23/01/2020

Horto de Caípe Velho: o jardim botânico de um homem só

Foto Clara Angélica Porto  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Quando foi comprada, em 1980, a terra que hoje abriga o Horto de Cauípe Velho, na zona rural de São Cristóvão, estado de Sergipe, era exatamente igual às outras propriedades da vizinhança - um sítio de árvores frutíferas - como cajueiros e mangueiras - destinado ao sustento familiar dos proprietários, que continha alguns trechos de Mata Atlântica remanescente. Em apenas quatro décadas, o ex-fotógrafo Marcel Nauer transformou a área em um jardim botânico e a si mesmo em um paisagista autodidata.

O horto de Marcel não tem respaldo de nenhuma instituição e não integra a reduzida lista dos jardins botânicos do Brasil. Mais que isso: é apenas um sitio de propriedade particular que não está oficialmente aberto ao público. Para visitá-lo, é preciso contactar seu dono por intermédio de um conhecido comum e agendar a visita, sempre aos domingos, quando ele passa o dia trabalhando no local.

Foto Clara Angélica Porto  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA visita é gratuita, mesmo se tratando de uma propriedade particular, porque esse esforço de décadas foi feito sem fins lucrativos. Somente de vez em quando é que Marcel vende alguma planta e acaba concluindo que não valeu a pena porque pagam muito pouco.

Como a terra não traz lucro, também não pode gerar muita despesa e isso faz com que tudo ali seja econômico e alternativo. A começar pela irrigação, feita com uma mangueira cheia de furos feitos para provocar esguichos de até um metro de altura.

O surpreendente é constatar que, apesar de toda essa "informalidade", ele conseguiu construir uma espécie de museu natural a céu aberto, onde se pode observar, ou mesmo estudar, exemplares de todos os continentes, especialmente das regiões tropicais e, com isso, contribuir com a preservação de algumas espécies.

Foto Lucinha Simões  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 2
Um paraíso que se releva aos poucos


Na chegada, pouco se vê além de uma casa de pau a pique e alguns canteiros de pedra. E tudo parece muito árido. Aos poucos, as maravilhas vão se revelando: palmeiras, cactus, orquídeas.

Há plantas de todos o tamanhos e idades, não apenas porque sempre chegam mudas e sementes novas, mas também porque algumas
Foto Clara Angélica Porto  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIApodem levar até dez anos para germinar. Outras germinam rapidamente, mas demoram para crescer. Há casos de baobás que só se tornam adultos depois de um século.

A variedade enriquece a paisagem. Enquanto o Jardim de Pedra reúne plantas tão pequenas que parecem feitas para as crianças brincarem de boneca, há árvores que já atingiram 40 metros de altura. Ao lado de palmeiras que se projetam no sentido vertical, plantas aquáticas espalham-se horizontalmente sobre a água.

Embora o horto já tenha espécies exóticas do mundo inteiro, Marcel continua querendo mais e segue em busca de novas sementes ou mudas com a mesma empolgação que tinha em 1982, quando mudou-se para Sergipe e começou a plantar. Só que agora, sua terra já não é mais um 'jardim botânico de um homem só". Além da ajuda de Domingos, um nativo da região do Caípe que acompanha seu trabalho há muitos anos, Marcel conta com a colaboração do próprio ecossistema e garante que muitas arvores do horto germinaram a partir de sementes trazidas por morcegos.

Foto Clara Angélica Porto  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO compartilhamento da construção é apenas um dos lados da história. Marcel também está longe de ser o único espectador das maravilhas que cultivou. Além dos amigos e das pessoas que conseguem chegar até ele com a ajuda de conhecidos comuns, o sítio recebe também visitas de pesquisadores e de alunos universitários. Isso sem contar no contato e intercâmbio que mantêm com profissionais de outros parques.

A busca do conhecimento foi, desde o início desse trabalho, uma das grandes preocupações de Marcel, que abre mão de quase tudo para conseguir comprar livros de Botânica e, talvez por isso, tenha conseguido ir tão longe, mesmo sendo estrangeiro.

Um jardim de sonhos


Hoje Marcel Nauer é naturalizado brasileiro, mas quando tudo começou, ele era apenas um suiço apaixonado por uma brasileira, que tinha dois sonhos: viver em um país tropical e trabalhar com plantas. A paixão era por Neusa de Souza Bonfim, uma sergipana que ele conheceu na Bahia, em 1972. Durante quatro anos, Marcel visitou Sergipe para vê-la, até que conseguiu casar-se com ela e leva-la para a Europa, onde tiveram sua única filha, Christine, mas a sergipana não se acostumou com a nova vida e acabaram voltando. A essa altura, 1983, já eram donos do sítio, que ele comprou sem ver, por intermédio dos parentes de Neusa. 
Foto Lucinha Simões  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 2
Mas a história do horto começa muito antes. Em sua infância, na Suiça, Marcel gostava de acompanhar o avô que era paisagista e trabalhava em um castelo alemão. Junto com ele, visitou vários jardins botânicos. Na adolescência, veio encantamento pelos trópicos e o desejo de viver em um país tropical. 
  
Foto Lucinha Simões  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 2Antes de conhecer Neusa e se mudar para o Brasil, formou-se em uma escola de artes e trabalhou em gráfica fazendo retoques artísticos, mas, ainda em Zurich, mudou seu foco para a área da fotografia,.e foi esse seu primeiro
trabalho no Brasil - fotógrafo do Centro de Criatividade de Aracaju. Depois que o sítio já estava estruturado, Marcel sentiu falta da atividade artística e começou a fazer tapeçaria.

Aparentemente, a formação de Marcel e sua nova atividade de tapeceiro não têm qualquer relação com o trabalho de Botânica, mas quem visita o Horto - ou Jardim Botânico, como preferem alguns - de Caípe Velho, percebe que não se trata apenas de um algomerado de plantas, ordenados pela lógica da botânica, mas de uma 'pintura' natural comparável ao trabalho dos mais famosos paisagistas.

Fotos Lucinha Simões  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Fotos Clara Angélica Porto  - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA


Horto de Cauípe Velho - São Cristóvão - Sergipe - Brasil - América do Sul 


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 

 (1,2,4,5 e 9) Clara Angélica Porto

(3,6,7 e 8)  Lucinha Simôes


Participação especial: Ruth Oliveira

----------------------------------------------------
Gostou da matéria? Você pode deixar um comentário a seguir expressando sua opinião. E se quiser ajudar a aumentar a visibilidade do blog, é só divulgar esta postagem nas redes sociais. Basta  clicar, aqui abaixo, no ícone de sua rede preferida e compartilhar.

Para ler sobre outros lugares de memória, clique nos links abaixo:



22 comentários:

  1. O Marcel é um Ser Humano de grande sensibilidade e de um amor imenso pelas plantas.
    Conheci e me encantei com esse horto e com o trabalho de mágico do Marcel.
    Abraços
    Val Cantanhede

    ResponderExcluir
  2. Tive o privilégio de visitar o lugar é fiquei encantada. Só posso agradecer por tamanha dedicação!

    ResponderExcluir
  3. Matéria maravilhosa! Texto, conteúdo e fotos muito bonitos. Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Márcia.Toda quinta tem matéria nova por aqui. Não perca!

      Excluir
  4. Bem que poderíamos ter mais brasileiros como o brasileiro Suíço Marcel Nauer! ✨👏👏👏👏✨ Parabéns por está matéria e parabéns ao Marcel por essa bela e memorável atitude!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Valtinho. Bom constatar que você acompanha o blog. Beijo

      Excluir
  5. Pretendo visitar,
    Tenho paixão por oropronobis, e procuro a espécie dourada, alguém sabe onde adquirir em Sergipe?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que só o próprio Marcel poderia responder esta perguta. Enviarei a ele. Obrigada pelo comentário.

      Excluir
  6. Eu tb sou apaixonada por plantas. Há quatro anos fiz uma pos graduação em Terapia Auyveda e aumentou minha paixao. Trabaho principalmente com a ORAI PRÓ NOBIS e Moringa, fazendo pesquisas usando como alimentos e fitoterapico .
    Parabens a Marcel. Acho que o conheço. Tenho ligação com Sergipe . Meu sobrinho Tarcisio tb mora em Sao Cristóvão e tem um sitio onde cria cavalos.
    Me encantei com seu trabalho e gostaria de conhcer seu jardim botanico . Tenho um mini espaco onde planto e cultivo, pratico permacutura. Sou uma amante tb da natureza.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo comentário, TK Alves. Vou enviá-lo a Marcel. Toda quinta tem matéria nova no blog. Volte sempre! Abs, Sylvia

      Excluir
  7. Excelente matéria! Obrigada por nos apresentar lugares tão interessantes e bonitos! Para mim, foi uma grata surpresa saber da existência desse jardim botânico aqui em Sergipe!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Maria Consuelo. Pela leitura e pelo comentário. Toda quinta tem matéria nova no blog. Acompanhe!

      Excluir
  8. Fantástico. Como não conhecemos coisas nossas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É verdade, Sidney. Você sabia que o blog nasceu desta constatação? Foi quando descobri que a banheira onde se diz que Mário de Andrade escreveu Macunaíma estava em um museu de Araraquara, perto de São Paulo, e eu nunca tinha ouvido falar nisso.

      Excluir
  9. Respostas
    1. Obrigada! Pena que você não se identificou. Toda quinta tem matéria nova no blog. Acompanhe! Abraço

      Excluir

Obrigada por seu interesse em nossa postagem!