28/02/2019

Gruta de Maquiné: um dos marcos iniciais da paleontologia brasileira

Em um de seus contos mais famosos, intitulado "O recado do morro"¹, o escritor Guimarães Rosa disse o seguinte sobre a Gruta de Maquiné, localizada em Cordisburgo², Minas Gerais, sua terra Natal: "... ali dentro a gente se esquecia numa admiração esquisita, mais forte que o juízo de cada um, com mais glória resplandecente do que uma festa, do que uma igreja..."

Quem já esteve na gruta, sabe que Rosa não exagerou. Mesmo com as passarelas criadas posteriormente para facilitar a passagem dos turistas, e com a iluminação artificial - elementos estranhos que  tiram parte da naturalidade do ambiente - visitar Maquiné é entrar em um mundo encantado de formas e cores. 


São sete salões repletos de esculturas naturais  talhadas pela água que parecem brotar do teto e do chão e são chamadas científicamente  de estalactites e 
estalagmites além de outras figuras que lembram colunas, cascatas ou animais. Sua constituição teria ocorrido mais de 500 milhões de anos atrás, na Era Neoproterozóica, quando o local, que hoje é sertão, ainda encontrava-se no fundo do mar, ou de um lago. 


A lenda da Gruta de Maquiné 


Isso é o que diz a Ciência, mas a beleza de Maquiné é explicada também por uma lenda que atribui a artistas anões a a autoria do espetáculo de cores e formas que a gruta oferece.


Conta-se que em um bosque muito bonito vivia um rei muito magro, magérrimo, que estava acostumado a ter tudo o que desejava e vivia exigindo de seus vassalos novas formas de diversão. Seus principais auxiliares eram o Gorducho, que o ajudava a locomover-se quando batia a fraqueza, e 13 anõezinhos artistas, que faziam música, pinturas, desenhos, esculturas e versos. 


Chegou um momento em que o rei não se satisfazia mais com o trabalho dos anõezinhos e resolveu pedir ao mágico que apresentasse alguma novidade. A sugestão que recebeu foi que viajasse, mas como ele era muito magro, e concluiu que se viajasse iria emagrecer mais ainda, exigiu do mágico que encontrasse uma forma de se transportar sem fazer esforço.


Depois de muito tempo pensando e recebendo cobranças do rei, o mágico encontrou a solução: um espelho mágico capaz de transportá-lo a qualquer lugar. Mas o mágico fez uma recomendação: o espelho tinha que ser muito bem cuidado durante as viagens porque se ele quebrasse o rei não conseguiria mais voltar para casa.


Ao saberem dos poderes mágicos do espelho, os anõezinhos e o Gorducho resolveram fugir do reino e no momento em que o rei ia iniciar sua primeira viagem, os catorze jogaram-se contra ele na esperança de irem também. Imediatamente, todos caíram em uma gruta.


Ao perceber que os anões e o Gorducho queriam fugir, o rei sacou sua espada para executá-los mas ao tentar atacá-los, o rei acabou quebrando o espelho e ninguém conseguiu mais voltar para casa.


Os anões, que eram artistas, juntaram-se ao Gorducho, que era forte, e começaram a abrir galerias e a decorar as paredes, pisos e tetos da gruta com pinturas e esculturas e foi assim que, segunda a lenda, nasceu a beleza da Gruta de Maquiné.




A descoberta da gruta no século 19



A gruta foi descoberta em 1825 pelo fazendeiro Joaquim Maria Maquiné, provavelmente um dos vários proprietários da região que buscavam grutas desconhecidas para extrair o salitre usado na fabricação de pólvora.

Apenas nove anos depois, Maquiné começou a ser explorada cientificamente pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, que acabou se tornando o pai da Paleontolgia e da Arqueologia no Brasil. 


Maquiné não foi a única gruta estudada por Lund, nem a primeira, mas certamente foi a que mais o impressionou, a julgar por esse conhecido comentário feito por ele: "A mais rica imaginação poética não saberia engendrar uma tão esplêndida morada para os seres maravilhosos; [...] confesso que, seja quanto à natureza, quanto à arte, jamais contemplei algo tão maravilhoso". 


Conta-se que Lund chegou a morar dentro da caverna pelo período de dois anos e ali encontrou fósseis de aves gigantes e de diversos mamíferos, entre os quais se destacam Tigre Dente de Sabre (Smilodon Populator) e a Preguiça Pequena (Nothrotherium Maquinensis). Há duas hipóteses para a presença desses fósseis em Maquiné: os animais teriam entrado na gruta para fugir de predadores ou seus corpos teriam sido arrastados até ali pela água. 



O Zoológico de Pedra


Pelo menos alguns dos animais cujos fósseis foram encontrados na Gruta de Maquiné estão representados na Praça Octacílio Negrão de Lima,  localizada  no centro de Cordisburgo, que é conhecida também pelo nome de Zoológico de Pedra Peter Lund.

São apenas seis imagens feitas com tela, areia e cimento pelo artista Stamar Azevedo. O Zoológico de Pedra não é um espaço fechado como o nome pode sugerir. Sequer tem uma área exclusiva para suas esculturas que convivem com árvores, um coreto e alguns equipamentos de ginástica. Mas impressiona pela surpresa de se encontrar espalhadas em uma praça, numa cidade do interior, esculturas de mamíferos que povoaram a nossa pré-história.


1 - "O recado do morro" é um dos contos do livro "Urubuquaquá no Pinhém", que compõe a trilogia Corpo de Baile. Os outros livros da trilogia são "Manuelzão e Miguilim" e "Noites do sertão"

2 - Você pode ler sobre Cordisburgo, a terra de Guimarães Rosa, no aqui blog.  Basta clicar e acessar a postagem.

Gruta de Maquiné - Cordisburgo - Minas Gerais - Brasil


16 comentários:

  1. Adorei a matéria e fiquei com vontade de conhecer essa gruta. Ainda mais com essa.historia e Guimarães Rosa circulando.Beijos

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    1. Pois é. Indo lá você pode conhecer também a Casa de Guimarães Rosa. E se for na Semana Rosiana participa de uma maratona literária. Já pensou?

      Leia a matéria

      https://www.lugaresdememoria.com.br/2018/07/cordisburgo-um-mergulho-no-grande.html

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  2. Adorei a matéria e fiquei com vontade de conhecer essa gruta. Ainda mais com essa.historia e Guimarães Rosa circulando.Beijos

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    1. Pois é. Indo lá você pode conhecer também a Casa de Guimarães Rosa. E se for na Semana Rosiana participa de uma maratona literária. Já pensou?

      Leia a matéria

      https://www.lugaresdememoria.com.br/2018/07/cordisburgo-um-mergulho-no-grande.html

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  3. Maravilhosa reportagem Silvinha !
    Adorei !!!!
    Beijos

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  4. Conheci a gruta na minha adolescência, não existia a atual infra-estrutura, era natural e linda. Não sabia a história da sua descoberta e tão pouco a lenda. Grato por me fazer lembrar de um lugar tão bonito.

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    1. Que sorte! Conheceu da melhor maneira! Eu que agradeço pela leitura e pelo comentário.

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  5. Mais um fantástico texto sobre uma de nossas maravilhas da natureza. Parabéns Sylvia. Augusta Leite Campos.

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Obrigada por seu interesse em nossa postagem!