27/06/2019

Padrões geométricos: a oração visual dos sufis

Se viajantes interessados em arte e simbolismo decidissem conhecer cidades onde os artistas
islâmicos imprimiram seus padrões geométricos, o roteiro poderia começar na Índia e terminar no Marrocos, passando pela Península Ibérica e pela Ásia Central. Mas, se além das obras originais, eles quisessem contemplar também trabalhos modernos ou contemporâneos diretamente influenciados por esse tipo de composição, o roteiro de viagem teria que incluir pelo menos dois países: a Holanda e o Brasil.
Foto Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Foto 1: Marrocos / Foto 2: Alhambra - Espanha 

Essa ampla disseminação dos padrões geométricos da arte islâmica ocorreu aparentemente por dois fatores: as conquistas árabes na Idade Média e o fascínio que suas formas e cores exercem até hoje sobre artistas de toda parte. Para alguns, os padrões geométricos encantam por serem minimalistas e proporcionarem ilusões de ótica. Para outros, consistem em orações visuais, capazes de provocar estados meditativos e conectar seus observadores com realidades espirituais.

Foto Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Foto: piso Taj Mahal - Índia / Ilustração: contração
e expansão do quadrado
A explicação que se costuma dar ao uso de padrões geométricos na decoração islâmica é o fato de o Corão proibir a reprodução da imagem humana. Embora o impedimento de fato exista, o uso dos padrões está longe de ser o resultado de uma limitação. Segundo especialistas em Sufismo - a filosofia que permeia a arte geométrica do Islã - esses padrões possuem significados simbólicos e expressam realidades cósmicas como o processo de criação do mundo (cosmogonia) e a maneira como ele se organiza (cosmologia).

Padrão de Cruz e estrela: a imagem da respiração divina


Um dos motivos mais utilizados na decoração de palácios, mesquitas, madrassas, tumbas  e salas de meditação conhecidas como tekkias é o que simboliza o que os sufis chamam de 'Hálito do Criador'. O padrão combina cruzes estilizadas com estrelas de oito pontas em alusão à inspiração e à expiração divinas - que são expressas graficamente pela expansão de pela contração do quadrado.
Foto Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Mosaico de Alhambra 

O traçado de cruzes e estrelas pode aparecer de forma evidente ou oculta - nesse caso, escondido na malha do desenho como no mosaico ao lado, em que cada cruz do padrão está formada por duas estrelas azuis, duas setas pretas e uma cruz branca ao centro.

Mesmo quando é usado de forma aparente, o padrão pode estar disfarçado pela relação entre  cores e formas. Um exemplo comparativo pode ser visto nas imagens abaixo. Na primeira,  temos o padrão de forma explícita, com estrelas azuis e cruzes verdes. Já na segunda, o simples fato das cruzes terem duas cores (preto e verde) já cria uma segunda camada de desenho que distrai o olhar do desenho estrutural.

Fotos Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Desenho demonstrativo/ Mosaico de Alhabra
A escolha das cores,na verdade, é capaz de mudar inteiramente a percepção do traçado assim como o seu significado. Nas duas estampas a seguir por exemplo, foi usado o mesmo desenho, mas as diferenças cromáticas nos fazem crer que se tratam de padrões distintos.

Fotos Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

E as variações não se limitam apenas a mudanças de cor. Uma alteração no recorte do padrão ou no suporte utilizado, pode torná-lo irreconhecível.

Padrão cruz-estrela formando friso / Caixa de madeira vazada/  Padrão cruz-e estrela formando friso  no jardim do Taj Mahal

Especialmente na Ásia Central, é comum que padrões simples, como o que combina cruzes e estrelas,sejam preenchidos por motivos florais, conhecidos como arabescos, ganhando aparência totalmente distinta e agregando outros significados.

Foto Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Makan e Hal: 


Foto Logga Wiggler por Pixabay - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIANa perspectiva simbólica dos sufis, o arabesco seria a imagem do mundo criado e visível, que está submetido à mudança e à morte. Já os padrões geométricos, e sua inerente estabilidade, estariam relacionados ao mundo invisível, onde tudo está contido na Unidade primordial. Dito de outra maneira, a inconstância do arabesco representaria a expansão e o descenso enquanto a estabilidade da geometria representaria a contração (cruz) e o retorno à Unidade.

Essas duas perspectivas estariam também identificadas com os conceitos de Hal e Makan. O primeiro, de acordo com os sufis, corresponde a um estado alcançado pelo ser humano quando, de forma involuntária, ele estabelece um contato fugaz com o mundo invisível da 'Verdade Absoluta'. O Makan, por sua vez, é o nome dado a cada estágio, ou degrau, alcançado pelo crente, no caminho iniciático que tem como objetivo alcançar essa verdade de forma permanente.

O tema dos padrões geométricos poderia render muitas páginas, ou até livros, mas a proposta, aqui, é apenas despertar a curiosidade para essa categoria de arte, dar dicas de onde encontrá-la mundo afora e fornecer pistas que possam contribuir com sua compreensão.

No Ocidente, o lugar que concentra maior quantidade e variedade desses padrões certamente é o Conjunto Monumental de Alhambra, que reúne os palácios da cidade construída pelos árabes em Granada, na Andaluzia. Ali, como no Marrocos, os motivos são simplificados e raramente estão mesclados com arabescos. Já na Ásia, há grande concentração de padrões geométricos em vários países, entre os quais poderíamos destacar o Uzbequistão e a Turquia, onde os padrões são ricos em detalhes, combinando as formas geométricas com traçados vegetais.

Foto Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Azulejos portugueses: uma herança  


Quando se fala em influência, talvez o maior legado da arte geométrica islâmica tenha ficado em Portugal, onde uma de suas manifestações culturais mais características - a arte de azulejaria - é  reconhecidamente herdada da Espanha no período de domínio árabe. Foi de Sevilla que Portugal importou os primeiros azulejos de que se tem noticia no país e boa parte deles traz motivos geométricos encontrados em países de colonização árabe.

Embora a azulejaria portuguesa tenha tomado rumos diversos, e feito sua fama principalmente em cima das pinturas figurativas em tons de azul e branco, os padrões geométricos nunca deixaram de fazer parte do seu repertório, seja de forma explícita, como em Alhambra e no Marrocos, seja de maneira estilizada ou escondida no desenho estrutural.

Foto Gordon Johnson por Pixabay  - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Escher e a divisão regular da superfície

Movido por sua curiosidade matemática, o artista plástico holandês M. C. Escher também estabeleceu um diálogo com os padrões geométricos islâmicos que é claramente impresso na maioria de  suas gravuras.

No livro "O espelho mágico de Escher", o professor Bruno Ernst dedica um capítulo inteiro ao relato dessa relação, mostrando que o artista visitou Alhambra mais de uma vez e que, junto com sua mulher, fez anotações e copiou inúmeros padrões.

O que mais atraía o artista nos padrões islâmicos era um conceito matemático conhecido como 'divisão regular do plano', o que poderia ser traduzido como o preenchimento de uma superfície com uma sequência de motivos iguais ou espelhados sem deixar espaços vazios - o que os árabes sabiam fazer muito bem.

Foto Edgard Cesar  - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Painel de Athos Bulcão

Os padrões geométricos na arte brasileira 

No Brasil, pelo menos quatro artistas poderiam ser vistos como influenciados, direta ou indiretamente, conscientemente ou não, pela arte geométrica sufi. O primeiro é o modernista Athos Bulcão, autor de inúmeros painéis de azulejos com repetições rítmicas, parte deles em obras de Oscar Niemayer, tanto em Brasília como na
Foto Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Paineis de Mônica Nader 
Igreja de São Francisco, na Pampulha, em Belo Horizonte. Na mesma linha, temos o também modernista Paulo Osir Rossi, parceiro de Portinari e autor de conhecidos painéis no restaurante da Fundação Oswaldo Cruz e no Palácio Gustavo Capanema, ambos no Rio de Janeiro.

Outro trabalho que demonstra grande afinidade com os padrões árabes é o da muralista Mônica Nador, conhecida principalmente por seu trabalho comunitário no Jardim Míriam - bairro localizado na periferia Sul de São Paulo - e em cidades do interior. Usando paredes, papel ou tecido como suporte, Mônica e os frequentadores de suas oficinas revitalizam ruas ou ambientes internos ao compor com stencil seus padrões coloridos - que vez por outra chegam a reproduzir claramente um ou outro tema da arte sufi.  E embora as formas nem sempre sejam geométricas, a influência dos
Foto Cassia Castro - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Painel de Cassia Castro
padrões islâmicos se perpetua por meio das repetições rítmicas. 

O trabalho mais claramente influenciado pela arte geométrica árabe é o da artista plástica e arte educadora Cássia Castro, que além de trabalhar assumidamente com o tema dos padrões, defendeu na ECA/USP, em 2016, uma tese de doutorado na área de Poéticas Visuais sobre o tema: Tramas em movimento: desenhos e pinturas inspirados nos mosaicos geométricos islâmicos.


Os padrões islâmicos no Brasil

Foto Sylvia Leite - Matéria Padrões Geométricos - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Apesar da influência exercida sobre esses e outros artistas brasileiros, os padrões geométricos árabes, em sua versão original, não são encontrados com facilidade no Brasil a não ser em ambientes privados de residências ou mesquitas. Mas pelo menos um mosaico original pode ser observado com facilidade na cidade de São Paulo. O painel, executado por artesãos de Fez, foi doado à cidade pelo Ministério do Artesanato  do Reino do Marrocos e está localizado na avenida Vergueiro, em frente à Catedral Ortodoxa.

No Rio de Janeiro, a Fundação Oswaldo Cruz conserva o seu Pavilhão Mourisco, mas como já revela  o próprio nome, trata-se de um monumento de inspiração árabe, mas já acrescido de elementos ibéricos, como demonstra a substituição dos mosaicos por azulejos na composição dos  padrões.

* Oficina realizada em parceria com Fernanda Kikuchi.

Padrões geométricos islâmicos / Índia, Uzbequistão, Marrocos, Espanha, Portugal, Brasil


Texto: Sylvia Leite

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos: 

    (1) pasja1000/ Pixabay 
    (2, 3/4, 5, 6/7. 8/9, 10/11/12, 13, 15 e 18) Sylvia Leite 
    (14) Logga Wiggler/ Pixabay
    (16) Gordon Johnson/ Pixabay 
    (17) Edgard Cesar 
    (18) Cassia Castro


    Referências:

    Livros:

    "O espelho mágico de Escher", de Bruno Ernst.
    "O Simbolismo dos Padrões Geométricos da Arte Islâmica", Ateliê Editorial.
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    18 comentários:

    1. Estou simplesmente maravilhada...que texto esplêndido(simples e elegante )refinado. Parabéns. Compartilharei sempre em minhas redes sociais como maior prazer.

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      1. Esplêndido trabalho,parabéns!

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      2. Obrigada! Pelo comentário e pelo compartilhamento. Você só esqueceu de dizer seu nome. Gostaria muito de saber. Abraço!

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      3. Resposta ao comentário "Esplêndido trabalho,parabéns!"

        Obrigada! Da próxima vez não esqueça e deixar seu nome.

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    2. Belíssimo texto, Sylvinha! Quanta coisa linda ainda preciso conhecer da arte islâmica!
      Grande abraço,
      Val Cantanhede

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    3. Belíssima matéria, praticamente uma aula, deu vontade de conhecer mais sobre essa arte maravilhosa. Parabéns, Sylvia, conteúdos maravilhosos no blog, desde a escolha dos temas até o cuidado com o texto. Suas matérias deveriam estar também numa revista, são muito bonitas.

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    4. Muito legal, Sylvinha! Texto inspirador!

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    5. Silvia parabéns . Que matéria linda e inspiradora . abs

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