05/03/2020

Os painéis de Jenner Augusto: traços modernistas nos prédios de Aracaju

Foto  Sylvia Leite - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Quem vai a Aracaju, no estado de Sergipe, costuma colocar no roteiro o Mercado Thales Ferraz, o Museu da Gente Sergipana e os passeios à beira-mar ou à beira-rio. Nada mais justo, se nessa lista não estivesse faltando uma jornada pelos painéis de Jenner Augusto - artista sergipano que integrou a segunda geração dos pintores modernistas brasileiros.

Foto  Sylvia Leite - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Os painéis estão em pontos muito conhecidos ou de grande circulação de pessoas como a Praça Fausto Cardoso, que já abrigou o Palácio do Governo, ou o Cacique Chá - restaurante histórico, hoje administrado pelo Senac. Embora ninguém pare para olhar, e a maioria sequer se dê conta de que está diante de obras de arte, elas fazem parte da memória visual da cidade.

Jenner Augusto: Arte no Calçadão


É impossível, por exemplo, um morador de Aracaju não lembrar do painel de azulejos que decora a fachada do Edifício Walter Franco, localizado na esquina da tradicional praça Fausto Cardoso - que já abrigou o Palácio do Governo - com o calçadão da João Pessoa, a principal rua comercial do Centro da cidade.

O edifício foi construído em 1956 para abrigar repartições do governo e ficou conhecido como o Palácio das Secretarias. O painel aborda temas econômicos, com elementos representativos da pesca e da produção agrícola, incluindo-se aí o caju, que é um dos símbolos da cidade. A pintura foi feita sobre cerâmica do artista alemão Udo Knoff, que também assina o trabalho.
Foto  Sylvia Leite - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Do Hotel Pálace ao Teatro Atheneu



Difícil também esquecer as imagens que ocupam uma parede inteira o hall do Teatro Atheneu - tradicional casa de espetáculos que concentra grande parte das apresentações musicais, de dança e de artes cênicas, por ser até hoje um dos poucos da cidade.

Foto  Sylvia Leite - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA O painel retrata cenas cotidianas da sociedade escravagista e foi pintado em 1962 para o Hotel Pálace de Aracaju - considerado, na época, um marco da hotelaria moderna na cidade. Com o fechamento do hotel, em 2004, o painel foi transferido para o teatro.

Os painéis do Cacique Chá 

Mas talvez o trabalho mais marcante da obra de Jenner Augusto esteja no conjunto do Cacique chá, não apenas por ser seu primeiro mural, mas também pelo tamanho da obra, que reúne nove painéis, e, principalmente, pelo tema da pintura
de entrada. São índios sob o comando do cacique Serigy - personagem histórico que lutou, durante décadas, contra a ocupação portuquesa na região.

Soma-se a isso a importância histórica do espaço. O Cacique Chá foi criado em 1950 e, ao longo dos anos, cumpriu as funções de restaurante e casa noturna, onde eram realizados bailes e shows. Na década de 1980, o local virou ponto de encontro dos intelectuais, que se reuniam no fim da tarde para beber e conversar. 
Depois de anos fechado, e em estado de abandono, o local foi restaurado e reaberto em 2014, como restaurante-escola do Senac.  Na área interna, foi instalado o Memorial Jenner Augusto, com fotos, documentos e recortes de jornais sobre o pintor*.

Fotos  Sylvia Leite - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 3Um pouco retirado, e de acesso mais difícil, é o painel intitulado  "Os primeiros habitantes de Sergipe", também de temática indígena. A obra foi colocada originalmente no aeroporto de Aracaju, mas, em uma das reformas, o governo decidiu transferi-la para a Energipe, que posteriormente foi privatizada e mudou de nome. Embora esteja na parede externa da empresa, só é possível admirá-la através das grades, ou atravessando os portões.

Mais distante ainda, é o painel da Universidade Federal de Sergipe (UFS), localizado no campus de São Cristóvão, a cerca de 20 km de Aracaju. Pintado em 1980, o painel faz uma espécie de 'colagem' de temas que representam o grande leque de saberes reunido em uma universidade: esportes, medicina, folclore, entre outros. 

Divulgação UFS - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAApenas um dos seis trabalhos de Jenner em Aracaju tem o acesso restrito. Trata-se de um painel pintado em 1962, localizado no auditório do aeroporto, que só é aberto ao público em situações específicas.


O artista e sua obra 


Grande parte da carreira de Jenner Augusto desenvolveu-se em Salvador, ao lado de artistas como Mário Cravo Júnior, de quem foi assistente, Lygia Sampaio e Rubem Valentim. Com esses últimos, participou da polêmica mostra Novos Artistas Baianos, realizada no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. Conviveu também com Caribé, Poty e foi grande amigo de Jorge Amado, que acabou influenciando sua obra.

Reprodução autor desconhecido - Enciclopédia Itaú Cultural - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 3Na Bahia, Jenner dedicou-se mais à produção de quadros e ficou conhecido especialmente por uma extensa série que retrata a favela de palafitas conhecida como Alagados - localizada no subúrbio ferroviário de Salvador. Mas um painel intitulado "A evolução do homem", encomendado pelo Centro Educacional Carneiro Ribeiro, atual Escola Parque, também teve grande repercussão. Em parte pela fama da própria instituição, comandada pelo educador Anísio Teixeira, que ganhou projeção nacional por difundir os princípios da Escola Nova - movimento europeu que enfatizava o desenvolvimento do intelecto e da capacidade de julgamento.

Jenner foi também ilustrador de um livro de Jorge Amado: o romance "Tenda dos Milagres". A experiência nessa área vinha de longe. Seus primeiros trabalhos no município sergipano de Lagarto, onde nasceu e viveu seus primeiros anos, foi ilustrando cartazes para o cinema local.

Foto autor desconhecido - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 3 O encontro com o modernismo  


O começo, no interior de Sergipe, foi dentro dos padrões convencionais, mas segundo ele próprio contou em entrevista ao escritor Guido Guerra, era seu desejo "romper com os cânones da época, o ranço acadêmico que havia na pintura de Sergipe" e o caminho para isso se abriu no contato com os modernistas, tanto da Bahia como do Rio de Janeiro e de São Paulo. 


Primeiro veio a temática: "parti de coisas populares, das festas, dos costumes de Sergipe até que comecei a fazer uma abordagem sobre temas históricos", disse na mesma entrevista. Mas houve também uma mudança de traços. Nos painéis do Cacique Chá, feitos na década de 1950, já era visível a influência de Portinari, que, assim como Pancetti,  não só conheceu e admirou seu trabalho como o indicou para colecionadores.  


Foto Casa Cor Divulgação - Matéria Jenner Augusto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Sinais de reconhecimento


Ao longo das últimas décadas, alguns livros foram escritos sobre o trabalho de Jenner Augusto e seu nome foi imortalizado em prédios e instituições. Em Aracaju, além do memorial do Cacique Chá  Jenner Augusto deu nome a uma galeria, criada pelo centro cultural Sociedade Semear.

Alguns painéis do artista foram restaurados, tanto em Aracaju como em Salvador, entre eles  "A evolução do homem", do Centro Educacional Carneiro Ribeiro, e "A Ferrovia", feito sob encomenda para a Estação Ferroviária de Feira de Santana. A obra, que estava sumida desde a década de 1970,  foi encontrada em um galpão da Rede Ferroviária Federal, em Salvador, pelo diretor da Casacor Bahia, Carlos Amorim.

Jenner não viveu para assistir todas essas coisas. Morreu em 2003, aos 78 anos, e, mesmo depois de tudo, muita gente ainda não o conhece, nem sabe que, de vez em quando, passa diante de uma obra sua.

* O prédio está passando por reformas e o acervo do memorial está temporariamente exposto no Museu Olímpio Campos, na Praça Fausto Cardoso, a cerca de cem metros do Cacique Chá.


Painéis de Jenner Augusto - Aracaju e São Cristóvão - Sergipe - Brasil - América do Sul



Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 

( 1, 2 3,4, 6/7) Sylvia Leite
(5) Divulgação Senac
(8) Divulgação UFS
(9) Reprodução autor desconhecido /Enciclopédia Itaú Cultural
(10) Autor desconhecido
(11) Casacor Bahia 


Pauta: inspirada em matéria de Silvio Oliveira, do blog "Tô no Mundo". (BlogFacebook)

Participação especial: Ruth Oliveira


Referências:

Enciclopédia Itaú Cultural 

Livros:

Jenner (com reproduções da obra desde os primeiros trabalhos), Imprensa Oficial da Bahia.

Jenner: A Arte Moderna da Bahia, de Roberto Pontual, Editora Civilização Brasileira.

Jenner Augusto: Cores de uma  Vida, de Mário Britto e Zeca Fernandes.

Os Alagados de Jenner, (texto de Adonias Filho), Ranulpho Editora de Arte.


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16 comentários:

  1. Fantástico! 👏👏👏👏👏👏👏👏

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  2. Gostei muito da reportagem Silvia! Parabéns o blog está espetacular!

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  3. Sempre passa em frente ao painel do calçadão da João Pessoa com a praça e não sabia do valor de tamanha obra. Agora olharem com mais detalhes e atenção.

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    1. Olhe sim. Não vai se arrepender! E da próxima vez que comentar, diga seu nome. É tão bom saber quem é o autor ou a autora do comentário...

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  4. Sylvinha, belo registro! Parabéns!
    bejio
    sonia pedrosa

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  5. Já fui em Aracaju várias vezes e não sabia sobre este artista.Obrigada por compartilhar.

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    1. Pois é. Não há divulgação. Da próxima vez deixe o seu nome,ok? Só para eu saber com quem estou falando. Abs rsrs

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  6. Eh, eh Silvinha. O do Aeroporto eu podia ver sempre. Muito bom.

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  7. Silvinha tive a oportunidade de passar 2 dias conversando com Jenner quando a instalação do Painel da UFS. O Campus, ainda, não tinha sido inaugurado e ficamos conversando, eu, ele é sua esposa, enquanto ele supervisionava a instalação do Painel. Bom lembrar desse encontro. É uma justa homenagem. Parabéns

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    1. Que privilégio, Neilton. Obrigada por compartilhar sua experiência.

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