18/04/2020

Estação Júlio Prestes: uma construção histórica que abriga trens e orquestras

Fotos Marcio De Assis  e Sylvia Leite - Matéria Estação Júlio Prestes  - BLOG LUGARES DE MEMÓRIANão precisava ser especialista para entender que seria um grande desafio instalar uma casa de espetáculos musicais ao lado de uma estação de trens, com todos os seus ruídos e vibrações. Pois a primeira sala de concertos do Brasil foi construída dentro da famosa Estação Júlio Prestes, localizada na região central de São Paulo. Graças a um elaborado projeto que fundiu acústica e arquitetura, hoje se pode assistir a apresentações sinfônicas e de câmara, com audição impecável, dentro do prédio da estação, a menos de cem metros das plataformas ferroviárias. O espaço foi batizado como Sala São Paulo e, além do auditório, abriga também a Secretaria de Cultura e a OSESP, a orquestra sinfônica estadual.

Foto Sturm - Matéria Estação Júlio Prestes  - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Sala São Paulo: um desafio acústico


Foto Júlio Boaro - Matéria Estação Júlio Prestes  - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO mérito do aparente milagre foi atribuído às chamadas nuvens acústicas. São quinze placas de aço, revestidas de madeira, que compõem um forro móvel e flexível, capaz de calibrar o volume da sala - que pode variar de 12 mil a 28 mil metros cúbicos - de acordo com a necessidade de cada tipo de música. Mas segundo o arquiteto José Augusto Nepomuceno, consultor de acústica do projeto, esse aspecto, embora muito importante, não é tudo. Para se chegar à qualidade acústica alcançada na Sala São Paulo, foi preciso contemplar "um universo grande, delicado, quase intangível de detalhes raramente comentados, mas dos quais dependem as nuances da música que ali é ouvida"* .

Esses detalhes, de acordo com o consultor, estão em toda parte: na geometria da sala, no desenho e no posicionamento de alguns elementos, na espessura de materiais, na ausência de cortinas e, até mesmo, nas característica do prédio original como paredes pesadas e irregularidades da arquitetura eclética do prédio, concluído na primeira metade do século 20. O próprio forro móvel tem uma complexidade maior do que se imagina, sendo as placas apenas a sua parte visível.

Para que tudo isso se concretizasse, foi preciso abandonar a noção de acústica como uma disciplina complementar, destinada a revestir superfícies, e inseri-la no escopo de um projeto conjunto onde tudo era, ao mesmo tempo, acústica e arquitetura, buscando "esculpir os vazios e volumes internos em busca da sonoridade da Sala"**.

Foto Sturm - Matéria Estação Júlio Prestes  - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAMas além da acústica, havia outro desafio: inserir uma nova arquitetura em uma construção histórica. E, como conta o arquiteto Nelson Dupré, responsável pela obra de restauro e readequação, era importante "chegar a um desenho simples e coordenado para os novos componentes do espaço, evitando interferências com a arquitetura existente"***.

O resultado foi reconhecido pela United States Institute for Theatre Technology -USITT, com o prêmio de honra do ano 2.000. O arquiteto Richard Blinder, que anunciou a premiação, justificou a distinção "pelo impressionante trabalho de arquitetura efetuado ao transformar uma estação ferroviária em operação em uma fantástica sala de concertos, com os incríveis desafios de acústica que a obra apresentava".


A ferrovia do café



A história da Estação Júlio Prestes começa em 1872. Chamava-se Estação São Paulo e era o o ponto final da Estrada de Ferro Sorocabana, criada para transportar café do interior para a capital. Sua localização estratégica, praticamente ao lado da Estação da Luz, facilitava o traslado das mercadorias para a ferrovia São Paulo Railway, que fazia a ligação com o Porto de Santos.

Foto Werner Harbercom - Matéria Estação Júlio Prestes  - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO segundo prédio da estação, que permanece até hoje, começou a ser construído em 1925 e só foi concluído em 1938. O projeto - inspirado em grandes estações como a Grand Central de Nova Iorque - é dos arquitetos Cristiano Stockler das Neves e Samuel das Neves e foi premiado no  II Congresso Panamericano de Arquitetos, em 1927.

São 25 mil metros quadrados de construção, com estrutura de concreto e alvenaria, grades de ferro e até vitrais. 
Foto Sylvia Leite - Matéria Estação Júlio Prestes  - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Embora a estrela do prédio seja hoje a sala de concertos, vale a pena conhecer todo o edifício, o que inclui a parte de apoio à sala - com café, restaurante e loja - e o hall que antecede as plataformas, atualmente usado para eventos.

A melhor forma de conhecer a Estação Júlio Prestes e sua sala de concertos é ir assistir a um espetáculo e chegar mais cedo para percorrer todos os seus espaços. Mas quem não se interessa ou não consegue ir a um concerto, não está totalmente privado da experiência. A sala São Paulo tem um programa de visitas diárias (agora suspenso por causa do coronavírus), a preços populares de segunda a sexta e gratuitas nos sábados e domingos. E para quem não está na cidade, ou mesmo estando não consegue ir até o local, resta a opção da visita virtual



* Fragmento do texto "O projeto acústico", de José Augusto Nepomuceno, consultor de acústica do projeto de restauro e readequação da Sala São Paulo. Site da Sala São Paulo.

** Idem.

*** Fragmento do texto "O projeto arquitetônico", de Nelson Dupré, arquiteto responsável pela obra. Site da Sala São Paulo.

Fotos Sylvia Leite - Matéria Estação Júlio Prestes  - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


Sala São Paulo - Campos Elíseos - São Paulo - São Paulo - Brasil - América do Sul


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:

(1/2)  1 - Márcio de Assis e 2 -Sylvia Leite
(3 e 5) Sturm - CC BY-SA 4.0 - Wikimedia
(4) Júlio Boaro -  Flickr, CC BY-SA 2.0 Wikimedia
(6) Werner Haberkom (domínio público)  Obra que integra o acervo do Museu Paulista da USP. Coleção Werner Haberkorn - CHW
(7 e 8/9/10/11) Sylvia Leite


Consultoria: Carlos Brisolla


Referências:

Site oficial da Sala São Paulo.

Artigo "O projeto Acústico", de José Nepomuceno.

Artigo  "O projeto arquitetônico", de Nelson Dupré.
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    10 comentários:

    1. Excelente trabalho, Sylvia! Parabéns pela brilhante matéria. Obrigado pela oportunidade de conhecer um pouco mais das boas coisas da cidade que me acolheu por quase duas décadas. Obrigado.

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      1. Eu que agradeço pela leitura e pelo comentário. Toda quinta tem matéria nova aqui no blog. Nesses tempos de coronavírus, a periodicidade está um pouco confusa, mas só deixou de sair uma vez, logo no início.

        Para compensar a periodicidade irregular e ajudar os leitores a encontrar o conteúdo do blog enquanto estão de quarentena, todo dia tem link, na página do Facebook, para uma matéria já publicada.

        Acompanhe!

        Abraços!

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    2. Bao Tarde Sylvia deus abencoe seu trabalho

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    3. Excelente matéria, Sylvinha!
      A arquitetura da Júlio Prestes é mesmo fantástica.
      Abraços,
      Val Cantanhede

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    4. A Julio Prestes é fantástica . Excelente escolha Silvinha.

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    5. Muito legal, Sylvinha!!!! Amei!
      sonia pedrosa

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