02/01/2020

Museu do amanhã: um lugar de memória que guarda o futuro

Foto Sylvia Leite - Matéria Museu do Amanhã -BLOG LUGARES DE MEMÓRIAFoto Sylvia Leite - Matéria Museu do Amanhã -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Houve época em que a palavra museu estava inteiramente associada à ideia de passado pelo fato desse tipo de instituição ter se originado no hábito de colecionar, que evoluiu para a preservação de objetos com finalidade cultural. O conceito foi se transformando ao longo do tempo e, apesar de não ter perdido as características originais, hoje agrega muitas outras facetas - como preocupações educacionais, de interação com a comunidade e de inclusão social - que o enriquecem e tornam vivo. Mesmo com todas essas mudanças, ainda se pode considerar 'diferente', ou até visionário, um museu de ciências (ou seria de filosofia?) que está voltado prioritariamente para o futuro, como é o caso do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

O futuro parece já estar impresso de maneira bem definida na arquitetura do espanhol Santiago Calatrava, inspirada nas bromélias do Jardim Botânico; na decoração interna, ferita quase toda com equipamentos de imagem, e no próprio nome, mas sua consolidação no acervo do museu permanece em construção contínua e dinâmica. 

A proposta dos idealizadores é refletir sobre as transformações do período geológico em que vivemos, o Antropoceno - marcado pela possibilidade do homem de gerar impactos na natureza - a partir de dados fornecidos por instituições de pesquisa e pelo acompanhamento dos sinais vitais do planeta no Brasil e no mundo.


Museu do Amanhã: uma ponte entre o passado e o futuro


Foto Sylvia Leite - Matéria Museu do Amanhã -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

A preocupação central do museu, isso já deve estar claro, é com a sustentabilidade, e seu principal objetivo é provocar questionamentos internos acerca de nossas ações e sua repercussão no futuro da terra. A abordagem do tema é feita por meio de perguntas filosóficas clássicas: De onde viemos? Quem somos? Onde estamos? Para onde vamos? Como queremos ir?

Para responder cada uma delas, o museu recorre não apenas a informações, mas também a simbolismos tradicionais e literários. Exemplo disso é a divulgação de uma frase do escritor Jorge Luis Borges - publicada em seu livro de viagens "Atlas"* - que demonstra a repercussão de pequenas ações humanas no meio ambiente: “... peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara...".

O simbolismo tradicional vem especialmente por meio da Churinga, uma ferramenta ritual dos aborígenes australianos que foi escolhida para representar o museu e por isso ganhou uma sala especial onde reina dentro de uma oca estilizada. “O museu do Amanhã pretende ser uma churinga do século 21" diz a legenda explicativa do monumento. A função desse objeto entre os nativos da Austrália é "costurar o tempo, conectando passado e futuro" ao registrar, no presente, a história dos ancestrais e, com isso, interferir na construção dos futuros possíveis. 

Na Churinga, o passado é registrado por meio de inscrições geralmente feitas em pedra e madeira. No Museu do Amanhã, nossa história ancestral é apresentada em telas, grande e pequena, horizontal e vertical, alimentada por imagens e sons -  alguns produzidos com esse fim, outros gerados por instituições de pesquisa como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), ou o MIT (Massachusetts Institute of Techonology).  
Foto Sylvia Leite - Matéria Museu do Amanhã -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


Um museu para sentir, pensar e interagir



Foto Sylvia Leite - Matéria Museu do Amanhã -BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA interatividade talvez seja a principal característica do museu, que chega a oferecer aos interessados a possibilidade de simular a repercussão futura de seus hábitos atuais. Isso é feito de forma lúdica, por meio de jogos como o da  Pegada Ecológicaque informa quantos planetas precisariam existir no futuro caso todas as pessoas do mundo consumissem do mesmo jeito que você consome. E a experiência não se resume a analisar hábitos atuais. No Jogo das Civilizações, o visitante é convidado a solucionar questões urbanas, climáticas ou de biodiversidade a partir de uma gestão sustentável dos recursos naturais, e sentir na própria pele as dificuldades que enfrentaremos se não construirmos um futuro sustentável. 

Igualmente impressionante, apesar de não conter interatividade, é a instalação "Os quatro oceanos". Composta por quatro lençóis que se relacionam harmonicamente. A ideia é fazer o visitante pensar sobre o fato de que tudo está interligado, em constante movimento, e qualquer interferência em um ponto pode provocar alterações em todos os outros.

Quem resolve seguir a ordem de visitação (recomendável) tem uma experiência ainda mais sensorial pois penetra paulatinamente nas questões apresentadas pelo museu, alcançando uma verdadeira imersão. O caminho começa com a apresentação dos COSMOS, onde o visitante viaja para galáxias distantes e conhece inúmeras formas de vida, depois passa para a TERRA, aonde enormes cubos compostos por telas  apresentam as três dimensões do planeta: Matéria, Vida e Pensamento. 

É na etapa do ANTROPOCENO que o visitante entra em contato com o próprio poder de destruição ou de construção do futuro, a depender de suas ações no presente para, em seguida, avançar até o pavilhão dos AMANHÃS e ficar frente a frente com essa responsabilidade, por meio de jogos e simulações. 

Foto Sylvia Leite - Matéria Museu do Amanhã -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Somente depois dessa "chacoalhada" promovida por imagens, sons e interações é que o visitante chega à Churinga - única peça museuólogica do lugar e único elemento do último pavilhão, batizado como NÒS. Além de simbolizar a ponte na qual o Museu Amanhã pretende transformar-se para unir passado e futuro, esse objeto sagrado aos aborígenes australianos representa também a nossa ponte com a natureza e com as sociedades que se encontram mais próximas da origem. 



A sustentabilidade depende de tudo



Quando se fala em questões climáticas, Pegada Ecológica e outros temas relacionados ao meio ambiente pode ficar a impressão de que, mesmo envolvendo elementos literários e simbólicos, o Museu do Amanhã lida apenas com dados estritamente geográficos. Mas seus registros abrangem um leque muito maior e essa amplitude está presente tanto na exposição permanente - em que é possível informar-se, por exemplo, sobre o DNA dos seres vivos, ou até mesmo sobre a história da escrita -, como nas mostras temporárias, que exploram temas como a capacidade do inventor brasileiro, traduzida pela exposição "O poeta voador, Santos Dumont". Nessa exposição, os visitantes puderam informar-se sobre o funcionamento das aeronaves, conhecer de conceitos de aerodinâmica e de mecânica de motores, tudo de forma lúdica, por meio de jogos e simulações.  
Foto Sylvia Leite - Matéria Museu do Amanhã -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Quem propõe tem que dar o exemplo


Para ter credibilidade nessa jornada de conhecimento, reflexão e mudança de atitude, o Museu do Amanhã precisa ser o primeiro a utilizar racionalmente os recursos naturais e isso está inscrito no projeto do prédio. A climatização dos ambientes do museu é feita com água da Bahia de Guanabara que, por sua vez, é reutilizada no espelho d'água. Já a energia é obtida por meio de estruturas metálicas que se deslocam como asas de acordo com a posição do sol, permitindo tanto a captação da energia solar para utilizações diversas como a iluminação direta. 

O museu dá o exemplo também na questão da acessibilidade, seja em relação a deslocamento, com rampas e cadeiras de rodas, seja em relação à comunicação, com a utilização de linguagens como braile e libras. Ainda assim, há quem cobre a ação do museu em relação ao entorno, que parece não estar sendo tratado com a mesma consciência ambiental, apesar do museu fazer parte do projeto de revitalização da zona portuária do Rio, que passou a ser conhecida, depois das obras,como porto Maravilha, mas talvez essa cobrança devesse ser feita diretamente às autoridades. E é preciso cobrar também a manutenção do museu - único do mundo com esse perfil - que anda ameaçada por falta de verbas.

* O livro é escrito por Borges e ilustrado com fotografias de María Kodama.



Museu do Amanhã - Praça Mauá - Zona Portuária - Rio de Janeiro - Brasil - América do Sul




Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 

 Sylvia Leite

Participação especial: Rosalie e Othon Corrêa

Referências:

Sites:

Site Oficial do Museu do Amanhã 

Livros editados pelo museu:


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11 comentários:

  1. Já fui 2x. É imperdível. A visita deve ser feita sem pressa.

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    1. É um museu para ser visitado muitas vezes. Obrigada pelo comentário e não esqueça de dizer seu nome da próxima vez.

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  2. ���������������� excelente texto. É a primeira vez que vejo esse museu sendo tão bem descrito.
    Compartilharei sem moderação.
    Beijo querida. Joaquim Sobral

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  3. Que porreta esse Museu, Sylvinha!
    Preciso conhecer.
    Abraços
    Val Cantanhede

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    1. Legal, né? Quem sabe vamos juntas. Não me canso de ir ao Rio rsrs

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  4. Um museu fundamental! Além de lindo.
    Parabéns, Sylvinha!
    sonia pedrosa.

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  5. Que riqueza de postagem, Sylvia!
    Parabéns pelo texto tão completo e esclarecer! Conheci seu blog através do RBBV!

    Esse é um passeio que me faltou fazer o Rio. Com certeza vou incluí-lo na próxima vez.
    ;)

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    1. Obrigada, Cleide. Bom saber que gostou! Volte sempre. Toda quinta tem matéria nova e se der uma navegada pelo blog encontrará mais de 90 lugares de nemória.

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  6. Amei conhecer o Museu do Amanhã realmente é orgulho para os cariocas, é a restauração desse espaço que estava abandonado ficou linda, conheci na inauguração, não sei hoje como está...

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