30/01/2020

Museu de Imagens do inconsciente: os frutos de uma psiquiatria humanizada

À primeira vista, é uma galeria de arte como outra qualquer - com pinturas, desenhos e esculturas distribuídos em expositores e devidamente iluminados. Mas o Museu de Imagens do Inconsciente vai muito além de abrigar obras de arte. É um  centro de estudos da Esquizofrenia, que mantém um ateliê permanente de arte terapêutica e guarda a história de anos de luta por uma psiquiatria humanizada. A protagonista dessa história é Nise da Silveira - uma médica alagoana que se recusou a aderir aos tratamentos em uso no Brasil na década de 1940, como eletrochoque, lobotomia ou choque insulínico.


Convencida de que pessoas tidas como perigosas e agressivas poderiam voltar ao convívio social se fossem tratadas com mais humanidade, Nise criou, no então Centro Psiquiátrico Pedro II -  hoje Instituto Municipal Nise da Silveira - um setor* de Terapia Ocupacional composto por ateliês terapêuticos de pintura, modelagem, teatro, música e encadernação. Nesses ateliês, os pacientes podiam expressar-se livremente sem interferência dos monitores e acreditava-se que, com isso, eles tinham maiores chances de recuperação.

O que norteava o trabalho da doutora Nise era a compreensão de que, nos casos graves de esquizofrenia, a expressão verbal tornava-se praticamente impossível. Era preciso, então, estimular uma comunicação não-verbal por meio de vivências que os fizesse externalizar seus mundos interiores. O trabalho terapêutico se completava com o estabelecimento de conexões entre as imagens simbólicas que cada indivíduo produzia e as situações emocionais em que se encontravam.

O aspecto ocupacional das atividades nos ateliês também era visto como benéfico pela psiquiatra, que considerava os manicômios uma forma de prisão. Na condição de ex-presa política, ela acreditava conhecer as necessidades daqueles que são privados de sua liberdade e uma dessas necessidades seria a de ter uma ocupação.

"Não aperto"

Nise, que começou sua carreira na década de 1930, tinha sido presa durante a ditadura de Vargas, acusada de militância no Partido Comunista e ficou oito anos afastada do cargo público conquistado por concurso. Quando voltou a atuar, em 1944, os hospitais psiquiátricos já haviam adotado os tratamentos violentos que ela passou a combater.

O início da rebeldia se deu quando um colega médico decidiu ensiná-la a usar o eletrochoque. Depois de fazer uma demonstração, ele mandou preparar um segundo paciente e pediu que ela apertasse o botão para acionar o eletrochoque. Nise respondeu com a frase que ficou célebre e hoje está impressa em um painel na sala de entrada do museu: "Não aperto". Dois anos depois, conseguiu criar o setor de Terapia Ocupacional.

O começo foi difícil. Além das resistências naturais a tudo que é novo, Nise enfrentou críticas e tentativas de boicote ao seu trabalho. Mas a experiência deu certo. Livres dos tratamentos agressivos, os pacientes conseguiam se expressar e começaram a apresentar melhoras significativas, especialmente nos ateliês de pintura e modelagem, supervisionados pela própria Nise e pelo artista plástico Almir Mavignier**.

Obras de arte reconhecidas


O museu nasceu em 1952 para abrigar um acervo que começava a crescer. Embora o objetivo inicial de Nise tenha sido apenas terapêutico, os trabalhos produzidos por seus pacientes passaram a ser vistos como obras de arte - alguns a partir de uma avaliação padrão, por atenderem a determinados requisitos estéticos; e os restantes por uma espécie de compreensão disseminada pela própria Nise de que a autêntica obra de arte é uma "produção impessoal", ou seja, uma expressão do inconsciente
coletivo.

A aceitação dos quadros e esculturas foi crescendo na mesma medida em que aumentava o acervo, hoje composto por mais de 350 mil obras. O primeiro reconhecimento veio do crítico de arte Mário Pedrosa, que no fim da década de 1940 para começo de 1950 já escrevia sobre os "artistas do Engenho de Dentro" - numa menção ao nome do bairro onde está localizado o então Hospital Pedro II. Ele se referia a esses trabalhos como "Arte Virgem", provavelmente inspirado pelo movimento "Arte Bruta", criado pelo pintor francês Jean Dubuffet, que questionava a arte convencional e divulgava trabalhos de pessoas marginalizadas como presidiários e pacientes psiquiátricos. 

Mário Pedrosa foi um dos curadores - ao lado do crítico de arte belga Léon Degand - da exposição "9 artistas de Engenho de Dentro", realizada em 1949, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Essa mostra foi considerada um marco na arte brasileira, pelo pioneirismo de reunir em um museu obras de pacientes psiquiátricos. Os trabalhos produzidos nos ateliês de Nise já haviam sido expostos anteriormente no Rio de Janeiro - uma vez no próprio hospital e outra no prédio do Ministério da Educação - mas era a primeira vez que ocupava um espaço destinado especificamente a exposições de arte.

As obras dos pacientes de Nise foram ainda mais longe. Um dos acontecimentos marcantes nessa trajetória foi sua chegada à Bienal de São Paulo, em 1981. Naquele ano, a Bienal passou a ter um curador-geral. O primeiro a assumir o posto, Walter Zanini, aboliu a separação por países e começou a agrupar as obras por "analogia de linguagem" levando em conta técnicas e temas. Isso possibilitou a criação do módulo "Arte Incomum", que abrigou obras de 32 artistas de Engenho de Dentro.

Em 2.000, parte dos trabalhos produzidos no ateliê terapêutico ganhou um espaço especial - intitulado "Imagens do Inconsciente" - na exposição "Brasil 500 anos", promovida pela Fundação Bienal de São Paulo. A seleção das obras - feita no ano anterior em colaboração com o curador do museu, Luiz Carlos Mello*** - foi um dos últimos trabalhos de Nise, que não viveu para assistir à inauguração da mostra.

O alcance dessas obras não se limitou ao Brasil. Muito tempo antes de chegarem à Bienal e à mostra Brasil 500 anos, elas já haviam atravessado o Atlântico a convite de ninguém menos que Carl Gustav Jung.

O encontro com Jung


Logo nos primeiros anos de funcionamento dos ateliês, Nise e Almir perceberam uma presença recorrente de mandalas e temas mitológicos nas pinturas dos pacientes, o que os levou à psicologia de Jung. Em uma carta escrita a ele em 1954, Nise relatou a atividade desenvolvida nos ateliês e foi convidada pelo próprio Jung a realizar uma exposição dos resultados de seu trabalho no Congresso Internacional de Psiquiatria em Zurique.

Jung não apenas abriu e visitou toda a exposição, como se deteve diante das mandalas, fazendo comentários e interpretações. Os trabalhos apresentados no Congresso de Zurique, que fazem parte do acervo pessoal da psiquiatra, agora estão tombados pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade e relação entre Nise e Jung é considerada o primeiro passo para a introdução da teoria junguiana no Brasil. Depois de uma temporada de estudos no Instituto Carl Gustav Jung, Nise iniciou, em sua residência, um grupo de estudos junguianos.

*Setor de Terapia Ocupacional e Reabilitação - STOR,
** Segundo os autores do livro "Marcas e memórias: Almir Mavignier e o Ateliê do Engenho de Dentro", os ateliês terapêuticos foram criados por Nise a partir de uma sugestão de Almir Mavignier.
*Autor do livro "Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde".

Museu de Imagens do Inconsciente - Engenho de Dentro - Rio de Janeiro - Brasil - América do Sul


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos: 

    (1,2,3,4,5,8) Sylvia Leite 
    (6) Site do Museu
    (7) Cartaz da exposição "9 artistas de Engenho de Dentro".
    (9) Almir Mavignier


    Referências:

    Site do Museu de Imagens do Inconsciente

    Artigos:




    Filmes:

    "Nise - O coração da Loucura", de Roberto Berliner, 2016

    "Imagens do Inconsciente" , de Leon Hirszman e Nise da Silveira, 1983-1986 (Filme em três episódios: Em Busca do Espaço Cotidiano, No Reino das Mães e A barca do sol)

    Livros:

    "Imagens do Inconsciente" (1982) , de Nise da Silveira.
    "O Mundo das Imagens" (1992), de Nise da Silveira.

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    12 comentários:

    1. Oi Silvinha , amei, excelente texto retratando este Maravilhoso trabalho de nossa " Psiquiatra Rebelde " que dedicou sua vida à transformação de nossa psiquiatria

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      Respostas
      1. Que bom. Obrigada pelo comentário. Só faltou dizer seu nome. Abraço!

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    2. Que orgulho dessa mulher! Maravilha, Sylvinha, belo resgate!
      Beijão,
      sonia pedrosa

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    3. A sensibilidade da dra. Nise faz muita falta na política de saúde mental do país.
      Belo texto, Sylvinha!
      Abraços
      Val Cantanhede

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    4. Muito boa esta matéria com pequeno resumo da obra e vuda de Mulher especial. Anima outros profissionais a lançarmos olhar de maior observação e respeito ao individuo q nos procura buscando melhor qualidade de vida.

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