26/12/2019

Santuário Inmaculada Concepción: um ambiente de paz que preserva obras de artes

Não precisa ser católico para usufruir da paz e da tranquilidade que reinam no Santuário Inmaculada Concepción, localizado no Cerro San Cristóbal, em Santiago do Chile. A sensação de bem estar atinge a todos, dessa ou daquela religião, crentes ou ateus. Mas esta é apenas uma das facetas do lugar. Além da atmosfera especial, o santuário abriga importantes relevos, pinturas e esculturas de Peter Horn - um alemão residente no Chile que foi considerado o mais relevante artista de arte sacra do país no século 20.

As obras estão no Templo da Natividade de Maria, uma capela de pedra que integra o conjunto arquitetônico do santuário. Entre elas há onze painéis laterais esculpidos e pintados na própria pedra, que recordam episódios da vida de Maria - alguns dos quais raramente retratados por outros artistas, como o casamento com José ou uma visita à oficina do marido, em Nazaré. Há, ainda, imagens religiosas pintadas ao redor do altar, e esculturas, como as imagens de São Cristóvão e da própria Maria que se encontram na fachada da igreja.

A autoria das obras foi descoberta durante um trabalho de restauração iniciado em 2007 e concluído cerca de quatro anos depois, sob a coordenação da restauradora Cecilia Beas. Embora os relevos e esculturas não sejam assinados, a equipe de restauradores realizou estudos científicos comparativos e contou com o depoimento de Gabriel, filho do artista, que lembrava de ter acompanhado o pai à igreja no período em que o trabalho estava sendo realizado.

Uma imagem vista de toda a cidade


Ao lado da capela, está a imagem da Inmaculada Concepción que, apesar de ter menos da metade do tamanho do Cristo Redentor, do Rio de Janeiro, pode ser vista a partir de praticamente qualquer ponto da cidade, inclusive de dentro da capela, através de suas janelas laterais. Ao pé da escultura, há um anfiteatro aonde são celebradas missas e outras cerimônias religiosas. 

A imagem ocupa o topo do santuário, a uma altitude de 880 metros acima do nível do mar, e foi  iluminada para que os moradores de Santiago pudessem vê-la dia e noite. Seu modelo é uma réplica da chamada "Virgem de Roma" - uma escultura projetada pelo arquiteto Luigi Poletti e executada pelo escultor Guisepe Obici, instalada sobre uma coluna mariana na Praça da Espanha, na capital italiana.


A vez dos artistas chilenos


Cerca de um século depois de inaugurado, o santuário recebeu uma nova obra de arte, desta vez realizada por chilenos. O 'Camino de las siete palabras'  é formado por sete cruzes dispostas ao longo de uma rampa de 130 metros, que dá acesso à capela, e criadas por sete diferentes artistas .

Cada cruz remete a uma das frases pronunciadas por Jesus pouco antes de ser crucificado. Entre uma e outra, dá tempo de parar para apreciar a vista de Santiago e da Cordilheira dos Andes sentindo o cheiro da lavanda que perfuma o caminho.


Um história de mescla cultural 


Antes da chegada dos espanhóis, o Cerro San Cristóbal era chamado de Tupahue - uma palavra cuja origem parece não estar bem definida. Costuma ser classificada como mapudungún - idioma da etnia Mapuche, mas há quem a identifique como quechúa, língua falada por várias povos, inclusive os Incas.

Há discordância, também, quanto ao significado. Os partidários da origem quechúa, a traduzem como 'sentinela', talvez pelo fato do cerro proporcionar a visão de toda a cidade.Já os que consideram a palavra de origem mapuche, acreditam que a tradução correta seja 'lugar de tupas', em referência a uma planta nativa do Chile, de flores vermelhas, que seria considerada sagrada por esse povo. Outros preferem uma versão mais religiosa, segundo a qual Tupahue significa 'lugar de Deus'.

Seja qual for a versão correta, o fato é que o cerro já era conhecido pelos habitantes da região antes de ser ocupado pelos espanhóis e, embora seu nome tenha sido mudado, sobrevive a informação histórica para que possamos ter algum vislumbre do que aconteceu antes da colonização. Mas essa não é a única marca histórica do lugar. Embora o Chile tenha sido colonizado por espanhóis de várias regiões, como Andaluzia, Castela, Estremadura e País Basco, este último deixou no cerro uma contribuição bem específica.

Por iniciativa de uma instituição denominada Juventude Basca, a cultura e os valores do extremo Norte da Espanha foram impressos dentro e fora da Capela da Natividade de Maria. O sinal mais marcante dessa presença talvez seja a o carvalho vermelho, localizado na praça que antecede a capela, denominada Plaza Vasca. A arvore foi plantada pelos jovens em 1931, a partir de uma muda, retirada da famosa 'Árvore de Guernica' - considerada simbólica da liberdade e da justiça.

Sob a copa desse carvalho, situado diante da Casa de Juntas  na cidade de Guernica, os dirigentes locais juravam respeitar as liberdades democráticas da província de Vizcaya. A cidade foi bombardeada durante a Guerra Civil Espanhola e ficou imortalizada no quadro de PIcasso, intitulado Guernica. Nessa obra - considerada uma das mais importantes do cubismo - o pintor faz uma crítica  à destruição promovida pelos nazistas aliados do ditador espanhol Franco. Além dos ideais de liberdade e justiça, a Árvore de Guernica teria para os bascos uma conotação sagrada, segundo pode ser lido em um painel fixado ao lado da árvore.

O aspecto político divide espaço com o religioso. Dentro da capela, há um altar de São Miguel Arcanjo decorado com um painel em alto e baixo relevos no qual o santo aparece com uma lança vencendo o diabo. A obra foi doada pela Juventude Basca.

E além dos elementos claramente visíveis, o santuário conta, ainda, com contribuições indiretas, como é o caso da alemã vinda por meio do escultor Peter Horn e talvez esse encontro de povos seja um dos fatores determinantes da atmosfera especial que envolve o lugar.

A passagem da cidade ao Cerro


A paz e a tranquilidade que reinam no santuário se estendem também ao lado mais profano do topo do Cerro. Na praça do mirante - de onde se avista a Cordilheira dos Andes e grande parte de Santiago - há espaço para quem quer permanecer admirando a paisagem ou simplesmente sentar e ficar entregue às sensações Nas lanchonetes, é servida a tradicional bebida "Mote con huesillos", feita com pêssego, água, açúcar, canela e grãos de trigo, o que confere ao local um clima de autenticidade. 

E tudo isso começa lá embaixo, quando é preciso esquecer a cidade e mergulhar em uma aventura de subida, que pode ser feita de carro, de bicicleta, a pé, em teleférico ou no trem funicular. O trajeto é relativamente curto, mas leva tempo suficiente para que você entre em um ritmo mais lento e assuma uma postura mais contemplativa antes de chegar ao santuário.

Santuário Inmaculada Concepción - Cerro San Cristóbal - Bairro Bellavista - Santiago - Chile - América do Sul 



Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos:

    (1) Mônica Guimarâes

    (As restantes) Sylvia Leite


    Participação especial:

    Mônica Guimarães, da Modê Bijus


    Referências:

    Página oficial do Santuário



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    6 comentários:

    1. Que capela linda, toda de pedra...que lugar mágico, dá pra sentir a paz daqui! Muito legal, Sylvinha!!! Adorei!
      sonia pedrosa

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    2. Que lindo esse Santuário! Muito interessante também a mescla cultural em Cerro San Cristóbal.
      Abraços,
      Val Cantanhede

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