24/05/2020

Cemitério dos náufragos: a triste memória da Segunda Guerra em Sergipe

Cemitério dos náufragos: a triste memória da Segunda Guerra em Sergipe Quem nasceu até pelo menos a década de 1960, em Aracaju, cresceu sabendo que o litoral de Sergipe foi palco de alguns dos ataques alemães considerados como gota d'água para o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial. Entre 15 e 16 de agosto de 1942, cerca de duas semanas antes de o governo brasileiro declarar guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália  e Japão), três navios foram afundados pelos alemães a poucas milhas da praia de Atalaia, deixando mais de 500 mortos e, no dia seguinte, três ataques semelhantes ocorreram no vizinho litoral da Bahia. Embora
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muitos não saibam, a memória desses acontecimentos está gravada em Aracaju, no Cemitério dos Náufragos - provavelmente o único do Brasil a concentrar vítimas da Segunda Guerra.                                                                                  Hoje, pouco se sabe sobre esses fatos. Historiadores locais atribuem o desconhecimento à pouca relevância que é dada aos episódios da Segunda Gerra na História do Brasil - especialmente em livros didáticos - onde o envolvimento brasileiro na guerra é apenas mencionado genericamente ou descrito como simbólico. Mesmo em Aracaju, as informações são escassas e contraditórias. Alguns registros atribuem a fundação do cemitério ao médico Carlos Moraes de Menezes, que o teria criado à beira-mar especialmente para enterrar as
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vítimas dos bombardeios, mas há quem garanta que o local já existia de forma precária e foi rebatizado depois desses sepultamentos. Apenas uma informação parece unânime: o Cemitério dos Náufragos recebeu apenas as vítimas que não puderam ser identificadas em decorrência das mutilações.   
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Outro fato ajuda a confundir quem busca informações sobre o monumento: o local oficialmente denominado, hoje, Cemitério dos Náufragos foi construído na década de 1980, à margem de uma rodovia homônima, com o propósito de substituir o primeiro. A proposta do deslocamento era desativar o antigo local - que hoje se encontra em uma área residencial e turística na praia de Aruana -, e criar um novo monumento para a memória dos náufragos.  Os túmulos foram transferidos, mas, pelo menos por enquanto, o cemitério original continua a existir, de modo que em alguns mapas constam dois monumentos: o original Cemitério dos Náufragos, localizado na praia de Aruana, e o Cemitério Monumento dos Náufragos, localizado no povoado do Mosqueiro, um distrito de Aracaju.


Cemitério dos náufragos: a triste memória da Segunda Guerra em Sergipe

A gota d'água para a declaração de guerra


Os bombardeios ocorridos nas costas de Sergipe atingiram os navios Baependy, Annibal Benevolo e Araraquara - embarcações civis de transporte de carga e passageiros, que navegavam com luzes acesas sinalizando a neutralidade do Brasil até aquele momento. As duas primeiras pertenciam ao Loyd Brasileiro e, a última, ao Loyd Nacional. Na Bahia, os alemães atacaram os navios Itagiba e o Arerê e o veleiro Jacira. 

Os torpedos partiram do submarino alemão U-507 que havia deixado a França cerca de um mês antes, com destino ao litoral brasileiro. Em seu comando estava o capitão de corveta Harro Schacht que, em 7 de agosto, teria recebido ordens, por rádio, do QG alemão, para bombardear qualquer navio de bandeira brasileira. 
Cemitério dos náufragos: a triste memória da Segunda Guerra em Sergipe

Cemitério dos náufragos: a triste memória da Segunda Guerra em SergipeO primeiro alvo, o vapor Baependi, foi atacado na noite de 15 para 16 de agosto (há controvérsias sobre o horário), em meio à comemoração do aniversário de um tenente da Marinha Mercante. Os sons da festa teriam sido captados pelo sistema de escuta do U- 507, segundo anotações do comandante Schacht, em seu diário de bordo. Um dos sobreviventes, o então terceiro sargento Jorge Tramontin, contou que os passageiros estavam jantando quando foram atingidos pelo primeiro torpedo. Ele afundou, como os outros, mas conseguiu agarrar-se a destroços e depois foi salvo por um barco. Algumas fontes contabilizam 270 mortos e 36 sobreviventes, 28 dos quais no único bote salva-vidas que pôde ser retirado do navio, pois o curto intervalo entre os ataques ( cerca de 2 minutos) teriam impedido o acesso aos outros.

Em seguida foi a vez do Araraquara, que explodiu ao ser atingido pelos torpedos. Segundo as mesmas fontes, o ataque deixou 131 mortos e apenas 11 sobreviventes, que chegaram ao litoral de Sergipe agarrados em destroços.

O bombardeio ao Aníbal Benevolo ocorreu horas depois (não há consenso sobre a data, se dia 16 ou 17). Há quem fale que ocorreu na madrugada enquanto todos dormiam. Conta-se que, segundo um sobrevivente, o navio foi partido em dois e em seguida afundou. Todos os passageiros morreram e apenas quatro tripulantes sobreviveram. O ataque teria deixado 150 mortos.

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Do mesmo modo que não há consenso sobre datas e horários, também há divergência sobre o número de mortos. As informações são ainda mais contraditórias no que se refere à chegada dos corpos e de objetos ao litoral. Ao que tudo indica, assim como acontece em quase toda tragédia, algumas pessoas teriam tirado proveito da situação, roubando dinheiro, jóias e outros objetos de valor encontrados na praia.  

Nos dias seguintes aos bombardeios, Aracaju viveu momentos de intensa comoção. Por um lado, um forte movimento de solidariedade, com famílias abrigando em suas casas sobreviventes de outras cidades, ou estados, que ainda não estavam em condições de viajar, ou parentes de outras vítimas que vinham em busca de informações. Por outro, um clima de revolta que ocasionou protestos e perseguições a estrangeiros acusados, em alguns casos injustamente, de colaborar com os alemães. Os protestos se estenderam a outros estados brasileiros, com depredações de estabelecimentos pertencentes a alemães, italianos, japoneses e seus descendentes, obrigando o governo brasileiro a entrar na guerra. 

Memórias dispersas 

Ao longo de muitos anos, a história dos bombardeios foi repetida aqui e ali por pessoas que, de alguma maneira, vivenciaram a tragédia. Um dos personagens mais populares era Saltro dos Santos - conhecido como Manequito - que se definia como um pescador e tirador de côco, seguindo a profissão dos pais, o que lhe deixou uma marca conhecida por todos: mãos e pés enormes.
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Durante décadas, Manequito teve um bar na praia de Atalaia e era ali que contava suas memórias. Nos primeiros tempos, o lugar vendia apenas cachaça "casca de pau" e era frequentado por pescadores que passavam para "tomar uma chamada" e depois contavam o que tinham visto na praia. Nessa época, Manequito mais ouvia que contava. 

O bar mudou de lugar várias vezes e, em sua última localização - ao lado da atual "Passarela do Caranguejo", começou a atrair estudantes que não podiam pagar para tomar cerveja: "Quem tinha dinheiro bebia, e quem não tinha, bebia do mesmo jeito" ele tinha orgulho de contar. Nessa época, Manequito já havia sofisticado o cardápio. Em vez da cachaça "casca de pau" dos primeiros tempos, passou a servir batidas de frutas regionais, que ele dizia ter aprendido a fazer com os mais velhos.

Era um bar de aparência rústica, com estrutura de madeira barata, esteiras nas
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paredes e sem banheiro. Mesmo assim, entre as décadas de 1970 e 1980 atraiu muito mais que estudantes sem dinheiro. A maioria dos frequentadores da praia - gente de várias gerações - passavam ali em algum momento da noite para dar um trago e alguns deles levavam as batidas para tomar nos bares vizinhos. Os que ficavam - em geral jornalistas, artistas e intelectuais, eram premiados com as narrativas do ex-pescador.

Ele contava, por exemplo, que durante a Segunda Guerra foi guarda costeiro "mandado pela polícia" e ficava noite e dia patrulhando a praia à procura de submarinos. "Se avistasse, informava para a polícia"*. Manequito contava, também, que, na época da tragédia, levou vários corpos para o Cemitério dos Náufragos. Os relatos sobre a guerra eram alternados com outras memórias como, por exemplo, as vezes em que ele chegou a descascar três mil cocos em um só dia. 

Cenas da tragédia eram narradas, também, por José Martins Ribeiro Nunes, conhecido como Zé Peixe, que na época tinha apenas 15 anos, mas lembrou da tragédia pelo resto da vida: "Quando acordei, soube da notícia e fui até lá para ajudar. Era triste ver aquilo. barcos destroçados, gente morta", disse ele**. Zé Peixe, que desde criança foi apaixonado pelo mar, acabou  tornando-se um prático de fama internacional pela maneira como conduzia as embarcações que chegavam e sairam de Sergipe e pelo profundo conhecimento que tinha das correntes marítimas***.  

História de amor
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Além das memórias individuais, contadas aqui e ali, restou uma narrativa de conhecimento público  e que muita gente ouviu e chegou a ser registrada pelo historiador Luiz Antônio Barreto. Foi  um caso de superação e esperança vivido por duas vítimas da tragédia: uma mulher que conseguiu se salvar do naufrágio depois de perder marido e filhos e um homem que perdeu toda a família em um dos navios.

Alaíde Lins Cavalcanti era passageira do navio Araraquara e, embora tenha se salvado, perdeu no naufrágio do Araraquara, o marido - o sub-tenente Antônio Lins Cavalcanti - três filhos e um irmão. Segundo os registros, ela foi salva graças a uma bolha de ar que se formou na baleeira emborcada e conseguiu chegar a uma praia do município de Estância. Levada para Aracaju, recuperou-se e passou a viver temporariamente em um hotel e, em seguida, na casa de Dr. Alfredo Aranha.

Francisco Alves Pereira estava em terra e esperava, na Paraíba, a chegada do mesmo navio onde viajavam sua mulher - Amélia Figueiredo - e seus três filhos. Informado sobre os ataques, viajou a Aracaju com esperança de encontrar a família entre os sobreviventes e foi de Alaíde que recebe a notícia de que todos estavam mortos. Sua primeira atitude foi retornar à casa e, dias depois, quando o presidente Getúlio Vargas declarou guerra aos países do Eixo, Francisco alistou-se como voluntário na Força Expedicionária Brasileira, chegando até o front.

Os dois viúvos encontraram-se novamente em 1945 e casaram-se no primeiro dia do ano seguinte. Em 1950, mudaram-se para Aracaju, onde viveram até morrer, sem deixar descendentes. 


* As citações entre aspas são trechos de entrevista concedida por Manequito ao jornalista Osmário Santos, em 1990, publicada no Jornal da Cidade e em seu livro "Oxente! Essa é a Nossa Gente" e reproduzida pela Infonet.

* O depoimento de Zé Peixe está em diversos textos e não foi possível identificar a quem foi prestado.

Cemitério dos Náufragos e Cemitério Monumento dos Náufragos - Praia de Aruana e Mosqueiro - Aracaju - Sergipe - Brasil - América do Sul


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 


    Fotos: 

    (1) Autor desconhecido 
    (2) Imagem Google Maps
    (3,4 e 11) Fotos Sonia Pedrosa, do Blog Existe um Lugar no Mundo
    (5,6 e 7) Autor desconhecido, Domínio público
    (8) Cartaz de propaganda de guerra
    (9) Foto Osmário Santos
    (10) Foto Arquivo Tv Sergipe


    Referências:

    Documentários:

    Os dois dias que abalaram o Brasil, documentário amador, postado no site da Força Expedicionária Brasileira -FEB


    Artigos e reportagens:

     "O patrimônio arqueológico de Sergipe referente ao período da Segunda Guerra Mundial", de Roberta da Silva Rosa e Gilson Rambelli, da Universidade Federal de Sergipe.

    "Os náufragos: uma história sangrenta no mar de Sergipe", de Luiz Antônio Barreto, publicado em 2012 no site Coisas de Socorro.

    "Manequito: figura carismática da Atalaia", do jornalista Osmário Santos, publicada no Jornal da Cidade e em seu livro "Oxente! Essa é a Nossa Gente" e reproduzida pela Infonet.

    Livro

    "U-507 - O Submarino Que Afundou O Brasil Na Segunda Guerra Mundial", de Marcelo Monteiro, Editora Schoba


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    8 comentários:

    1. Ótimo registro, Sylvinha!!!! Você reuniu todas as informações. Belo trabalho!
      Beijo
      sonia pedrosa

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    2. Excelente Silvinha. Uma pena que livros citem o Brasil na guerra com pouco valor enquanto a Itália ano pôs ano homenageia o Brasil pela sua intervenção.

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      1. Pois é. E esses ataques foram terríveis. Atingiram alvos civis de um país que não estava em guerra.

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    3. Muito interessante sua matéria, Sylvinha! Conhecia apenas alguns detalhes dessa história, contados por moradores dos povoado Areia Branca e Mosqueiro. Seu texto elucida muitos fatos desse episódio que comoveu o povo sergipano.
      Abraços,
      Val Cantanhede

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    4. Muito interessante esse episódio. Eu acredito que conheci uma jornalista que bebia muito naquele bar da praia. Uma vergonha não ter um monumento decente sobre o acontecido.

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      1. Que honra, ter como leitor um jornalista desse calibre (aproveitando a temática, hehehe)! Bom saber que anda espiando por aqui. Bjo

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