11/07/2019

Vila Itororó: um espaço comunitário em permanente construção

Foto Sylvia Leite - Matéria Vila Itororó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA O centro cultural temporário que hoje funciona em um galpão da rua Rua Pedroso, na região do
Bixiga, é apenas a ponta de um iceberg que inclui tanto a memória física como a imaterial do conjunto arquitetônico conhecido como Vila Itororó.

Em seu enorme salão, há espaço para quem quiser jogar, fazer atividades artísticas, participar de oficinas, descansar nas redes e até cozinhar. É possível, ainda, comparecer a reuniões periódicas onde se discute os rumos do processo de restauração em andamento.

O galpão também é ponto de partida para as visitas guiadas ao canteiro de obras onde é feito o resgate físico da Vila Itororó. E mais uma vez
temos oportunidade de participar porque os guias que nos conduzem fazem questão e ouvir a opinião de cada um sobre como a vila deve ser ocupada quando a obra for concluída.

Foto Sylvia Leite - Matéria Vila Itororó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Vila Itororó: um canteiro aberto


A preocupação da equipes que tocam o projeto é transformar as ruínas da Vila Itororó em um espaço cultural e comunitário, sem esquecer resgatar o objetivo original da construção que era o de moradia compartilhada. E tentam fazer isso em diálogo com o público para que tanto sua configuração final como sua destinação estejam de acordo com a comunidade que vai ocupá-la das mais diversas formas.
Foto Sylvia Leite - Matéria Vila Itororó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Embora o projeto tenha um sólido embasamento teórico e diretrizes muito bem definidas, as dúvidas ainda são muitas porque a Vila Itororó passou por diversas fases desde sua inauguração, em 1922, e de tempos em tempos havia mudanças tanto em sua aparência física como nas formas de ocupação - algumas deliberadas e outras provocadas por fatores externos ou conjunturais.

Se discute, por exemplo, se o casarão deve ser restaurado de acordo com o projeto original ou levando-se em conta as transformações que foram feitas para abrigar mais de uma família. Outra questão bastante debatida é quanto à ocupação. Entende-se que, por um lado, o espaço deve abrigar um centro cultural, talvez localizado no casarão. Mas, e quanto às casas? seriam destinadas apenas a residências artísticas ou pelo menos uma parte delas voltaria a ter a função de moradia? As respostas do público são as mais diversas o que torna ainda maior o desafio dos condutores do projeto.
Foto Sylvia Leite - Matéria Vila Itororó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Uma história de pioneirismo 


Para entender a complexidade da Vila Itororó é preciso conhecer um pouco de sua história, que começou no início do século 20, no momento em que São Paulo começava a se modernizar. Seu idealizador e proprietário, Francisco de Castro, era um filho de portugueses nascido em Guaratinguetá que antes de chegar a São Paulo, aos 15 anos de idade, tinha vivido com os pais em uma pequena vila na província do Minho, no Norte de Portugal.

Foto Sylvia Leite - Matéria Vila Itororó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Naquela época, mais da metade da população de São Paulo era composta por imigrantes e a economia estava assentada em três vertentes: o café, a industria e a atividade imobiliária. O português (como era conhecido Francisco Castro) transitou pelas duas primeiras como empregado e nelas conseguiu levantar recursos para investir em imóveis. Inicialmente foi caixeiro viajante de um grande atacadista de tecidos e armarinhos, em seguida trabalhou em uma exportadora de Café e mais tarde foi representante de uma indústria de tecidos.

Quando finalmente conseguiu dinheiro para construir, decidiu fazer, no mesmo terreno, um palacete para sua moradia, e sobrados que seriam alugados para lhe garantir uma renda mensal.  O projeto da Vila Itroró era um sonho ousado, ambicioso e, ao mesmo tempo,  distante das tendências imobiliárias da época. Se por um lado estava em sintonia com um mercado de grande demanda, em que 80% das residências eram alugadas, por outro andava na contra-mão das famílias mais poderosas que procuravam morar em bairros onde houvesse apenas palacetes.

Foto Sylvia Leite - Matéria Vila Itororó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
A vila foi além de misturar o palácio com as casas de aluguel: no mesmo terreno, havia um salão de diversão e uma piscina destinada à aprendizagem de natação  - a primeira de São Paulo em um espaço residencial. A intenção dele era implantar um parque com vários tipos de banhos terapêutios, aparelhos de ginástica e esgrima, salão de dança e jardins.


Um lugar em constante transformação


Mas antes que tudo isso se concretizasse, seu
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idealizador já estava endividado e faleceu três anos depois.  A Vila Itororó foi então leiloada e entrou em uma nova fase. O palacete perdeu as escadas internas e foi dividido em quatro residências, alugadas a diferentes famílias. A piscina e o salão foram arrendados a um clube.

Com o tempo, a configuração da vila foi mudando, em parte por influência das transformações ocorridas no entorno: antigos moradores passaram a sublocar quartos a estudantes e a trabalhadores que precisavam morar perto do trabalho. As mudanças atingiram também a estrutura da vila, pois algumas casas foram ampliadas com a construção de puxadinhos para abrigar novos inquilinos ou mesmo parentes dos moradores. Diante disso, a função original da vila, que era a moradia, transforma-se em uma ameaça à sua integridade.

Foto Sylvia Leite - Matéria Vila Itororó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA No início da década de 1980, começa a ser discutido o tombamento que só vai acontecer em 2005. Nesse intervalo, o problema se agravou porque a Fundação Maria Cândida Sampaio, então proprietária da vila, começou a despejar moradores e demolir as casas desocupadas. A piscina foi alugada a uma lavanderia, que passou a utilizá-la como tanque. A uma certa altura, a Fundação decidiu parar de receber os aluguéis e isso acabou transformando muitas casas em cortiços. Somente entre 20011 e 2013 é que a vila foi inteiramente desocupada.

Patrimônio histórico e arquitetônico


Foto Sylvia Leite - Matéria Vila Itororó - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Além de sua importância histórica, por ter sido construída em um período de imigrações e constituir uma experiência única em São Paulo, a Vila Itororó tem também relevância arquitetônica - em parte por não se enquadrar em nenhum estilo, o que a torna ímpar, mas principalmente por seu palacete ter sido construído com elementos
arquitetônicos e decorativos retirados de demolições numa época em esse tipo de aproveitamento não era sequer cogitado. Parte desse material - inclusive as colunas que enfeitam a fachada - veio do teatro São José, cujo prédio* foi vendido à empresa de energia Light e teve seu interior totalmente demolido.

Depois do tombamento e da desocupação, a Vila Itororó passou a viver um momento de restauração física, histórica e cultural que provavelmente a levarão a novos caminhos. Até lá muitas águas vão rolar porque o projeto tem 11 fases e somente duas estão concluídas. Ainda assim, algumas casas já estão prontas e duas delas já já começam a ser ocupadas pelos laboratório de restauro.

*Do prédio do teatro restou apenas a fachada. É nele que hoje funciona o Shopping Light. O que se salvou da parte interna está na Vila Itororó.

Vila Itororó - Bixiga - São Paulo - Brasil


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos: Sylvia Leite

    Referências:

    Visita guiada

    Livro "Vila Itororó, uma história em três atos", de Sarah Feldman e Ana Castro (baixar)

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    3 comentários:

    1. O Bixiga sempre o Bixiga, muito bom Silvinha.

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    2. Na década de 70 morei na Brigadeiro Luis Antonio, bem pertinho da Vila Itororó e só agora com seu texto tão detalhado estou conhecendo a história do local.
      Muito bom, Sylvinha!
      Abraços
      Val Cantanhede

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