31/01/2019

Segóvia: uma das moradas de São João da Cruz


BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Segóvia - Foto Pixabay
BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Segóvia - Foto PixabayA cidade espanhola de Segóvia costuma ser identificada turisticamente por seu enorme aqueduto romano, que reúne mais de 30 mil blocos de pedras e tem o título de Patrimônio Mundial da Unesco, ou  por seu alcázar, que muitos acreditam ter inspirado Walt Disney na construção do Castelo de Cinderela. Somente um desses monumentos já seria suficiente para justificar uma visita à cidade, mas antes de qualquer beleza arquitetônica, Segóvia possui patrimônio imaterial por ter sido uma das moradas do místico cristão São João da Cruz (San Juan de la Cruz).

A permanência de São João na cidade durou pouco mais de três anos, mas foi suficiente para garantir
que, séculos depois, Segóvia ganhasse a batalha travada com Úbeda, cidade onde faleceu, para abrigar seus restos mortais. O corpo parcialmente incorrupto do santo agora encontra-se em uma capela no convento dos Carmelitas Descalços. 

A importância dada à sua passagem por Segóvia deve-se, provavelmente, à criação desse convento por ele e por Santa Teresa D'Ávila. Naquele momento Segóvia era um importante centro econômico e Santa Tereza estava iniciando, com sua ajuda, a disseminação de uma nova doutrina espiritual.


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Alcázar de Segóvia

Segóvia abriga o nono convento

Antes de estabelecer-se em Segóvia, consta que São João acompanhou Santa Tereza D'Ávila na criação de 17 conventos de freiras e frades Carmelitas Descalços. Segóvia foi o nono lugar a receber um desses monastérios. A primeira foi Ávila, na província de mesmo nome onde nasceram os dois místicos: ela na própria cidade e ele no município de Fontiveros.

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Convento  dos Carmelitas descalços
Os carmelitas descalços foram chamados assim porque preocupavam-se em desfazer-se de todos os bens materiais chegando ao ponto de abrir mão do uso de sandálias, que era o calçado comum entre os religiosos da época.

Sua doutrina mística incluía três patamares ( há quem fale em quatro), que começavam com uma espécie de estado meditativo, marcado pela dissolução da vontade, e iam aprofundando-se até alcançar o arrebatamento total, quando a sensação de estar no corpo é totalmente eliminada.

Os votos de extrema pobreza e as práticas místicas dos carmelitas descalços provocaram críticas e até perseguições por parte dos carmelitas calçados (a ordem tradicional). São João da Cruz chegou a ser preso duas vezes nos conventos de Medina del Campo e Toledo. Durante a segunda detenção, resolveu dedicar-se à poesia mística e criou mentalmente, pois não tinha meios para escrever, as 31 primeiras estrofes do poema Cântico Espiritual.


O poeta São João da Cruz


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Tumba de São João da Cruz
Considerado o mais importante e representativo poema do místico espanhol, o "Cântico espiritual" narra a jornada da alma desde o despertar de seu amor por Deus até o matrimônio espiritual. 

¿Adónde te escondiste,
amado, y me dejaste con gemido?

Como el ciervo huiste,
habiéndome herido;
salí tras ti, clamando, y eras ido.

A um certo ponto do trajeto, a alma bebe o vinho da sabedoria divina e experimenta a embriaguez, que a faz esquecer tudo o que sabia até ali. 

En la interior bodega
de mi amado bebí, y cuando salía,
por toda aquesta vega,
ya cosa no sabía

y el ganado perdí que antes seguía.

Segóvia um reduto do Sufismo?


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Padrão geométrico na cúpula da tumba
O simbolismo do vinho e da sensualidade presentes nos versos de São João da Cruz foram muitas vezes mal interpretados, levando-o a ser acusado de heresia. Por outro lado, esses dois elementos aproximam seus poemas de expressões místicas das mais diversas tradições, entre as quais se inclui a própria Bíblia que, em seu Antigo Testamento, tem um livro dedicado à celebração do amor sexual entre dois amantes: o Cântico dos Cânticos.

Entre os poetas que também utilizaram as imagens do vinho e do amor sensual em suas obras encontram-se Ibn Arabi e Jalaludin Rumi, ambos filiados ao Sufismo, a tradição mística do Islã. Não há provas de que tenha havido qualquer contato entre São João da Cruz e os místicos sufis, mas inúmeros textos  afirmam a existência dessa relação. E, coincidentemente, a cúpula da capela onde encontram-se os seus restos mortais é decorada com um padrão geométrico inserido em um polígono de oito lados, que pode ser observado em inúmeros monumentos islâmicos.

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Igreja atribuída aos Templáros
Outro sinal que talvez possamos tomar como indício de que os sufis estiveram em Segóvia e, talvez por isso, em contato com São João da Cruz, é a existência na cidade de uma igreja atribuída aos Templários. Embora a Ordem dos Cavaleiros fosse uma instituição da Igreja Católica, um dos motivos que mais contribuíram para a sua extinção foi a acusação de que teriam relações muito próximas com místicos islâmicos. 

Seja qual for a resposta a essas dúvidas, nada irá tirar de Segóvia a condição de morada de São João da Cruz e os elementos que compõem sua trajetória podem nos ajudar a perceber a riqueza histórica da cidade e a não deixar escapar, durante a visita, as diferentes sensações que podem ser experimentadas em cada um desses lugares.

Segóvia - Província de Segóvia - Comunidade Autônoma de Castela e Leão - Espanha 


Texto: Sylvia Leite 
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 

Fotos: 
( 1,2 3 e7) Pixabay - licença CC0 
4, 5 e 6) Divulgação
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    24 comentários:

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      1. Obrigada. Só faltou deuxar seu none.Não esqueça da próxima vez, ok?

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    2. Maravilhoso esta semana. Aliás uma delícia ler seus escritos. Você transmite seu pensamento com uma leveza ímpar. Parabéns.

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      1. Muito obrigada! Adoraria saber a quem estou agraddcendo rsrs Da prôxima vez escreva seu nome antes ou depois do texto, ok?

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    3. Muito bom seu texto, Sylvinha. Conciso e abrangente, como é seu estilo, nos abre caminho para querer saber mais sobre São João da Cruz, Santa Tereza d'Ávila, Segóvia... haja tempo para perseguir todos os assuntos nos quais seu blog nos inicia.

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      1. Obrigada, Jane. Muito bom saber que está acompanhando o blog. Volte sempre. Beijos

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    4. Aprendi muito com esse texto sobre Segóvia. Santa Teresa D'Avila e São João da Cruz são grandes místicos da Igreja Catolica e é por demais interessante saber o quanto eles pensaram e viveram à frente de seu tempo.
      Augusta Leite Campos

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      1. Bom saber disso, Gusta. E bom também ter você como leitora assídua. Beijo

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    5. Mais um belo texto e como sempre trazendo informações mais que interessantes dos lugares indicados.

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      1. Obrigada, Neilton. Feliz por te encontrar aqui toda semana. Beijo

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    6. Mais uma postagem interessante e de excelente conteúdo. Segóvia é um lugar realmente incrível. Parabéns pela qualidade e diversidade da pesquisa, Sylvinha

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    7. Gostei muito Sylvia. Não conhecia tantos detalhes sobre São João da Cruz. Tudo bem descrito e detalhado, como sempre. O Cântico Espiritual, lindo. Santa Tereza D'Ávila e as Carmelitas Descalças, Cântico dos Cânticos,valeu prima, aprendi bastante . Parabéns.

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    8. Esqueci de falar sobre Segóvia, linda cidade.

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    9. Que deleite ler esse texto, Sylvinha!
      Muito interessante e factível a possibilidade de interlocução entre o grande místico católico e os sufis.
      Abraços,
      Val Cantanhede

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