21/02/2019

Teatro Oficina: um templo de rebeldia na região central de São Paulo

O Teatro Oficina tem linhas visuais desafiadoras, assentos duros e nega inteiramente a forma que os teatros costumam ter, por isso é mais intenso.¹

A frase acima é parte de um texto publicado em dezembro de 2015 por Rowan Moore, crítico de Arquitetura do The Observer's - jornal dominical ligado ao inglês The Guardian - em matéria que apontava os 10 teatros "mais deslumbrantes do mundo".  O Oficina ficou em primeiro lugar, à frente dos consagrados Epidaurus, da Grécia, Grosses Schauspielhaus, da Alemanha, e National Theatre, da Inglaterra.

O prédio, projetado pelos arquitetos Lina Bo Bardi e Edson Elito, reflete e, ao mesmo tempo, possibilita a plena concretização de algumas das propostas centrais da companhia, e do seu diretor José Celso Martinez Corrêa - conhecido como Zé Celso - de romper limites, desafiar convenções e colocar o teatro em contato direto com o público. 


Em contraste com os teatros convencionais, onde os espectadores posicionam-se em frente ao palco, o Teatro Oficina integra tudo em um único espaço: uma espécie de rua estreita e comprida com galerias desmontáveis, que permite o deslocamento dos atores e do público, sem barreiras ou hierarquias, inserindo o espectador na própria cena.


Em uma das paredes, um janelão envidraçado integra o teatro à cidade e serve como pano de fundo a um jardim e a um segundo elemento de intermediação com o ambiente externo: uma árvore da espécie Cesalpina (ou Sibipuruna) que ultrapassa o pé direito do prédio.  


A estrutura física do Teatro Oficina elimina cenografia nos termos em que conhecemos e proporciona uma espécie de arquitetura cênica adaptável a cada peça, sempre integrando as esferas pública e privada, do teatro e da rua.


Teatro Oficina: patrimônio cultural brasileiro


A história do Teatro Oficina começa em 1961, quando estudantes da Faculdade do Largo de São Francisco (USP), liderados por José Celso , escolhem o bairro do Bixiga para instalar sua companhia, que já vinha atuando desde 1958. Eles consideravam o local antropofágico por ter absorvido traços culturais dos períodos colonial, quando foi área de quilombo, e pós-abolição, quando passou a abrigar imigrantes italianos.


José Celso Martinez Corrêa
O primeiro prédio, projetado por Joaquim Guedes, já trazia alguns dos elementos que hoje caracterizam o local, como a quebra da separação entre atores e espectadores. Após um incêndio ocorrido em 1966, o  teatro foi  reconstruído com projeto de Flávio Império e Rodrigo Lefévre, com paredes de tijolos e concreto sem revestimento. Seu tombamento pelo CONDEPHAAT, o conselho de Partrimônio Histórico e Cultural de São Paulo, ocorreu em 1983, antes mesmo da conclusão do prédio atual.

Desde o tombamento, o Teatro Oficina é um lugar público, sob administração do Uzyna Uzona - nome atual companhia dirigida por Zé Celso e, a partir de 2010, foi também considerado Patrimônio Nacional pelo IPHAN.

Contar a história do Oficina exigiria um livro, ou mais que isso. Ao longo de quase seis décadas, sua sede foi palco de movimentos políticos e de lutas pela manutenção do local, constantemente ameaçado pela especulação imobiliária. Foi, acima de tudo, palco de montagens teatrais que se tornaram históricas como "O rei da vela", de Oswald de Andrade, em 1967, ou As Bacantes, de Eurípedes, em 1996, ambas remontadas em 2018 e 2016 respectivamente. 

1- Tradução livre do texto em inglês.


Teatro Oficina - Bixiga - São Paulo -- São Paulo - Brasil


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 
(1 e 2): Site Elito Arquitetos
(3) Site Teatro Oficina
(4) Wilson Dias / Agencia Brasil - Licença CC BY 2.5 br


Referências:


Site do escritório Elito Arquitetos
Jornal The Guardian 
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    25 comentários:

    1. O Oficina,palco de tantas lutas contra a ditadura, permanece como referência de todos que anseiam por liberdade.
      Saudades daqueles bons encontros, mesmo nos tempos de chumbo...
      Abraços.
      Val Cantanhede

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    2. Gostei de conhecer o Teatro Oficina. Você descreve de uma maneira tão boa, que nos dá um conhecimento legal sobre ele. Parabéns.

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    3. Que interessante esse teatro oficina!! Achei muito legal, todo o conhecimento que você nos trouxe. O local realmente parece ter uma belíssima arquitetura

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      1. Vale a pena conhecer. De preferência assistindo uma peça para entender essa 'arquitetura viva', que se completa em interação com os atores e com o público.

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    4. Oi Sylvia! Muito interessante este texto sobre o o Teatro Oficina como um templo de rebeldia na região central de São Paulo. Já estive algumas vezes em São Paulo e não tive a oportunidade de conhecer o teatro.

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      1. Não deixe de ir. As peças costumam ser ótimas e o teatro é diferente de tudo que a gente conhece.

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    5. Gente, não sabia da existência do Teatro Oficina, juro. Não me surpreende que seja tão inovador e incomum, visto que Lina Bo Bardi foi uma das arquitetas. Adoraria ver esse templo de rebeldia de perto. Mais um lugar pra botar na lista em São Paulo.

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      1. Verdade, Fabíola, Lina realmente foi especial. E tão especial quanto ela é o diretor do Teatro Oficina, Zé Celso Martinez. Cada um em sua área.

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    6. Cada vez se faz mais importante a manutenção desses locais que prezam a cultura e contam sua história para as gerações futuras.

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    7. Que interessante esse post sobre esse templo de rebeldia! Não conhecia o Teatro Oficina. Gostei de ler!

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    8. Que bacana esse teatro oficina, não conhecia, gostei de saber .

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    9. Adorei conhecer o Teatro Oficina por você! Muito interessante esse lugar.

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    10. Não conhecia o Teatro Oficina e gostei muito de conhece-lo e conhecer a sua história. O modelo dele é muito diferente e interessante.

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      1. É diferente mesmo, Aline, e para você entender bem como funciona é legal assistir uma peça.

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    11. Muito legal conhecer a história do teatro oficina. Ja assisti peças nele mas nao conhecia detalhes

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      1. Que bom que gostou. Vole sempre. Toda quinta tem matéria nova no blog.

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    12. Nao conhecia esses detalhes sobre o teatro oficina. Adorei

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