se abre à noite e pode ser transposto por quem tiver coragem de atravessá-lo.
Foto Sylvia Leite - Matéria Valparaíso - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


O tesouro escondido de Valparaíso


E lenda é o que não falta em Valpo. Como em toda cidade portuária, principalmente as que foram visitadas por piratas, o imaginário de seus moradores foi, por muito tempo, povoado por histórias de tesouros. Os piratas teriam ido até lá para saquear navios espanhóis que transportavam essas riquezas espetaculares e, pelo menos um dos tesouros, ainda estaria escondido na região.

O tal tesouro teria sido escondido em uma caverna, na praia de Laguna Verde, pelo corsário inglês Francis Drake, mas, segundo a lenda, o tesouro nunca foi encontrado porque não há entradas para a caverna no local. Um dos acessos estaria na rua Esmeralda, em Valparaíso, mas sua entrada seria protegida por um monstro que se encarrega de enlouquecer os caçadores de tesouros.



* Os números variam conforme a fonte. Os registros variam de 1.979 a 2.365.

Valparaíso - Valparaíso -  Chile - América do Sul


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes

Fotos:

(1) Michelle Maria por Pixabay 
(2, 4, 5, 6,7, 10) Sylvia Leite
(8) Alexxxos Wikimedia 
(9) Digital Journal

Participação especial:

Mônica Guimarães



Livros:

"Longa Pétala de Mar", de Isabel Allende.

“Todas aquelas mortes”, de Carlos Droguett.

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44 comentários:

  1. Que texto delicioso de se ler, Sylvinha!
    Amei conhecer Valparaíso, sua história, lendas e cultura.
    Bjs,
    Val Cantanhede

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  2. Fiz um tour guiado por Valparaíso que foi a melhor coisa que pude ter escolhido. A cidade é muito cheia de altos e baixos literalmente, o que torna a visita um pouco mais cansativa. Então ser guiado foi bom por conhecer a história de determinadas regiões e casas, além das atrações turísticas, sem perder muito tempo. Algumas das histórias e lendas que você menciona aqui ainda não conheci a e adorei "completar" minha viagem por Valparaíso com elas.

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  3. Puxa vida! Quanta história e riqueza em Valparaíso!!! Eu ainda não conheço, era uma das viagens que faríamos este ano! Mas após a leitura deste texto, a minha visita a Valparaíso repleta de cores, histórias e lendas, será bem melhor aproveitada e extremamente enriquecedora! Obrigada pelo texto!

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    1. Eu que agradeço por seu comentário generoso. Grande abraço!

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  4. Adorei seu post, Valparaiso é mesmo muito bacana, adorei quando estive lá em Outubro, e agora pude reviver essa viagem no seu post. Obrigada

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    1. Fico feliz quando as pessoas revivem bons momentos lendo as matérias do blog. Obrigada pelo retorno. bjs

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  5. Belo texto, Sylvinha, sobre essa cidade que ainda nao conheço. Com essas informações, minha vontade cresceu!

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    1. Que bom, Soninha. Espero que vá mesmo e saboreie esse lugar maravilhoso. Bjs

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  6. Conheci Valparaiso, a cidade dos morros coloridos, quando estivemos em Santiago, foi um passeio onde incluímos Viña del Mar, que gostamos bastante também. Achei um passeio imperdível, não dá para voltar para casa sem conhecer estes dois destinos lindos.

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  7. Quando conheci Santiago, fiz um rápido, e injusto, bate-volta para conhecer Valparaíso e visitar a casa de Neruda, um passeio que me encantou! A cidade é incrível e merece pelo menos uma pernoite para aproveitar a famosa gastronomia e apreciar as luzes dos seus morros coloridos. Ouvi dizer que os melhores hamburgeres do mundo são de Valparaíso! É o que farei na minha próxima ida ao Chile, conhecerei com mais calma Valparaíso.

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    1. Isso. Eu também quero ficar mais tempo da próxima vez. É uma cidade para ser saboreada. Obrigada pelo comentário.

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  8. Amei conhecer Valparaíso suas cores, lendas e histórias por meio de seu post. Realmente, todos os acontecimentos passados revelam muita personalidade. Valeu por compartilhar.

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  9. Eu adoro visitar lugares assim, cheio de histórias e lendas. Essa arquitetura colorida de Valparaíso é um encanto, Infelizmente não consegui incluir no meu roteiro pelo Chile. Vou incluir em uma próxima viagem. Adorei as dicas!

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    1. Inclua, sim, Ângela. Você vai gostar. Obrigada pelo comentário. Abraço.

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  10. Passamos tão rápido em Valparaíso que nem deu pra ver toda essa beleza que você trouxe aqui, também nem imaginava tantas lendas de piratas e tesouros. Agora sim conheci mais sobre a cidade.

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  11. Vou conhecer está linda cidade um sonho obrigada por postar meu marido é chileno . só conheço Santiago mas pelas cidades líndas maravilhosas de Chile. Quero fazer um thur por todas as cidades Chilenas.

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    1. Obrigada pelo comentário. Pena que não deixou seu nome. Você vai gostar muito das cidades do Chile.

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  12. Quantas histórias super curiosas e interessantes essa cidade guarda. Visitei Valparaíso em um passeio bate e volta de Santiago. Gostei muito de ver o porto de cima, dos funiculares e da casa de Pablo Neruda.Tenho muita voltade de voltar ao Chile e de ficar em outras cidades que não Santiago. Obrigada pelo post, beijocas

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    1. Obrigada pelo comentário, Lílian. Volte, sim. Eu também quero voltar.

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  13. Eu visitei Valparaíso em janeiro do ano passado e me apaixonei! Adorei as lindas ruas que desembocam no mar! Cada vista mais incrível do que a outra, náo? Parabéns pelo post, achei muito completo e consegui matar a saudade! Abraços!

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    1. Obrigada pelo comentário, Cintia. As vistas são lindas mesmo. Abraços pra você também.

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  14. Sou apaixonada por Valparaíso e por seus morros coloridos, meu único arrependimento de quando visitei a região foi ter ficado tão pouco tempo.

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    1. O meu também, Luciane. Adoraria ter ficado mais. Obrigada pelo comentário.

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  15. Adorei passear pelas ruazinhas de Valparaiso quando fui para o CHile, pena que fiquei pouquissimo tempo por lá, passei a maior parte do tempo em Vina del Mar, outra cidade que vale muito a pena. Adorei as dicas!

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    1. A gente sempre fica menos tempo do que gostaria, não é? Uma pena. Obrigada pelo comentário.

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  16. Muito interessante sua narrativa, Sylvia. Enriquecedora.

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  17. Puxa, o texto me trouxe boas memórias, lembro quando chegamos cedinho de ônibus a Valpo e logo no início, ao subir em um dos ascensores, contemplar o colorido dessa cidade tão peculiar. Também gostaria de ter ficado mais, aproveitado a culinária. Não sabia da história do Pablo Neruda levando os refugiados, um visionário nas artes, e compassivo nas ações. Magnífico. Obrigada pelo lindo post.

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    1. Eu que agradeço, Andrea. Pela leitura e pelo comentário. Beijo.

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  18. Uma das primeira viagens internacionais q fiz com toda a família foi exatamente para o Chile e além de Santiago, Viña Del Mar visitamos a colorida Valparaiso. Lendo esse seu texto fiquei com vontade de voltar, já que faz muiiiito tempo que fui. Adorei revisitar através do seu post.

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    1. Bom saber disso, Sil Mendes. Obrigada pelo comentário. Abraço.

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  19. Incrível quanta história temos para conhecer em valparaíso. Aliás viajar é isso, não ver só os monumentos e pontos turísticos, mas entender a formação da cidade, que no caso de valparaíso contou com grupos distintos de imigrantes em todo esse tempo. Muito rico seu post Valparaiso: sobre a cidade dos Morros Coloridos.

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    1. Concordo com você, Mairim. Viajar é sentir o lugar, conhecer sua história, seus costumes. Obrigada pelo comentário.

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  20. Não sabia que Valparaíso era um lugar tão interessante, tão cheio de atrativos, tão colorido! Certamente vou querer ir lá, assim que a pandemia deixar. Parabéns, Sylvia, pelo texto conciso e abrangente

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  21. Valparaíso é um lugar que quero muito visitar. Espero que a pandemia termine em breve para conseguirmos ir!

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    1. Vale a pena. Não deixe de visitar a casa de Neruda, nem os cemitérios. Aproveite cada cantinho.

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  22. Nossa, que interessante conhecer mais a história de Valparaíso e também de Pablo Neruda. Adorei muito e deu ainda mais vontade de visitar o Chile! Ótimo post.

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    1. Que bom que gostou, Ju. Valparaiso realmente é encantadora. Você vai gostar.

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