02/04/2020

Capadócia: um museu a céu aberto esculpido pelo tempo e pela fé

Foto SylviaLeite - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO céu da Capadócia, na Turquia, costuma estar repleto de balões. Eles são muitos e formam um bailado colorido no céu azul da Anatólia. Além disso, podem proporcionar uma bela vista aérea das chamadas chaminés de fadas – formações geológicas decorrentes de erupções vulcânicas esculpidas pela erosão. Mas o que verdadeiramente impressiona na região, são as próprias rochas, tanto por sua  forma incomum como pelo aproveitamento dado a elas pelos povos que ocuparam a região.


Foto Hans Braxmeier por Pixabay - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAAlgumas dessas formações foram destinadas à moradia e até hoje seguem sendo usadas para esse fim - são as chamadas habitações trogloditas, escavadas na pedra. Em sua estrutura interna, assemelham-se às 'casas cuevas' espanholas -  localizadas principalmente em Guadix*, Granada - e têm como principal característica, uma temperatura estável durante todo o ano, que protege os moradores tanto do frio como do calor.  Parte dessas moradias vem se transformando, nas últimas décadas, em hotéis e pensões, que atualmente onstituem uma atração à parte na Capadócia.

Quase tão rara como a forma das rochas, é a concentração de igrejas cristãs construídas entre os séculos 6 e 9, e decoradas com afrescos, reunidas no Parque Nacional de Göreme. Para completar, a região contém ainda cidades subterrâneas, algumas delas abertas à visitação.


Foto Hans Braxmeier por Pixabay - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAUma geologia única


As formações rochosas que abrigam as moradias, igrejas e até cidades subterrâneas da Capadócia teriam se originado milhões de anos atrás (alguns dizem 10, outros 30 e outros 60), como resultado da erupção de dois vulcões: Erciyes Dag (396 metros), em uma extremidade, e Hasan Dag (3.253metros) na outra. Essa erupção, por sua vez, teria sido provocada pela colisão de duas placas tectônicas: a da Arábia e a da Anatólia.

A causa dessas larvas terem adquirido formas tão peculiares teria sido a combinação de dois tipos de material, com diferentes níveis de resistência, e, por isso mesmo, distintas intensidades de desgaste pela erosão do vento e da chuva. Na parte baixa, junto ao solo, teriam se acumulado as cinzas, que se converteram em um material mole chamado tufa. Na parte alta, por cima das tufas, teria se solidificado uma espécie de rocha dura constituída por basalto.

Foto SylviaLeite - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O refúgio dos cristãos


Acredita-se que a ocupação da Capadócia, especialmente a região conhecida como Göreme e seus arredores, tenha ocorrido pelo menos 7 mil anos antes de Cristo, mas embora haja vestígios concretos dessa ocupação, não se sabe quem eram aqueles povos. A primeira civilização conhecida que habitou o lugar foi a dos hititas, que fixaram ali a capital de seu império cerca de 3 mil anos antes da Era Cristã. Depois vieram assírios, frígios e persas.

Foto SylviaLeite - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAOs cristãos que construíram os monastérios e igrejas eram romanos do Império Bizantino que chegaram à Turquia entre os séculos 6 e 9. Foi no século 7, quando árabes invadiram a região para difundir a religião muçulmana, que esses cristãos escavaram grande parte dos prédios religiosos hoje reunidos no Parque Nacional de Göreme. O nome Göreme, usado inicialmente apenas para denominar aquele ponto específico, retrata bem a situação, pois significa algo como “aqui eles não nos encontram” e, provavelmente por isso, foi escolhido para denominar um povoado, um vale e o Parque Nacional tombado pela Unesco, quando a Turquia decidiu divulgar a região turisticamente. 

Apesar da suposta rusticidade de suas construções, limitadas pelas formas das rochas e pelos recursos da época, muitas igrejas e mosteiros foram ricamente decoradas com afrescos que retratavam cenas do Antigo e do Novo Testamento. As divisões, portas internas e, em alguns casos, até mesmo o mobiliário - como a mesa e os bancos de um refeitório - foram esculpidos na própria pedra. 

Além de construir igrejas e monastérios, os cristãos ocuparam as várias cidades subterrâneas da região cuja origem segue desconhecida. Embora alguns estudiosos acreditem que as escavações foram inciadas na época dos hititas, é possível que ampliações e reformas tenham sido feitas em períodos posteriores, talvez até pelos mesmos construtores das igrejas. 

Foto Ed Yourdon  - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

As impressionantes cidades subterrâneas


Essas cidades eram compostas por elementos como cozinhas, banheiros, escolas, igrejas, estábulos, poços de água, padarias, vinícolas e canais de ventilação. Algumas delas tinham capacidade para abrigar populações inteiras, caso de Derinkuyu - mais profunda e com capacidade para até 20 mil pessoas. Outras, tiveram suas instalações distribuídas em vários níveis, como Kaymakli, que é composta por nove andares.

Foto SylviaLeite - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAHá pelo menos duas hipóteses para justificar a construção das cidades subterrâneas. A primeira diz respeito à proteção das pessoas. Como a Capadócia era uma área  muito visada, por onde passavam várias rotas de comércio, inclusive a famosa Rota da Seda, acredita-se que essas cidades sob a terra podem ter servido de refúgio em períodos de grande ameaça. A favor dessa tese, testemunham as enormes pedras em forma de disco - colocadas nas estreitas
entradas das cidades - que só podiam ser abertas por dentro e serviam para vedar suas portas.

Outra suposição é de que as cidades subterrâneas tenham sido feitas com o fim de armazenar a produção agrícola em locais de temperatura constante, com o fim de protegê-la do calor escaldante do verão e do rigor do inverno.

Não se sabe, ao certo, quantas cidades subterrâneas há na Capadócia, mas fala-se em cerca de 200, embora apenas 36 delas já tenham sido identificadas. 
foto de viagem - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

As lendas da Capadócia 




Esse território encantado, onde rochas são chamadas de chaminés-de-fadas; casas mosteiros e igrejas são escavadas nas pedras e cidades foram construídas embaixo da terra, não poderia deixar de ser povoado por lendas, mas, curiosamente, uma das mais conhecidas aqui no Brasil, pertence mais ao imaginário de outros países, como Itália, Armênia e , do que da própria Turquia. É a lenda de São Jorge**.


Além de ser venerado em países de diversas regiões do mundo, o santo cristão já foi tema de inúmeras obras de arte, sejam imagens sacras, quadros ou mesmo música, como é o caso de Jorge da Capadócia, de Jorge Benjor.


Foto domínio público - Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


A bravura de São Jorge


Na Capadócia, poucos ouviram falar de São Jorge e sua imagem está representada apenas na capela de Santa Catarina, uma das várias que compõem o Parque Nacional de Göreme, mas, segundo registros tanto históricos como míticos, ele teria nascido ali no século 2 da Era Cristã. Foi militar, e cristão convicto. Acabou degolado, a mando do imperador bizantino Diocleciano, por ter se negado a abandonar a fé cristã. 
Embora seja difícil separar os fatos reais das narrativa mítica, esses parecem ser os dados históricos do personagem, que teria nascido na Capadócia e mudado ainda criança para a Palestina. Na parte mítica, predomina a lenda do dragão e da princesa. 

Segundo essa narrativa, ao tonar-se adulto São Jorge fez uma longa viagem por terra e por mar e, ao chegar a Sylén, uma cidade da Líbia, ele foi informado por um eremita que a cidade estava vivendo um enorme sofrimento porque ali havia um dragão que todas as noites exigia o sacrifício de uma jovem. Àquela altura, todas as jovens da cidade já tinham sido mortas e havia chegado a vez da princesa, que seria sacrificada no dia seguinte ou dada em casamento ao príncipe que conseguisse salvá-la. Jorge, então, foi ao vale aonde vivia o dragão e enfiou uma espada em sua garganta.

Como o pai da princesa era muçulmano, não quis que sua filha se casasse com um cristão. Então mandou que levassem Jorge para a Pérsia e o matassem, mas ele se livrou dos guardas e levou a princesa para a Inglaterra, onde foi feliz com ela pelo resto da vida.

Foto Tomasz Kowaluk  por Pixabay- Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMORIA

As chaminés-de-fadas


Foto LaCamila por Pixabay- Matéria Capadócia - BLOG LUGARES DE MEMORIANa Capadócia, as lendas mais conhecidas têm como tema as exóticas rochas vulcânicas denominadas chaminés-de-fadas. Uma delas, explica a origem desse nome. Conta que, antigamente, a região era habitada por gigantes que, quando sentiam raiva dos humanos, enviavam em sua direção lavas dos vulcões e queimavam suas casas, campos e árvores. Até que um dia chegou ao local um padixá - espécie de sultão muçulmano - que convocou as fadas para que buscassem uma solução. Se as fadas conseguissem apagar o fogo dos vulcões, os gigantes não poderiam mais agredir os humanos. As fadas, então, cobriram os topos das montanhas com neve e gelo. Ao perceberem que não havia mais fogo, os gigantes fugiram e as fadas passaram a viver no local, em harmonia com os humanos.

Outra lenda conta a história de uma princesa da Capadócia que se apaixonou por um pastor. Ao saber do romance, o rei mandou matar o pastor e seu pai, mas eles fugiram junto com a princesa. No caminho, foram alcançados pelos soldados reais. No desespero, a princesa rogou aos deuses que em vez de morrer fosse transformada em pedra e é por isso que, na região de Ürgüp, existem três chaminés-de-fadas bem juntinhas e o local é um dos mais visitados por turistas que apreciam as lendas. 


**  A Igreja aceita São Jorge, mas tem reservas em relação a grande parte das histórias que se conta sobre ele.

Göreme - Capadócia - Anatólia Central - Turquia



Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 


    Fotos: 

    (1,4,5,e,7) Sylvia Leite
    (2 e 3) Hans Braxmeier /Pixabay
    (6) Ed Yourdon CC BY-SA 2.0
    (8)  Foto de viagem (autor não identificado)
    (9)  Foto: domínio público. Obra do pintor francês Gustave Moreau
    (10) Tomasz Kowaluk /Pixabay
    (11) LaCamila / Pixabay 

    Referências:

    Site da Unesco

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    6 comentários:

    1. Sylvinha, você conseguiu deixar a Capadócia mais convidativa, com essas lendas. Adorei!
      Beijão,
      sonia pedrosa

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      1. Não é muito difícil, Soninha! O lugar por si só já convida. De qualquer forma, obrigada pelo comentário. Beijo

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    2. Ai que saudades da Turquia. Viagem inesquecível. bj

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    3. Coisa mais linda,fiquei encantada com tudo que nos foi mostrado e muito bem colocado,deu até vontade de viajar rs
      Parabéns!!

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      1. Obrigada pelo comentário. Gostaria muito de saber seu nome. Pena que não se identificou. Todo quinta tem matéria nova no blog e durante a quarentena estamos postando diariamente, no Facebok, links para matérias já publicadas. Acompanhe!

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