26/04/2020

Brasília: a polêmica capital que virou ícone da arquitetura modernista

A ideia de transferir a capital brasileira para o Planalto Central começou a circular entre nós cerca de dois séculos antes da inauguração de Brasília, que acaba de completar 60 anos.  A primeira manifestação teria partido do Marquês de Pombal, por volta de 1750, ganhando força décadas depois em artigos do Jornalista Hipólito José da Costa, publicados no Correio Braziliense. O povoamento daquele área foi pensado, também, pelos Salesianos, depois que seu líder, mais tarde canonizado pelo papa e conhecido como Dom Bosco, teve um sonho profético: na área localizada entre os Andes e o Oceano Atlântico, milhares de habitantes iriam esperar, no futuro, pelo auxílio religioso de sua ordem. Ao ressurgir no século 20, e ser concretizada pelo presidente
Juscelino Kubitschek, a tese da transferência assumiu, ao mesmo tempo, o caráter de profecia e de sonho desenvolvimentista. Somente uma análise mais profunda poderia dizer até que ponto as aspirações de seus adeptos - de Pombal a Juscelino - foram concretizadas, mas uma coisa ninguém pode negar: a capital brasileira tornou-se um referência nas áreas de urbanismo e arquitetura, e acabou ganhando o título de Patrimônio Mundial da Humanidade, concedido pela Unesco, por representar um período significativo da história e um marco do movimento modernista.

Brasília materializou-se em menos de quatro anos, a partir do zero, em uma região desabitada. Esse  mérito teria sido usado como argumento pelo relator do processo de candidatura, Léon Pressouyre, ao defender sua posição favorável - que esbarrava em resistências -, mas o título foi concedido por outra razão: a singularidade do conjunto arquitetônico e urbanístico. Uma das razões da polêmica é que havia, nas orientações da Unesco, uma indicação de que as cidades do século 20 só deveriam ser analisadas depois que todo patrimônio histórico tradicional já estivesse protegido. A nova capital não apenas  era uma obra do século 20, como tinha apenas 27 anos.


Os 200 anos de história  

Embora a concretização física só tenha ocorrido em 1960, a criação de uma nova capital no Centro-Oeste já ocupava o imaginário de muitos brasileiros influentes. No caso do Marquês de Pompal, essa possibilidade teria sido levantada depois que um cartógrafo italiano contratado por ele ressaltou a importância estratégica do planalto central. Já o jornalista Hipólito José da Costa focou em ideais desenvolvimentistas,
chegando a fazer as seguintes recomendações em um de seus artigos: "uma, a introdução de emigrados (estrangeiros) em geral; outra, a edificação de uma cidade no interior, que venha pelo tempo adiante a servir de capital do Brasil"*.

Mas houve outros ao longo da história. A mudança da capital para o interior foi cogitada por movimentos nordestinos e também pelos inconfidentes, que a queriam em Minas Gerais. Com a proclamação da Independência, o conselheiro José Bonifácio de Anrdrada e Silva tentou, sem sucesso, inserir a proposta na nova
Constituição, que seria proclamada em 1824. Passaram-se quase sete décadas até que a Constituição de 1891, votada logo após a proclamação da República, criasse o primeiro marco legal para a transferência.

Em seu artigo 3º, a Constituição Republicana determinava que uma área de 14 mil km no Planalto Central, a ser oportunamente demarcada, passaria a pertencer à União para que nela fosse construída a futura capital do país. Floriano Peixoto chegou a criar duas expedições que além de delimitar a área, especificaram o local onde seria construída a cidade - exatamente onde hoje se encontra Brasília. Mas seu governo acabou e o novo presidente, Prudente de Morais, interrompeu o projeto.

Foi preciso mais um século para que a ideia voltasse a florescer. Desta vez no centenário da Independência, em 1922. O movimento resultou em uma lei que permitiu a colocação da pedra fundamental da nova capital perto de onde hoje está localizada a cidade satélite de Planaltina. Mas  ficou nisso.

Duas novas constituições (de 1934 e de 1948) voltaram a prever a mudança, e foi criada mais uma comissão de estudos técnicos, desta vez pelo presidente Eurico Dutra. A partir daí a ideia tomou impulso e, mesmo com duas mudanças de governo, não saiu mais de pauta. Getúlio Vargas criou uma comissão de planejamento da mudança e seu sucessor, Juscelino Kubitscheck, abraçou a ideia quando ainda estava em campanha. Brasília passou a ser um símbolo da sua política desenvolvimentista que prometia fazer o Brasil crescer 50 anos em apenas cinco.

Os ecos da profecia

Coincidência ou não, o sonho profético de Dom Bosco também fala em florescimento. Um mensageiro, descrito por ele como um jovem de aproximadamente 16 anos, teria anunciado que, antes de ser concluída a segunda geração (entre 60 e 120 anos à frente), iria surgir uma nova civilização em uma terra prometida, de onde emanariam leite e mel.

No sonho, Dom Bosco, que era um sacerdote italiano, foi levado por anjos à América do Sul, passando inicialmente pela Selva Amazônica, Paraguai e Argentina. Ao chegar na região do Planalto Central, ele recebeu a informação de que o lugar profetizado encontrava-se ali, no espaço localizado entre as latitudes 15 e 20, que coincidem com a localização de Brasília.

Quando esse sonho aconteceu, em setembro de 1883, a  irmandade
criada por Dom Bosco estava começando o seu trabalho no Brasil. Os primeiros sacerdotes haviam desembarcado aqui alguns dias antes e, provavelmente, as atenções de seu líder estavam voltadas para o país.

Décadas depois, em 1956, os Salesianos chegaram ao Planalto Central para dar assistência aos candangos, tornando-se, assim, a primeira ordem a ser instalada no Distrito Federal. Já no ano seguinte, muito antes de sua própria inauguração, Brasília ganhou um santuário em forma de pirâmide em homenagem ao santo e em memória de sua profecia.

Dom Bosco foi proclamado padroeiro de Brasília, junto com Nossa Senhora Aparecida. Além da ermida, há também uma igreja, batizada como Santuário Dom Bosco, que levou sete anos para ser construída e foi  inaugurada em 1970. Atualmente, essa igreja abriga a relíquia de Dom Bosco, doada pelos Salesianos por causa de ligação do santo com o lugar.

A esperança depositada em Brasília


Na época da construção e da inauguração da cidade, houve quem acusasse Juscelino de usar politicamente o sonho de Dom Bosco tanto para respaldar a ideia de mudança da capital, que era criticada por muitos políticos, como para motivar os trabalhadores, que precisavam construir uma cidade em tempo record.

Intencionalmente ou não, a inegável afinidade entre os argumentos racionais e a narrativa religiosa - ambos apontando para um futuro melhor, tanto do Brasil como de sua população -, contagiou as pessoas, as autoridades e ao próprio Juscelino, que acabou mesclando os dois aspectos em seus discursos, ainda que, na maioria das vezes, indiretamente.

E se a existência de uma narrativa profética pode ter ajudado no convencimento das massas, era o  ânimo do presidente que garantia importantes adesões, inclusive dos profissionais que desejava atrair para sua equipe. Foi caso do arquiteto Oscar Niemeyer, que projetou os principais prédios públicos da cidade. Ele contou que teve uma má impressão ao desembarcar no local onde seria construída Brasília depois de uma  viagem de três horas, e justificou assim sua mudança de posição: "o entusiasmo de JK era tal, e o objetivo de levar o progresso para o interior tão válido que acabamos, todos, com ele concordando.”** Niemeyer, que era comunista, confessou, ainda, que o clima em Brasília no período de sua construção - com trabalhadores e arquitetos vivendo nas mesmas casas e comendo nos mesmos restaurantes - criava a ilusão de que era possível construir uma sociedade justa e igualitária. 

As razões dos opositores


As críticas à atmosfera mítica e à utopia criadas em torno de Brasília com o propósito de viabilizá-la juntavam-se a argumentos econômicos. Não se sabe precisamente quanto foi gasto na construção da cidade porque não houve estimativa nem registros oficiais, mas segundo cálculos de Eugênio Gudin, ex-ministro de Café Filho e adversário político de JK, o custo da obra pode ter chegado a US$ 1,5 bilhão - o que representava 10% do PIB brasileiro na época. Esse valor atualizado corresponderia, hoje, a US$ 83 bilhões.

Opositores alegavam, ainda, que a instalação dos três poderes em uma cidade afastada dos principais centros urbanos protegeria os políticos das pressões populares e poderia facilitar a corrupção.

Com o tempo, começou a ganhar corpo um questionamento ambiental. Para construir Brasília, foi preciso destruir uma extensa área de cerrado e de outras vegetações nativas que forneceram madeira para as construções. E essa devastação só fez crescer com o desenvolvimento  da região. Um estudo da Unesco*** -  a mesma instituição que deu a Brasília o título de Patrimônio da Humanidade - indica que, entre 1954 e 1998, o Distrito Federal perdeu 57% de sua vegetação original e no ambiente do cerrado a perda chegou a 73%.

O museu a céu aberto de arquitetura e arte modernistas

Brasília começou a se concretizar em um concurso, realizado em 1957, que teve como vencedor o arquiteto e urbanista Lúcio Costa. Entre as razões da escolha estavam a adequação do projeto à geografia do terreno e a objetividade com que apresentava a forma, as dimensões e o posicionamento das edificações - características que permitiriam a sua rápida execução.

Três anos depois, ao final de dois séculos de uma história marcada por idas e vindas, Brasília finalmente mostrou sua cara, e o que apareceu foi algo diferente de tudo que se conhecia em termos de cidade: um traçado inspirado no sinal da cruz , composto por dois eixos: o monumental, que reúne os prédios públicos; e o rodoviário, ao longo do qual estão dispostas duas asas destinadas à população.  A todo esse conjunto, deu-se o nome de Plano Piloto.

Para facilitar o trânsito, foram eliminados os cruzamentos e nasceu uma cidade aparentemente 'sem esquinas', capaz de causar estranhamento em quem ainda não se acostumou com sua dinâmica. Dentro das asas, uma divisão inusitada. Em vez de ruas, há quadras, formadas por prédios de aparência semelhante e simetricamente dispostos.

Essa concepção arquitetônica, de formas simples e austeras, seguia a linha do arquiteto e urbanista franco-suiço Le Corbusier. Há quem diga, inclusive, que para projetar Brasília,  Lúcio Costa teria se inspirado no prédio da UFRJ, de sua autoria, que tem também um eixo monumental. Os dois trabalharam juntos, em 1936, na construção do prédio do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro: um como consultor e o outro como responsável pela obra.

Em contraponto à simplicidade das quadras, os edifícios públicos ficaram por conta de Oscar Niemeyer, o arquiteto que se tornou conhecido como um 'escultor de monumentos' por explorar as possibilidades construtivas do concreto armado sempre privilegiando a forma. Niemeyer trabalhou em sintonia com Lúcio Costa, cuidando para que cada elemento arquitetônico estivesse em harmonia com o desenho do Plano Piloto e deu a Brasília mais de vinte monumentos entre os quais se destacam a Cadetral, o Congresso Nacional e os palácios da Alvorada, da Justiça, do Planalto, do Itamaraty e do Jaburu.

As curvas de Niemeyer suavizaram às linhas retas dos edifícios e do próprio traçado das superquadras, mas foi Burle Marx quem fez a cidade respirar com seus projetos de paisagismo no Eixo Monumental, nos palácios do Itamaraty e da Justiça, no Teatro Nacional e no Tribunal de Contas da União. Os jardins, aliás, estavam entre os cinco pontos básicos da arquitetura modernista de Le Corbusier, o possível influenciador de todo o projeto.

O colorido ficou por conta dos painéis de Athos Bulcão**** e a cereja do bolo coube aos escultores, com obras como "Os guerreiros" - mais conhecida como "Os candangos" -, de Bruni Giorgi, "A Justiça", de Alfredo Ceschiatti e "O pássaro", de Mariane Peretti, entre tantas outras.


* Do artigo "Programa para o desenvolvimento do Brasil", de Hipólito José da Costa, publicado originalmente no Correio Braziliense vol. XVI, p. 623-631, ano: 1816.

** Oscar Niemeyer, citado por Ana Virgínia Queiroz em Brasília: utopia e construção do  mito.

*** Vegetação no Distrito Federal , pág 7.

**** Leia matéria sobre Athos Bulcão aqui no blog.

Brasília - Distrito Federal - Brasil - América do Sul


Texto: Sylvia Leite 

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Participação especial: Marlene Miranda 

Fotos: 



(1) Webysther, CC BY-SA 4.0
(2) 272447 / Pixabay 
(3) Nevinho, CC BY-SA 3.0
(4) Autor desconhecido - Arquivo Nacional
(5) אורי ר., CC BY-SA 3.0
(6) Domínio público - obra de pintor religioso desconhecido
(7 e 8 ) Sylvia Leite
(9) Arquivo Nacional Domínio Público 
(10) Desconhecido Arquivo Público do Distrito Federal, CC BY 3.0
(11) Reprodução Arquivo Público , CC BY 3.0 br
(12) Axelspace Corporation, CC BY-SA 4.0
(13) Foto Senado Federal
(14) elton_sales por Pixabay 
(15) José Cruz/Agência Brasil 


Referências:

Sites:

Salesianos

Livro:

A Vegetação no Distrito Federal, tempo e espaço; uma avaliação multitemporal da perda de cobertura vegetal no DF e da diversidade florística da Reserva da Biosfera do Cerrado - Unesco.

Artigos:

"Brasília, uma cidade que não faríamos de novo", de Anthony Ling, no site de arquitetura Caos Planejado.

"Brasília: utopia e construção do  mito", de Ana Virgínia Queiroz


Outros textos:

Folheto distribuído pelos Salesianos na inauguração de Brasília.

Filme:

O corpo e a cidade modernista, de Pedro Rodolpho.


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