14/03/2019

Jantar Mantar: um observatório astronômico sem telescópios

Para quem vive, como nós, em uma era de grandes avanços tecnológicos, é difícil imaginar um observatório astronômico sem os sofisticados telescópios e radiotelescópios. Pois na Índia eles ainda existem e estão abertos ao público. Todos levam o nome de Jantar Mantar, que traduzido para o português seria algo como "instrumento de cálculo". 

Os quatro observatórios* foram construídos no século 18 por Marajá Sawai Jai Singh II, governante do reino de Âmbar, atual estado do 
Rama Yantra (interior) - Jantar Mantar de Delhi
Rajastão**. O príncipe astrônomo pretendia aumentar a precisão da observação dos astros na Índia, até então feita por meio de antigos instrumentos de metal denominados astrolábios

A aparência desses complexos é a de parques de diversão com antigos brinquedos de alvenaria. E nos dias de hoje, isso contém um pouco de verdade. Suas estruturas circulares cheias de espaços vazados, e as triangulares com dezenas de degraus lembram, respectivamente, carrosséis e escorregadores, dando um tom lúdico ao lugar. E ao que parece, é com esse espírito que muita gente percorre, admira, e de certa forma experimenta - quando é permitido o acesso - os antigos instrumentos de medição.



O Jantar Mantar de Delhi 


O que mais impressiona nessas estruturas do Jantar Mantar é saber que foram e ainda podem ser usados tanto para a contagem do tempo, durante o dia, como para a observação e medição dos astros durante a noite -  tudo a olho nu e usando como parâmetros apenas sombras e ângulos.    

Não adiantaria muito entrar em detalhes sobre as questões técnicas dos instrumentos porque só os iniciados iriam entender com clareza, mas há informações que podem nos dar a medida do que esses observatórios representaram em sua época e ainda significam para a história da Astronomia. 

A primeira delas diz respeito à escala, lembrando que quanto maior a ferramenta, maior precisão se consegue nas medições. O Samrat Yantra - ou instrumento supremo - do Jantar Mantar de Delhi, por exemplo, tem mais de 20 metros de altura, uma dimensão jamais alcançada anteriormente por qualquer aparato semelhante. Os instrumentos a olho nu que foram construídos pelo dinamarquês Tycho Brahe, e eram considerados os mais precisos até então, teriam menos de dez metros.  

Outro dado que qualifica os instrumentos do rei Jai Singh como inigualáveis em sua categoria é a precisão alcançada, por exemplo, pelo relógio de sol (Smart Yantra), de Jaipur, por meio do qual se pode medir o tempo com precisão de dois segundos.

Embora o príncipe indiano tenha reproduzido em seus observatórios desenhos conhecidos e utilizados anteriormente, seus projetos trouxeram importantes inovações arquitetônicas e instrumentais, segundo reconhece a Unesco no texto em que apresenta o Jantar Mantar de Jaipur como Patrimônio Mundial***. 

O texto realça ainda o fato do observatório de Jaipur  - que é o maior deles e o último a ficar pronto -  ter instrumentos capazes de trabalhar em cada um dos sistemas clássicos de coordenadas: o sistema local horizonte-zênite, o sistema equatorial e o sistema eclíptico.  Mais que isso: de possuir um instrumento, o Kapala Yantra, no qual se pode trabalhar em dois sistemas e transformar as coordenadas diretamente de um sistema para outro.

Apesar de todas essas qualidades, os observatórios de Jantar Mantar cometiam o 'pecado' de não possuir uma só luneta ou telescópio - o que, mesmo naqueles tempos, era considerado um atraso tecnológico, pelo menos para os astrônomos do Ocidente. 

Samrat Yantra - Jantar Mantar de Deli

Observatórios sem telescópios


O primeiro Jantar Mantar a ser erguido foi o de Deli, na época capital do Império Mongol. Uma placa fixada no observatório indica que sua construção é de 1710, mas pesquisadores afirmam que a obra só teria terminado em 1724. 

Nessa data já existiam grandes telescópios ópticos na Europa. A luneta de Galileu, primeira a ser usada para observação do céu, foi apresentada por ele em 1609, mais de um século antes. E Galileu não foi o primeiro:  seus equipamentos eram inspirados em um instrumento construído em 1608, pelo fabricante de lentes holandês Hans Lippershey , para a observação de objetos à distância

Por que razão esse príncipe indiano teria feito uma obra tão grandiosa e ao mesmo tão defasada em relação à tecnologia da época é uma pergunta que muitos tentam responder. Uma das versões pondera que no século 18 a comunicação entre Oriente e Ocidente era muito difícil. A segunda hipótese é de que o príncipe astrônomo não teria tomado conhecimento das novas tecnologias da época em consequência de questões religiosas de seus interlocutores ocidentais. Como os Brâmanes, que eram os encarregadas dos estudos na Índia, teriam se negado a atravessar o oceano temendo que com isso perdessem sua casta, Jai Singh teria sido obrigado a fazer contato com padres Jesuítas para que lhe enviassem informações. Esses, que discordavam das teorias heliocêntricas divulgadas pelos astrônomos europeus daquela época, teriam escondido a existência dos telescópios.
Misra Yantra - Jantar Mantar de Delhi

Há, ainda, quem afirme que tudo se deve a uma diferencia de perspectiva, pois os observatórios de Jantar Mantar teriam sido concebidos sob influência da Astronomia Islâmica e  dentro da tradição cosmológica do  grego Ptolomeu, que compreendia a ciência de forma integrada com a esfera do sagrado - o que  por si só já os distanciava dos caminhos ocidentais. 
Jai Prakash - Jantar Mantar de Delhi

Assim, sabendo ou não da existência dos telescópios, o príncipe astrônomo teria feito os observatórios da forma que fez porque os objetivos que o motivaram seriam plenamente atendidos por seus instrumentos de alvenaria. 

Um dos critérios apresentados pela Unesco para incluir o Jantar Mantar de Jaipur na Lista do Patrimônio Mundial parece reforçar essa última versão pois afirma que o observatório "é
 testemunha de antigas tradições cosmológicas, astronômicas e científicas, compartilhadas por um grande conjunto de religiões ocidentais, do Oriente Médio, da Ásia e da África, durante um período de mais de quinze séculos."

É interessante lembrar que no século 18, Astronomia e Astrologia eram aspectos de uma mesma ciência e, segundo alguns defensores dessa última  hipótese, o que os indianos aspiravam com os observatórios poderia ser classificado hoje dentro da Astrologia e não da Astronomia. Uma prova da estreita relação entre as duas ciências na época do Jantar Mantar está no observatório de Jaipur, onde há 12 unidades de um instrumento denominado Rasivalayas Yantra destinadas a verificar a posição de cada signo do zodíaco. 

Seja qual for a razão de se construir um observatório sem telescópios num momento em que a tecnologia óptica já existia, o fato é que, segundo pelo menos grande parte de seus comentadores, os equipamentos do Jantar Mantar alcançaram um excelência jamais vista em instrumentos a olho nu. 
 Mas essa é uma preocupação dos que são versados em Astronomia. Para os leigos, como eu, basta o prazer de entrar em contato com estruturas tão impressionantes, ter consciência da engenhosidade de seus autores e do possível significado cosmológico de suas medições.



* Sawai Jai construiu cinco observatórios nas seguintes cidades: Deli, Varanase, Ujain, Matura e Jaipur. O de Matura foi destruído ainda no século 18.
** Jaipur, atual capital do Rajastão, foi batizada assim em homenagem a Sawai Jai.
*** O Jantar Mantar de Jaipur foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em julho de 2010.



Jantar Mantar - Delhi e Jaipur - Índia 




Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: Sylvia Leite

Referências

Site da Unesco 
Site de Barry Perlus - Jantar Mantar

Obs: 
Esta matéria contou com a consultoria do astrônomo Flávio Alarsa nas questões referentes a Astronomia.
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14 comentários:

  1. Adorei. Nunca poderia imaginar algo assim. Realmente eu não tinha o conhecimento deste lugar. Obrigada Sylvia �� Teca Bussman

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    1. É surpreendente mesmo! Fiquei com vontade de conhecer os quatro, mas infelizmente só deu pra ir ao de Delhi. Cheguei na porta do de Jaipur, mas já estava fechado. Só deu pra ver através do portão. O bom disso é que tenho mais um motivo pra voltar à Índia.

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    1. Obrigada, Elisabeth. Toda quinta tem matéria nova no blog. Acompanhe!

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  3. Muito legal Silvinha. Jamais tive conhecimento sobre o assunto.

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    1. Eu também nunca tinha ouvido falar. Só soube que existia quando cheguei na Índia.

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  4. Bem interessante, Sylvinha! Também desconhecia a existência desses observatórios incríveis. A Índia, seus mistérios e espiritualidade sempre surpreendentes.
    Abraços,
    Val Cantanhede

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  5. É verdade. Tem muita coisa interessante por lá.

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  6. Nunca tinha ouvido falar de semelhantes construções. Que maravilha. Lugares de memória é um alento de energia positiva.

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    1. Eu também nunca tinha ouvido falar nesses observatórios antes de ir à Índia e, por sorte, tive acesso a essa informação e pude visitar um deles . Obrigada pelo comentário.

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