12/12/2019

Bumba meu boi: uma mescla cultural que virou Patrimônio da Humanidade

O Bumba meu boi já foi perseguido e até proibido, em certo período do século 19, por ser considerado uma manifestação da população negra descendente de escravos, mas há quem diga que em outros tempos e lugares foi incentivado pelos jesuítas como veículo de evangelização. A dança é, na verdade, uma mescla de elementos africanos, indígenas e europeus e sua riqueza cultural acaba de ser reconhecida pela Unesco, que concedeu ao Bumba meu boi do Maranhão o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade.



Embora o seu primeiro registro tenha ocorrido em Pernambuco - e existam grupos em vários outros estados - é de fato no Maranhão que o folguedo se projeta com maior força. Aliás, folguedo não. Para os maranhenses, o Bumba Meu Boi é um complexo cultural que reúne teatro, dança, música, artesanato e bordado. São mais de 300 grupos espalhados pelo Estado e os maiores chegam a ter em média 150 integrantes.

O ciclo festivo no Maranhão começa no sábado de aleluia com uma temporada de ensaios que se estende até o início de junho. Na véspera de São João - dia 23 - é feito o batismo dos bois e nesse momento os grupos obtém a permissão divina para brincar. Começa aí o período de apresentações que dura até o fim do mês. Entre julho e dezembro, a depender do calendário do grupo, são realizados os rituais de morte do boi.

Elementos religiosos e sobrenaturais 


O enredo da dança tem várias versões. A mais conhecida, e adotada pelos grupos do Maranhão, baseia-se na seguinte história, considerada por uns como lenda e por outros como fato real: a negra escravizada Catirina, ou Catarina, estava grávida e desejou comer a língua do boi mais precioso da fazenda. Para satisfazê-la, seu marido Chico, ou Pai Francisco, matou o boi, provocando a ira do fazendeiro que, depois de investigar junto a negros e índios, acabou descobrindo o responsável. A única forma de salvar Pai Francisco do castigo do fazendeiro era fazer o boi ressuscitar e o milagre foi alcançado por pajés com a ajuda de seres sobrenaturais.

A história é contada com vários personagens entre os quais estão Pai Francisco, Catrina (normalmente representada por um homem vestido de mulher), o Dono da fazenda (também chamado de Amo) e o próprio Boi que tem uma característica interessante - a pessoa que o representa recebe o título de Miolo. Além deles há personagens que podem ser encenados por uma ou mais pessoas, a depender do tamanho do grupo, e são: Índio, Índia, Vaqueiro, Caboclo de Pena, Caboclo de Fita e Mutuca. Esse último é encarregado de distribuir cachaça com os espectadores para que eles não durmam durante as apresentações.

O sincretismo aparece em vários aspectos, com maior ou menor incidência das três culturas envolvidas na manifestação, mas vale ressaltar a religiosidade indígena, representada pelo pajé que evoca seres sobrenaturais, e a devoção a três santos católicos - São João, São Pedro e São Marçal. Estão presentes, ainda, elementos de cultos religiosos afro-brasileiros - como o Tambor de MinaTerecô -,  por meio da correspondência entre os santos juninos e os orixás, voduns e encantados.

A diversidade e os sotaques


No Maranhão, a diversidade cultural que compõe o Bumba meu boi não se limita aos aspectos internos da celebração. Há, ainda, as variações externas que permitem a classificação dos grupos em diferentes conjuntos denominadas sotaques.

Originalmente, os sotaques decorriam das diferenças culturais entre as nações - grupos étnicos de negros que foram trazidos para o Brasil -, mas, com o passar do tempo, cada um deles foi seguindo seu próprio caminho. O de Orquestra, por exemplo, tem influência européia, com instrumentos de sopro e de corda. É considerado o sotaque mais aberto a inovações, inclusive com aproximações da estética do carnaval, e reúne o maior número de grupos.

Já o mais antigo e talvez mais próximo das origens, é o Sotaque de Zabumba, originário do Município de Guimarães, região que reúne comunidades remanescentes de quilombos. Entre de suas principais características estão os ritmos africanos - marcados por instrumentos de percussão como zabumba, maracá e pandeirinho - e as toadas, que relembram o lamento dos negros nas senzalas.

O mais original entre eles talvez seja o Sotaque de Costa de Mão, chamado assim porque sua música é tocada com a parte de trás dos dedos, em pandeiros pendurados no pescoço. O surgimento desse sotaque deve-se aos danos que o trabalho da roça causava nas mãos dos trabalhadores. Como não conseguiam usar as palmas cheias de calos, inventaram uma nova forma de tocar a percussão. Talvez por ter uma cadência mais lenta, e menos animada, o sotaque tem um número menor de grupos e vive sob a ameaça de extinção.

A diversidade é tamanha que há espaço até para um sotaque 'importado' de outro Estado. É ocaso do Sotaque de Matraca, que pode ter sido trazido do Piauí por vaqueiros fugidos da seca. Mas mesmo que a suposição seja verdadeira, o Sotaque de Matraca já virou maranhense ao incorporar o pandeirão, que não existe no Piauí.

E se o Sotaque de Matraca veio de fora, o da Baixada, ou de Pindaré, fez o caminho inverso e deu origem ao Boi de Parintins, no Amazonas.  Uma de suas principais características é o personagem Cazubá, que tem uma conotação mística capaz de beneficiar os brincantes e o público.

O Sotaque da Baixada é talvez o mais luxuoso de todos, com roupas bordadas à mão, cobertas por lantejoulas e canutilhos, e essa característica foi passada ao Bumba meu boi de Patintins.

O boi de Parintins


O Bumba meu boi foi levado à Amazônia por maranhenses que chegaram à região atraídos pela extração da borracha  e lá absorveu tantos traços da cultura local que passou a se chamar Toada Amazônica.

Com o tempo, a palavra 'boi' foi resgatada e hoje existem duas grandes agremiações que, juntas, realizam um evento popular de alcance internacional. O Festival Folclórico de Parintins consiste na disputa entre o Boi Garantido, ou coração vermelho, e o Boi Caprichoso, ou estrela azul.

Durante três dias, no último fim de semana de junho, os dois grupos duelam em um lugar construído especialmente para a disputa, que ficou conhecido como Bumbódromo, e tem capacidade para 35 mil espectadores. A disputa é realizada ao som de ritmos locais e com enredos inspirados em mitos amazônicos. 

De onde vem o boi?


Não se sabe ao certo qual é a origem do Bumba meu boi. A julgar pelo primeiro registro, pode ter surgido em Pernambuco, no século 17, durante o domínio holandês, e talvez tenha relação com o ciclo do gado, ocorrido mais ou menos no mesmo período.

Alguns pesquisadores consideram a hipótese de que história de Catrina e Pai Franciso tenha sido inspirada em um conto ibérico segundo o qual um certo fazendeiro tinha um vaqueiro que não mentia e, diante do questionamento de alguns amigos, apostou com eles que o rapaz nunca iria decepcioná-lo.

Como tinha certeza da lealdade do empregado, o fazendeiro enviou a própria filha à sua casa para tentar seduzi-lo. Em sucessivas visitas, a moça, sem se identificar, mostrou partes do corpo ao vaqueiro e todas as vezes que ele tentou se aproximar, ela impôs uma condição: ele deveria matar o boi preferido do fazendeiro e fazer um pirão com o coração e o fígado,para eles comerem juntos. A sedução chegou a tal ponto que o vaqueiro não resistiu e atendeu ao pedido da moça.

Mesmo assim, o fazendeiro ganhou a aposta porque o vaqueiro, apesar de ter caído na tentação de satisfazer o desejo da moça, mostrou que era confiável. Além de não ter tocado nela, manteve sua tradição de não mentir - contando toda a verdade ao fazendeiro - e acabou sendo duplamente recompensado: foi perdoado pela morte do boi e teve autorização para casar com a filha do fazendeiro que, àquela altura, havia se apaixonado por ele.

A história é contada no Brasil em versos de cordel atribuídos ao escritor paraibano Francisco Firmino de Paula.  


Bumba meu boi - várias cidades - Maranhão e outros estados - Brasil


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:
(1, 3 e 6 ) Foto Edgar Rocha - Site do Iphan 
(2) Acervo do Ipham
(4) Universidade de Brasília, - Teodoro Freire bumba meu boi honoris causa - 22out12 - Emília Silberstein-26, CC BY 2.0
(5) Weber ferreira santana - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0
(7) Por CulturaGovBr - Flickr, CC BY 2.0
(8) Bianca Paiva/Agência Brasil - Agência Brasil, CC BY 3.0 br,  (Corte na parte superior da foto)
(9) Marcelo Camargo - Agência Brasil 

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8 comentários:

  1. Excelente. Por mais que já tenha acompanhado, hoje o detalhamento foi exemplar. Beijos.

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  2. Matéria fantástica, riquíssima, parabens Silvinha

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    1. Obrigada, Marcelo. Toda quinta tem matéria nova no blog.Acompanhe! Abraço.

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  3. Quanta história, quanto simbolismo por trás do colorido do boi bumbá...lindo demais! Parabéns, Sylvinha!
    sonia pedrosa

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  4. Já assisti ao ensaio do Boi na Maranhão. Muito lindo.

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    1. Uma experiência e tanto, não é? Da próxima vez não se esqueça de deixar seu nome, ok?

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