23/05/2019

Capela Sistina: um templo de arte e espiritualidade

 Foto Wiki Commons - Matéria sobre a Capela Sistina - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA
Muita gente visitou e quase todo mundo já ouviu falar na Capela Sistina - a igreja particular do papa que abriga uma das mais significativas coleções de arte renascentista e é palco do Conclave, a cerimônia em que é escolhido cada novo pontífice. Mas poucos têm ideia das histórias que envolvem sua construção e dos significados que dela podem ser extraídos.

A primeira curiosidade diz respeito ao projeto, que acredita-se ter sido inspirado no Templo de Salomão - o recinto sagrado de Jerusalém no século 1 antes de Cristo. Embora a descrição e as medidas do templo* estejam no Antigo Testamento - escritura compartilhada pelo Cristianismo e pelo Judaísmo - causa espanto o fato de uma capela cristã ser feita 'à imagem e semelhança' de um lugar que funcionou como centro espiritual da tradição Judaica.

Foto Juan Carlos Rodriguez Casmartiño por Pixabay - Matéria sobre a Capela Sistina - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAOutra surpresa vem dos famosos afrescos do teto pintados por Michelangelo. Neles, não há qualquer referência ao Novo Testamento - a parte da Bíblia introduzida pelo Cristianismo. As pinturas retratam nove cenas do Livro do Gênesis, do Antigo Testamento, ao redor das quais estão cinco sibilas - as mulheres que tinham a função divinatória nos oráculos gregos e sete profetas reconhecidos pelos cristãos, mas que foram consagrados pelos judeus. 

Os elementos judaicos são encontrados também nos mosaicos Cosmatescos que compõem o piso da capela, por conterem em seus traçados geométricos  elementos como os círculos da árvore da vida e a estrela de seis pontas formada pela superposição de dois triângulos em posições opostas. O diagrama, que simboliza a intersecção de opostos como céu e terra ou masculino e feminino, é conhecido atualmente como Estrela de Davi - um dos símbolos atribuídos aos judeus.

A escolha do Templo de Salomão como modelo arquitetônico da capela pode ter partido da própria cúpula católica numa espécie de afirmação da Tradição Cristã como substituta da religião judaica e de Roma como substituta de Jerusalém. Já os elementos do Judaísmo, encontrados nos afrescos de Michelângelo, seriam rebeldias cometidas pelo artista segundo contam Roy Doliner e o rabino Benjamin Blech, no livro Os segredos da Capela Sistina”.
Foto Domínio Público - Matéria sobre a Capela Sistina - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Mensagens ocultas na Capela Sistina  

Para entender a tese de Doliner e Blech é preciso conhecer um pouco a história da capela e o contexto histórico em que ela foi construída (entre 1475 e 1483), por iniciativa do papa Sisto IV.

Naquele momento, havia uma grande rivalidade entre Roma e Florença. A primeira era controlada pela Igreja e defendia intransigentemente a Fé Católica, usando para isso as leis da Inquisição, enquanto a segunda tinha no comando a família Medice e pregava a tolerância religiosa, os valores humanísticos e a retomada de uma estética da Antiguidade Clássica, tornando-se mais tarde um dos principais centros do movimento artístico conhecido como Renascimento.  
                                        
Eram de Florença os artistas Pietro PeruginoSandro BotticelliCosimo RosselliLucas Signorelli Domenico 
Ghirlandaio que Sisto IV levou a Roma para decorar a Capela Sistina com afrescos que narram episódios da vida de  Cristo e de Moisés. Já nessas primeiras obras, os artistas teriam cometido algumas rebeldias ocultas. 

Foto Domínio Público - Matéria sobre a Capela Sistina - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAFoi também em Florença que, vinte anos depois, papa Júlio II mandou buscar Michelangelo para pintar o novo teto da capela. O artista florentino tinha sido criado como filho por  Lorenzo de Medici e, na época, já era um renomado escultor, mas não tinha interesse pela pintura e, por issorelutou em aceitar o trabalho. Praticamente obrigado pelo papa, ele se esmerou durante quatro anos. Trabalhava sozinho - porque não encontrou ajudantes que atendessem o seu nível de exigência -, deitado em cima de um andaime e com tinta respingando nos olhos, o que lhe rendeu problemas renais, de visão e uma escoliose.  

O resultado visível a todos é uma das mais importantes obras de arte da história. Nas entrelinhas, Michelângelo teria registrado críticas à Igreja e ao papa, e demonstrado sua admiração pelo povo judeu e pela Cabala - braço místico do Judaísmo -, adquirida nos anos de convivência com a família Medici.    

Além da inexistência, no teto da capela, de referências ao Novo Testamento, e da presença de elementos Judaicos ou mesmo pagãos, como já foi citado anteriormente, Michelangelo teria cometido outras rebeldias: uma delas seria a inclusão de letras hebraicas disfarçadas em algumas cenas, por meio de recursos diversos como uma postura corporal ou a composição de uma imagem. Mas a ousadia maior teria sido o insulto feito ao papa Júlio II, cujas feições foram usadas na representação do profeta Zacarias. De forma sutil, mas plenamente identificável, um dos anjos pintados atrás do profeta faz o gesto de figa - sinal que na época tinha o mesmo significado que damos hoje ao ato de mostrarmos a alguém o nosso dedo médio.  


Os afrescos e as lições de anatomia
Foto Waldo Miguez por Pixabay - Foto Domínio Público - Matéria sobre a Capela Sistina - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Foto Janeb13 por Pixabay - Foto Domínio Público - Matéria sobre a Capela Sistina - BLOG LUGARES DE MEMÓRIANão bastassem as mensagens ocultas apontadas por Doliner e Blech, há quem enxergue nos afrescos de Michelangelo formas disfarçadas de órgãos e membros humanos. Essa tese é defendida pelos brasileiros Marcelo G. de Oliveira e Gilson Barreto - este último, cirurgião oncológico - no livro "A Arte Secreta de Michelangelo - uma lição de anatomia na Capela Sistina".

O ponto de partida do estudo teria sido uma da cenas mais famosas dos afrescos – o nascimento de Adão. Nela, o americano Frank Lynn Meshberger  havia identificado, em estudo publicado na revista JAMA (Journal of the American Medical Association), em 1990,  a imagem do corte de um cérebro humano formado pelo Criador, Eva e vários anjos localizados à sua volta, apoiados em uma espécie de concha marrom.

O livro aponta imagens anatômicas inseridas em 33 cenas pintadas por Michelangelo na capela, entre as quais um coração e um dos lados do pulmão. Na cena de Jonas, os autores relacionam as narinas de um peixe, que na história bíblica teria engolido o profeta, com o corte transversal de um pênis. Na imagem do profeta Joel, estaria inserida a forma do osso temporal. 

O uso de imagens anatômicas por Michelangelo estaria também ligada à sua espiritualidade pois ele teria dito em um de seus sonetos que se Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, o que nós temos mais próximo de Deus, na Terra, é a anatomia humana. 

As descobertas relatadas no livro são demonstradas em detalhes pelos autores, que destacam o surpreendente conhecimento anatômico de Michelangelo numa época em que era proibido dissecar cadáveres. O estudo foi endossado por anatomistas e estudiosos de arte, mas causaram uma certa polêmica e foram contestadas por alguns autores. 

Saber de todas essas histórias, e ter acesso a imagens, ajuda a entender a importância artística desse 'museu renascentista', seus possíveis significados ocultos, e o contexto histórico em que suas obras foram produzidas na virada do século 15 para o 16. Serve também para ajudar a escolher o que apreciar, de preferência com binóculo, durante a visita, pois o tempo é curto e a dispersão é grande diante de tantas obras e ao lado de tanta gente (são cinco milhões de visitantes por ano). Mas talvez a forma mais profunda de usufruir da Capela Sistina seja parar em um ponto e tentar sentir o lugar que, a exemplo das catedrais medievais e de outros centros sagrados das mais diversas tradições, parece ter sido concebido com medidas e imagens capazes de nos levar ao estado de meditação.

* Medidas da capela: 40,93 m de longitude, 13,41 m de largura e 20,70 m de altura.   

Capela Sistina - Palácio Apostólico - Vaticano

Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos:

(1) Snowdog/ it.ikipedia e  Pierpao Wiki Commons - CC BY-SA 3.0

(2 ) Juan Carlos Rodriguez CasmartiñoPixabay 

(3 e 4) Directmedia Publishing GmbH., Domínio público.

(5) Waldo Miguez / Pixabay 

(6)  Janeb13 / Pixabay 


Referências:

Site do Museu do Vaticano – Capela Sistina  Home / Visita virtual

Livros:

A Arte Secreta de Michelangelo - uma lição de anatomia na Capela Sistina.

Os segredos da Capela Sistina -  As Mensagens Secretas de Michelângelo no Coração do Vaticano.

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11 comentários:

  1. Muito interessante seu texto, Sylvinha! Conheci a Capela Sistina e seus museus em 2012. Tudo lindo demais, mas foi impossível ver os detalhes anatômicos nas obras de Michelangelo. Era um mar de gente do mundo inteiro, principalmente chineses e japoneses. Apesar da organização dos grupos com seus respectivos guias, tínhamos que andar num ritmo ligeiro para não nos perdermos na caminhada. Mas valeu a pena!
    Parabéns pela matéria, querida amiga!
    Abraços
    Val Cantanhede

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    1. Obrigada, Val. É isso mesmo. A visita é um pouco frustrante por causa dessa pressa e da falta de silêncio. Por isso acho melhor ir sem grupo. Dá mais independência. Para aproveitar esse lugar é preciso um mínimo de introspecção. abs

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  2. Sylvinha, maravilha de matéria. A Sistina reúne perfeição, mistério, história e religião. Arte na maior expressão. Seu texto está sob medida, como sempre. Excelente!

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    1. Obrigada, Eleonay. Toda quinta tem matéria nova no blog. Volte sempre!

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  4. Muito boa a matéria! Não sabia nada desses "detalhes"muito significativos!

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    1. Obrigada. Pena que você não se identificou. Volte sempre e da próxima vez deixe seu nome.

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  5. A capela é maravilhosa. Não sabia destas " rebeldias ". Muito interessante.

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    1. Obrigada.,Toda quinta tem postagem nova. Não perca. E da próxima vez não esqueça de se identificar, ok?

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  6. A Capela Sixtina para min foi um espaço de exuberância artística e histórica mas sem nenhum apelo espiritual. É uma pena essa multidão de pessoas. Mas pelo menos a Igreja Católica compartilha com a humanidade esse espaço de arte . Ótimo texto Sylvia.
    Augusta Leite Campos

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