26/09/2019

Casa do Rio Vermelho: um refúgio que virou livro e museu

Os museus-casas já não podem ser considerados uma novidade ou algo fora do comum. Faz tempo que vida e obra de artistas passaram a ser resgatadas e apresentadas ao público nos imóveis em que eles foram criados ou passaram períodos significativos de suas vidas. Mas a Casa do Rio Vermelho diferencia-se das outras por contar uma história familiar, social, política e literária que tem não apenas um, mas dois protagonistas: Zélia Gattai e Jorge Amado.

Talvez por abrigar dois universos literários e tantas facetas, o museu acabou reunindo um rico acervo. Uma riqueza que não se afirma pelo valor econômico das peças, mas por sua diversidade. Fotografias de amigos célebres convivem com referências religiosas que lembram a defesa de Jorge Amado pela miscigenação e pela liberdade de culto no país. Lembranças de viagens internacionais dividem atenções com as cores e as formas da cozinha baiana. Uma coleção de arte popular, composta por obras de artistas do mundo inteiro ocupa tanto ou mais espaço quanto as obras dos dois escritores.

A Casa do Rio Vermelho foi comprada com o dinheiro da venda, para a Metro-Goldwin-Mayer (MGM), dos direitos do romance "Gabriela, Cravo e Canela", de Jorge Amado. Com o tempo, acabou virando título de outro livro, nesse caso de Zélia Gattai, que conta uma parte da vida do casal a partir do momento em que ela, paulista, e ele, baiano, decidiram deixar o Rio para viver em Salvador, e acabaram refugiando-se na Rua Alagoinhas, número 33.

Tanto na casa como no livro de Zélia, as paixões pessoais e as histórias corriqueiras também são bastante valorizados. O sapo é um exemplo. Já no primeiro capítulo do livro, Zélia conta como Jorge Amado decidiu comprar um Citröen preto, de segunda mão, em estado pior do que prometia o anúncio, apenas porque tinha 'cara de sapo'. O carro seria usado para ir do Rio a Salvador. E não é que na casa tem um espaço povoado pelos batráquios? O lago foi construído para abrigar em seu centro - de modo se refletisse na água - uma escultura de Iemanjá feita pelo escultor Mário Cravo. Mas Jorge Amado não quis um lago qualquer: dentro dele deveria haver várias mudas de uma planta conhecida na Bahia como
Baronesa e muitos, muitos sapos.


Um lugar construído com arte e amizade 


Desde a aquisição da casa, em 1960, até a mudança definitiva do casal com os dois filhos João Jorge e Paloma, passaram-se uns três anos. O lugar era grande e os novos donos queriam cuidar pessoalmente de cada detalhe. Uma das primeiras peças escolhidas para a decoração do jardim foi um Exu de ferro encomendado ao artesão Manu. O orixá, que Jorge Amado chamava de 'meu compadre', seria o guardião da casa. Mal sabia ele que as coisas não eram tão simples assim.

Ao descobrir que havia uma escultura do orixá no jardim da casa, uma mãe de santo sua amiga, a famosa Mãe Senhora (Yalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá), ficou horrorizada. "Tu não tem juízo, seu Jorge? Onde já se viu botar dentro das portas um orixá forte desses, sem o fundamento?” Para continuar ali, o Exu precisava ser devidamente 'assentado' e  Mãe Senhora mandou seu filho, Mestre Didi, resolver o problema, oferecendo ao santo africano um galo preto, um litro de azeite de dendê, um litro de cachaça, farofa amarela e alguns charutos - ritual que Zélia passou a repetir parcialmente todas as segundas-feiras.

A casa e seu jardim foram construídos ao longo dos anos, em uma luta constante contra os mais variados obstáculos - de pragas de formigas a explosão de freezers por excesso de carga. Mas o que para a maioria das pessoas representa a maior dificuldade, que são os acabamentos, o casal de escritores conseguiu resolver facilmente. As grades ficaram por conta de Mário Cravo, Carybé encaregou-se de decorar os azulejos e Jenner Augusto assumiu a pintura das portas e dos basculantes de vidro.

Além dos artistas que viviam em Salvador,  uma italiana naturalizada também teve sua participação na Casa do Rio Vermelho. Foi a arquiteta Lina Bo Bardi - autora do projeto do Masp e do Sesc Pompéia, em São Paulo -, que estava em Salvador, a convite do governador Juracy Magalhães, para tornar-se diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia. “Por que não colocam no piso das escadas e nos caminhos cacos de azulejos?.. teria sido a proposta de Lina.

Depois vieram contribuições de outros artistas, brasileiros e estrangeiros, como Francisco Brennand*  e Pablo Picasso. A lista de hóspedes e frequentadores ilustres não é menor: o escritor Pablo Neruda e sua mulher Matilde estiveram por lá mais de uma vez. Entre os brasileiros, os mais assíduos eram Sônia Braga, Chico Anysio, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes.

O Museu Casa do Rio Vermelho


As lembranças dos amigos estão por toda parte, mas há ainda um cômodo especialmente dedicado a eles - um espaço que muitos ocuparam em suas visitas à Bahia. No quarto do casal, projeções e objetos fazem referência ao amor - o amor entre Zélia e Jorge, o amor da família, o amor entre diferentes povos e raças e o amor que move os sensuais personagens de Jorge Amado. As lembraças da infância de Jorge e de sua mãe, dona Lalu, também ganharam um cantinho especial.


Nas duas cozinhas, uma delas batizada como Cozinha de Dona Flor, há um museu a parte, com frutas, temperos e utensílios que sempre estiveram na casa e eram citados com frequência nas inúmeras narrativas de Jorge Amado sobre o povo da Bahia. A comida foi tão importante em algumas obras que sua filha, Paloma, resolveu compilar todas as receitas e publicá-las no livro "A Cozinha Baiana de Jorge Amado ou A Cozinha de Pedro Archanjo", numa referência ao personagem principal do romance "Tenda dos Milagres".

Como em qualquer casa de escritores, não poderia faltar uma biblioteca. Há também um arquivo com a memória da militância política, pois Jorge Amado foi por muito tempo do Partido Comunista. O museu abriga, ainda, exemplares dos 37 livros escritos por Jorge e traduzidos para 49 idiomas, com publicação em mais de 50 países. Lá estão também os 17 livros de Zélia: oito infantis, uma
fotobiografia do marido e oito de memórias, e entre eles, claro, "A Casa do Rio Vermelho".

No meio da sala, uma mesa, onde Jorge escrevia nos dias de chuva. Quando fazia sol, ele trabalhava na varanda mesmo, usando como peso para as páginas o gato Nacib, que dormia em cima delas. Tudo isso para não se sentir isolado e conseguir acompanhar o movimento da casa. Em cima da mesa, não é difícil adivinhar: as velhas máquinas de datilografia.

E para quem nunca leu Jorge Amado, ou para quem simplesmente deseja relembrar, vale passar pela Sala de Leitura onde se pode assistir à narração, em vídeo, de trechos das suas principais obras.

*Leia, aqui no blog, matéria sobre a Oficina Brennand.

Casa do Rio Vermelho - Rio Vermelho - Salvador - Bahia



Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos: Gustavo Moura

    Referências:
    • Site da Casa do Rio Vermelho
    Livros:
    • A casa do Rio Vermelho, de Zélia Gattai
    • A Cozinha baiana de Jorge Amado, de Paloma Jorge Amado.
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