21/03/2019

Mesquita de Córdoba: um templo de muçulmanos e católicos

Imagine-se entrando em uma imensa mesquita, onde as colunas exibem arcos decorados com listras vermelhas e beges que se repetem aparentemente até o infinito. Você começa a andar por aquele
bosque interminável, tentando adivinhar quantas colunas ainda virão e, de repente, a paisagem se transforma. No lugar das arcadas bi-colores surgem formas mais austeras e imagens de santos. O choque visual lhe fará pensar que mergulhou num daqueles sonhos em que nada faz sentido. Mas a experiência é concreta: você está na Mesquita de Córdoba.

A construção de uma catedral dentro da mesquita - o que a torna conhecida também como Mesquita-Catedral - é consequência de um acontecimento conhecido como Reconquista Cristã, que consiste na retomada, pelos católicos, do poder na Península Ibérica, que estava ocupada desde o século 8 pelos muçulmanos.

Mas a história desse monumento não começa com os fatos narrados até aqui. Antes da mesquita ser erguida existia ali uma basílica visigoda devotada a São Vicente, que depois da invasão árabe chegou a ser compartilhada por maometanos e cristãos, e antes dessa igreja havia um templo romano.

A Mesquita de Córdoba na Idade Média  

Depois que o califa Abd Ar-Rahman derrubou a Basílica de São Vicente e deu início à construção da mesquita, no século 8, o local  passou a ser usado apenas por muçulmanos com finalidade religiosa, social, cultural e política. 


Como Córdoba era a capital do Império de Al-andalus, que se estendia até o Douro, em Portugal, a mesquita foi sendo ampliada e ganhando cada vez mais projeção até tornar-se o lugar de culto mais importante do Islam no Magreb - palavra árabe que significa poente, usada pelos muçulmanos para referir-se ao seu império no Ocidente.

Restos da Basílica visigoda no subsolo da mesquita
Mas mesmo sendo de uso exclusivo dos praticantes da religião islâmica, a Mesquita de Córdoba nunca chegou a refletir apenas a cultura de seus construtores. Talvez pelo seu passado de múltiplas culturas, manteve um pouco de cada povo que esteve por ali.    

A mistura de estilos e materiais


Ao erguerem a mesquita, os muçulmanos aproveitaram materiais tanto da igreja visigoda, que deu  lugar à nova construção, como de outros edifícios antigos de diferentes origens, fazendo com que nada, além dos arcos listrados, parecesse uniforme. Mesmo as colunas talhadas especialmente para a mesquita, durante uma ampliação realizada quase dois séculos depois, foram produzidas em mármore de diferentes cores: azul e rosa.

Como se não bastasse a mescla de elementos herdados dos antecessores, os árabes acrescentaram ali traços de sua própria cultura como uma elaborada arte geométrica presente especialmente em combogós e nos mosaicos que ornamentam as fachadas, na decoração das portas e janelas.

São inúmeros os detalhes arquitetônicos e também as alterações feitas nas diversas reformas e ampliações. Apresenta-los aqui poderia nos conduzir a pelos menos dois problemas: cometer imprecisões e ainda tornar o texto cansativo. Mas é interessante destacar, pelo menos, uma característica incomum até hoje e que parece ter sido uma novidade para a época: as duplas arcadas, com um primeiro nível sustentado pelas colunas e um segundo nível sustentado por pilastras retangulares - o que elevou o pé direito do edifício a mais de oito metros.

Uma fusão considerada única no mundo


A construção de uma catedral dentro de um lugar de culto muçulmano trouxe ainda mais elementos para um edifício já marcado pela mescla, e também muita polêmica pois até entre os cristãos havia quem discordasse da descaracterização da mesquita. Conta-se, inclusive, que ao visitar a obra que ele mesmo havia autorizado, o imperador Carlos V teria feito um  mea culpa com a seguinte afirmação: "Se eu soubesse que era isto, não teria permitido porque fazem o que há em muitas partes e desfizeram o que era único no mundo"*.

Há quem argumente, porém, que a implantação da catedral no coração da construção islâmica nos trouxe dois ganhos: o primeiro teria sido a preservação da mesquita, pois com a expulsão dos muçulmanos o prédio ficou sem utilidade e a tendência é que não fosse preservado. A segunda seria a

sua transformação em um símbolo da fusão das duas culturas - fusão essa que caracteriza uma terceira cultura: a de Al-Andalus.

Além da mescla em si, o enriquecimento se deveria, segundo seus defensores, ao acréscimo de elementos arquitetônicos de pelo menos mais três estilos: gótico, renascentista e barroco, e de obras de arte como as cadeiras do coro, esculpidas por Pedro Duque Cornejo; ou a Santa Ceia, pintada pelo renascentista Pablo de Céspedes, entre dezenas de outras.

A Mesquita-catedral hoje


Se na Idade média, a Mesquita de Córdoba foi o principal local sagrado dos muçulmanos no Ocidente, hoje a Mesquita-Catedral é um dos pontos turísticos mais visitados da Espanha por pessoas de todos os credos e até ateus.

Levantamento feito pela Universidad Loyola Andalucía indica que a mesquita-catedral é um dos patrimônios mais procurados em toda a Espanha e atrai quase a metade das visitas feitas a monumentos na província de Córdoba. Para se ter ideia do que isso significa, em 2017 a mesquita-catedral recebeu 1,9 milhões de visitantes.

É preciso lembrar ainda que, em Córdoba, quase tudo é Patrimônio Mundial da Humanidade declarado pela Unesco: a própria mesquita, o centro histórico, o Festival dos Pátios e o sitio arqueológico Medina Azahara.


* Tradução livre do Espanhol: "Si yo hubiera sabido lo que era esto, no hubiera permitido que llegase a lo antiguo: porque hacéis lo que hay en muchas partes, y habeis desecho lo que era único en el mundo"

Mesquita de Córdoba - Córdoba - Andaluzia - Espanha


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos:
    Fotos (1,3 e 4) :  Waldo Miguez /Pixabay  
    Fotos (2, 4, 6, 7 e 8) Site oficial da mesquita 

    Referências:

    Site oficial da mesquita

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    8 comentários:

    1. Que maravilha, Sylvinha! Se um dia retornar à Espanha, com certeza irei conhecer essa catedral mesquita.
      Abraços
      Val Cantanhede

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      Respostas
      1. Estive aí, em agosto de 2018, debaixo de um sol poderoso de 42 graus. Vocês conhecem o verão europeu? Nunca mais.

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      2. Amei também, nas cercanias do Templo, as ruazinhas estreitas,sombreadas devido às construções tão próximas ... asfloreiras nas janelas ... maravilha.

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      3. Sim, as ruazinhas são lindas. Se, você gostou delas talvez goste de ler as matérias que fiz sobre Arcos de La Frontera, Ronda e Algodonales. Estão todas aqui no blog. Navegue um pouquinho que você encontra.

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      4. Essa região é especialmente quente. Melhor ir na primavera ou no outono.

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    2. Sem palavras para falar desse trabalho, Sylvinha é um ser especial.

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    3. Leandro, sem palavras fico eu com essas coisas que você fala rsrs. Obrigada! beijo

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