12/03/2020

La Chascona, La Sebastiana e Isla Negra: as casas encantadas do poeta maior do Chile

Foto Sylvia Leite - Matéria Casas de Neruda - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAAs palavras de Pablo Neruda alcançaram o mundo inteiro, traduzidas para os mais diversos idiomas, mas, no Chile - onde nasceu -, sua poesia foi além: extrapolou o universo literário e, mesmo sem abrir mão da  arquitetura das palavras, materializou-se também na arquitetura das casas em que viveu. Das seis ou sete construções habitadas ou construídas pelo escritor, três sobreviveram e hoje revelam a milhares de visitantes a alma de um artista que cultivava as amizades, valorizava os detalhes, era apaixonado pelo mar e gostava de ser chamado de capitão.

Não é à toa que duas dessas três casas foram erguidas no litoral e, mesmo La Chascona, que está
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localizada ao pé do Cerro San Cristóbal, em Santiago, tem uma sala de jantar em forma de navio. Mais que isso: há água corrente no terreno e esta foi a causa de sua aquisição, como lembra em suas memórias Matilde Urrutia - a terceira mulher, e grande amor de Neruda, com quem o poeta permaneceu até o fim da vida: "Estávamos enfeitiçados por um ruído de água, era uma verdadeira catarata que vinha pelo canal, no alto do terreno"**

La Chascona : a casa símbolo de Neruda

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Foto Sylvia Leite - Matéria Casas de Neruda - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA casa de Santiago não foi a primeira nem a última. Também não era a preferida de Neruda. Mas marcou a história do poeta tanto no aspecto pessoal como no político.

Quando Pablo e Matilde escolheram o terreno para sua construção, em 1953, eles viviam uma relação proibida. Na época, o poeta ainda não havia desfeito seu casamento com a pintora argentina Delia del Carril. Inicialmente, a casa foi habitada apenas por Matilde e tornou-se o abrigo romântico do casal. Somente depois da separação de Délia, cerca de dois anos depois, é que Neruda mudou-se para lá.

La Chascona foi batizada assim em homenagem a Matilde. Signifca "a despenteada" - apelido carinhoso recebido do amante, em alusão a sua "abundante cabeleira ruiva". As marcas dessa relação permanecem em pelo menos dois detalhes da casa. As grades forjadas com as iniciais de Pablo e Matilde, e o quadro pintado por Diego Rivera que esconde um perfil do poeta nos cachos da amante.

A rebeldia do casal aparece na própria arquitetura. Contrariamente ao molde convencional, La Chascona é dividida em três  partes: primeiro veio um quarto e a sala de
estar. Depois a cozinha e a sala de refeições. Por último chegaram o bar e a biblioteca. As três partes foram construídas de forma independente e com características próprias - tiveram até arquitetos distintos. Eram unidas apenas pelos jardins e pela poesia arquitetônica de Neruda, que pivilegiava os espaços íntimos e, como ressaltou Carlos Martner, um dos arquitetos da casa,  "condicionava o espaço ao objeto, o todo à parte", sendo capaz de encomendar a criação de um espaço para abrigar uma cadeira, um quadro ou uma porta previamente escolhidos.
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Embora tenha sido erguida praticamente em segredo, a casa do Cerro San Cristóbal foi frequentada, desde o início, pelos amigos mais íntimos, com quem Neruda compartilhava tanto interesses estéticos como políticos. Mas foi com a sua morte, em 1973, que La Chascona passou a ter um peso histórico maior.

Foto Sylvia Leite - Matéria Casas de Neruda - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAEmbora o escritor tenha vivido seus últimos dias em Isla Negra, Matilde fez questão de velar o corpo do marido em La Chascona, não apenas por estar na capital do país, mas com o fim chamar a atenção do mundo para o estado de destruição em que se encontrava - alagada, com vidros quebrados e livros queimados. A casa tinha sido vítima de vandalismo, logo após o golpe de estado que, dias antes, derrubou o presidente Salvador Allende.


Neruda era comunista e tinha ligações políticas com o presidente deposto. Foi embaixador do Chile na França durante seu governo e, na campanha presidencial de 1970, retirou a própria candidatura  a fim de direcionar os votos da esquerda e garantir a vitória de Allende pelo Partido Socialista. Mas sua carreira política já vinha de longe. Em 1945, tinha sido eleito senador pelo Partido Comunista, e, seis anos antes, havia articulado, junto ao governo chileno de Pedro Aguirre Cerda, o salvamento de 2.200 espanhóis.  Eles haviam fugido do próprio país depois da vitória de Franco na Guerra Civil Epanhola, e viviam precariamente em campos de refugiados na França.

Foto Sylvia Leite - Matéria Casas de Neruda - BLOG LUGARES DE MEMÓRIANo texto "Winnipeg e otros poemas", do livro "Para nacer he nacido", Neruda revelou que considerava essa ação uma espécie de poema, talvez o mais importante que já tinha feito até aquele momento: Que a crítica apague toda a minha poesia, se achar por bem. Mas este poema, que hoje recordo, ninguém poderá apagar”.*** 

Painéis comemorativos pelos 80 anos desse episódio foram feitos em 2019 e colocados em La Chascona e em La Sebastiana para a interação dos visitantes.

La Sebastiana

Foto Sylvia Leite - Matéria Casas de Neruda - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAEm 1959, cansado de Santiago, Neruda começou a procurar uma casa em Valparaíso para "escrever e viver com tranquilidade". Gostava da cidade não apenas por estar no litoral, mas também por ter sido lá que o Winnipeg ancorou com seus 2.200 protegidos.

Quem encontrou o lugar foram duas amigas - Sara Vial e Marie Martner -encarregadas por ele de executar uma missão quase impossível: descobrir uma casa nem muito grande nem muito pequena; isolada e independente, mas perto do movimento e do comércio: nem muito em cima, nem muito embaixo (a cidade é coberta de morros); que parecesse voar, mas estivesse firme no chão; com vizinhos que não fossem vistos nem escutados. E, além de tudo isso, tinha que ser barata.

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Por incrível que pareça, as duas amigas conseguiram satisfazer quase todas as exigências do poeta. A única falha foi em relação ao tamanho. A casa encontrada era muito grande, mas uma delas - a escultora Marie Martner - resolveu o problema, adquirindo, junto com seu marido - Francisco Velasco - metade do imóvel. O casal ficou com o o subsolo, o pátio e os dois primeiros andares e Neruda com os dois andares de cima. 

A construção da casa tinha sido iniciada pelo espanhol Sebastián Collado, que morreu antes de concluí-la, deixando aquela obra estranha abandonada por quase uma década. Ao comprá-la, Neruda e Marie Martner tiveram que conclui-la, o que levou quase três anos.

A casa recebeu o nome de seu primeiro construtor e, para a festa de inauguração, Neruda escreveu o poema "La Sebastiana", publicado no livro "Plenos poderes": 
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" Eu estabeleci a casa, 
a fiz primeiro de ar.
Em seguida subi no ar a bandeira
e a deixei pendurada
no firmamento, na estrela, 
na claridade e a escuridão"****

Dos andares envidraçados que lhe couberam na divisão da casa, Neruda costumava assistir à queima de fogos nas passagens de ano. E foi assim na virada de 1972 para 1973, o seu último reveillon. Depois da deposição de Allende, a casa foi saqueada por partidários do novo governo e o poeta não voltou mais lá.

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Isla Negra


Foto Sylvia Leite - Matéria Casas de Neruda - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA última casa a abrigar Pablo Neruda foi, cuiosamente, a primeira a ser construída, ou melhor, ampliada. Comprada em 1938, de um marinheiro espanhol, casa de Isla Negra era inicialmente uma cabana de pedra. Depois, como escreveu o próprio Neruda, "a casa foi cresendo, como as pessoas, como as árvores". Nela Neruda passou seus últimos dias, antes de internar-se em um hospital de Santiago, onde teve uma morte rodeada de incertezas e de suspeitas.
Das três casas, Isla Negra talvez seja a que guardou mais memórias da infância, da família, e de Temuco - a cidade onde o poeta foi criado a partir de dois anos de idade.  Logo na entrada,  há uma locomotiva,  em homenagem ao pai ferroviário.

O escritório ganhou teto de zinco para que o poeta pudesse ouvir o barulho da chuva, e resgatar a sensação que tinha na casa onde viveu quando era criança. Outro ambiente conectado com sua infância é sala do cavalo, que guarda ma história digna de ser contada.

Em Temuco, para onde se mudou aos dois anos,
Neruda costumava visitar uma loja que vendia artigos de couro. Ia ali apenas para observar um cavalo
de madeira em tamanho natural que ficava na entrada, e sempre dizia ao dono da loja que um dia compraria aquele cavalo.

Décadas depois, a loja pegou fogo e o dono resolveu leiloar o que sobrou.O cavalo estava lá, faltando apenas o rabo, e Neruda resolveu cumprir a promessa da infância.

E foi para imitar as torres de Temuco que, tempos depois da inauguração da casa, ele mandou cobrir sua torre, erguida durante a ampliação da casa pelo arquiteto catalão Germán Rodríguez Arias, que a havia projetado dentro dos moldes da arquitetura mediterrânea.  

Foto Sylvia Leite - Matéria Casas de Neruda - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAIsla Negra talvez seja a maior e mais completa das três casas de Neruda. Seu nome foi inventado pelo escritor e, com o tempo, passou a denominar também o lugar onde está localizada - uma aldeia de pescadores conhecida originariamente como las Gaviotas (ou As Gaivotas).  

Foto Sylvia Leite - Matéria Casas de Neruda - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAQuando comprou a casa, ele tinha acabado de passar uma temporada fora do Chile, trabalhando como embaixador, e fez questão de registrar essa experiência no hall que antecede a porta principal: "Regressei de minhas viagens / Naveguei construindo a alegria".

Foi na casa de Ilha Negra que Neruda escreveu sua principal obra, "Canto geral". E, nela, incluiu um poema, que chamou de "Disposiciones", onde faz o seguinte pedido:

"Companheiros, enterrem-se em isla Negra
em frente ao mar do qual conheço cada área rugosa de pedras
e ondas que meus olhos perdidos
não voltarão a ver".

O desejo de Neruda só foi atendido em dezembro de 1992, quando seus restos mortais foram transferidos para lá, junto com os de Matilde, em uma cerimônia que reuniu amigos e autoridades.

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* As expressões "arquitetura das palavras e arquitetura das casas" são emprestadas do livro Casas de Neruda, de Bernardo Reyes.

** “Estábamos como embrujados por un ruido de agua – escribió Matilde en sus memorias -, era una verdadera catarata la que se venía por el canal, en la cumbre del sitio.” (Matilde Urrutia - trecho do livro de memórias citado no site da Fundação Pabro Neruda).

*** Que la crítica borre toda mi poesía, si le parece. Pero este poema, que hoy recuerdo, no podrá borrarlo nadie”

****“Yo establecí la casa. / La hice primero de aire. / Luego subí en el aire la bandera / y la dejé colgada/ del firmamento, de la estrella, de / la claridad y de la oscuridad…”

***** “fue creciendo, como la gente, como los árboles…”

****** “Compañeros, enterradme en Isla Negra, / frente al mar que conozco, a cada área rugosa de piedras/ y de olas que mis ojos perdidos/ no volverán a ver…”

La Chascona - Santiago / La Sebastiana - Valparaíso /  Isla Negra -  El Quisco -Chile - América do Sul


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: Sylvia Leite

Participação especial: Mônica Guimarães


Referências:

Fundação Neruda https://fundacionneruda.org/biografia/

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8 comentários:

  1. Sylvinha, texto lindo... adorei saber dessas casas, cada uma mais romântica que a outra... amei!
    beijo
    sonia pedrosa

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  2. Que delícia de artigo, Sylvinha! Desconhecia alguns dos detalhes da vida do grande poeta que seu texto revela.
    Abraços,
    Val Cantanhede

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  3. Parabéns pelo maravilhoso trabalho!Fiquei encantada! Não consegui parar de ver e ler!

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    1. Obrigada, Helena. Toda quinta tem matéria nova no blog. Acompanhe!

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  4. É preciso ter alegria em ver o que há de mais belo em nossas viagens. Nos dizeres do próprio Pablo Neruda: "Regressei de minhas viagens / Naveguei construindo a alegria." Viajar é cultura.

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    1. Sim, Osny, viajar é cultura e traz alegria. Volte sempre. Toda semana tem postagem nova aqui no blog e todo dia, pelo menos durante o isolamento social, tem link no Facebook para matérias postadas anteriormente. Abraço!

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