23/11/2019

Los Dominicos: um refúgio de paz impregnado de história

Um dos pontos turísticos mais charmosos de Santiago, atualmente, é o que os chilenos chamam de
Pueblito Los Dominicos - uma espécie de centro comercial a céu aberto, que reúne lojas e oficinas de arte e artesanato. O lugar traz uma sensação de tranquilidade, como se tivéssemos chegado ao centro de uma pequena aldeia. Mas isso é apenas o começo porque o pueblito pertence a um grande parque e, embora nem todos percebam, ao seu lado encontra-se um refúgio de paz onde podemos descansar nos bancos - admirando a beleza do pátio interno -, visitar a igreja e ainda ouvir a história do lugar contada informalmente por uma freira leiga: é o Convento da Ordem Dominicana.

Parte dessa atmosfera de tranquilidade deve-se à sua origem e localização geográfica. O convento e o pueblito estão praticamente ao pé dos Andes. Ao longo do terreno, corre um riacho abastecido por águas que descem da cordilheira e, antes da chegada dos espanhóis, toda a região era habitada pelos Incas.

Na época da construção do convento, no início do século 19, o local ainda estava em uma zona rural e, mesmo agora, que já se integrou à cidade, conserva os traços de simplicidade, como pisos de tijolo, com paredes grossas e caiadas, estruturas em madeira e tetos forrados com finos bambus.

Mas talvez a razão maior para sentirmos calma em todo o parque esteja nos princípios dominicanos de respeito a todos os povos e crenças, e na história que essa ordem religiosa conseguiu escrever entre suas paredes e jardins, marcada principalmente pelo acolhimento.

Educação, liberdade e acolhimento


Toda a área do atual Parque de Los Dominicos, que inclui o convento, o pueblito e um enorme jardim frontal, integravam originalmente a fazenda vinhedo de Apoquindo. Seus proprietários, o casal Antonia Portusagasti e Juan Cranisbro - este de ascendência irlandesa - ergueram no local uma capela dedicada a São Vicente Ferrer em memória de seus dois filhos, que faleceram quando ainda eram crianças.

Ao morrer, Juan Cranisbro deixou a capela e os
prédios anexos para os dominicanos, com a condição de que construíssem uma escola para os camponeses que viviam nos arredores. A exigência encontrava eco na própria história da ordem que, quase duzentos anos antes, havia fundado a primeira universidade do Chile, a de Santo Tomás, que foi fechada em 1747 por causa da criação da Real Universidad San Felipe, hoje Universidad del Chile, mas muitos consideram que não houve fechamento e sim transformação de uma em outra.

Além de sua vocação educacional, os dominicanos desse convento participaram, em vários momentos, da vida política do Chile. Durante a luta pela independência, por exemplo, converteram o convento em prisão temporária para os frades apoiadores do regime espanhol, de modo que não
pudessem agir até a vitória do movimento. Teriam, inclusive, usado suas próprias economias para fazer doações aos defensores da independência. Em algumas ocasiões, como na Guerra Civil de 1891, o convento serviu de refúgio a perseguidos políticos.

Atualmente, a política de acolhimento dos dominicanos tem se manifestado principalmente por meio de incentivo ao resgate, manutenção e divulgação da cultura chilena, especialmente a ancestral. E, para isso, eles se dispõem a flexibilizar regras da própria igreja, a fim de acolher a diversidade de costumes.

Recentemente, por exemplo, autorizaram a apresentação de uma dança nativa dentro do convento sem fazer qualquer censura ao tamanho reduzido das peças do figurino. Outra evidência é a oração 'Padre Ameríndio', que foi incluída no 'Cancionero' da igreja ao lado do Pai Nosso e faz alusão a várias culturas como Incas, Aztecas, Mayas e Quechuas.

A configuração atual do Convento  

O sentido de preservação está presente também no convento e na igreja, que se mantêm praticamente inalterados desde a sua construção.

Ambos foram erguidos dentro do padrão dos prédios herdados e aproveitando a construção anterior. Para homenagear os doadores, a igreja recebeu duas torres com cúpulas de cobre, terminadas por cataventos com pequenas figuras humanas - em referência às crianças mortas do casal. As paredes internas, também caiadas, são decoradas com pinturas e imagens de santos dominicanos.  

A construção do convento teve como base a estrutura já existente e, como a fazenda que havia no local era produtora de vinho, parte de suas atividades religiosas e administrativas ocupam espaços antes destinados a bodegas - caso do templo galpão aonde são celebradas as missas de fim de semana, que atraem um número maior de fiéis.

No pátio interno, árvores e arbustos dividem espaço com um santuário de Nossa Senhora. São laranjeiras, palmeiras e um abacateiro bi-centenário, com mais de 10 metros de altura, que traz a memória dos primeiros tempos.

O Pueblito Los Dominicos


O centro de arte e artesanato veio mais de cem anos depois, mas mantém a atmosfera de cidadezinha do interior, com viveiros de pássaros e uma fonte logo na entrada.

As ruas de terra batida abrigam cerca de 160 lojas construídas a partir dos estábulos e celeiros da antiga fazenda. Nelas se pode comprar desde jóias artesanais de lápis lázuli - a pedra símbolo do Chile - até bolsas e arreios de couro, passando pelas roupas tecidas manualmente com lã de alpaca.

O que dá uniformidade aos produtos é o fato de serem produzidos artesanalmente e de manterem alguma relação com a cultura local.

O mesmo acontece nos restaurantes, dominados pelas empanadas e onde se pode conhecer, também, a tradicional bebida chilena de pêssego com grãos de milho, que tem o curioso nome de "mote con huesillos".

Tudo isso fica a poucos quilômetros do Centro de Santiago e quem gosta de economia e praticidade pode até pegar o metrô e descer na estação Los Dominicos que, para desgosto de muitos, foi construída dentro do parque, comprometendo o paisagismo da área de entrada.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

Pueblito e convento Los Dominicos - Parque Los Dominicos - Las Condes - Santiago - Chile - América do Sul


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: Sylvia Leite

Participação especial: Mônica Guimarães, da Modê Bijus

Referências:

Site do Centro Artesanal Los Dominicos

Livro:

"Terras de Apoquindo", de vários autores, editado pelo Centro Cultural, Artístico y Patrimonial Los Dominicos.


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7 comentários:

  1. Um verdadeiro oásis na cidade... deve ser uma delícia passear ou sentar num banco para vivenciar a paz que o lugar proporciona. Adorei, Sylvinha!
    sonia pedrosa

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    Respostas
    1. Que bom, Soninha, sua opinião é sempre muito importante. Beijão!

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  2. O Jornal Digital CLICKus - Parabeniza a Jornalista Sylvia Leite.

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  3. Que vontade de conhecer esse paraíso. A Ordem dos Dominicanos está em sintonia com o Papa Francisco no respeito e no acolhimento à diversidade cultural dos povos ancestrais.
    Adorei, Sylvinha!
    Bjs,
    Val Cantanhede

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  4. Muito legal. Tive o prazer de conhecer.

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