03/01/2019

Cordel: um canal centenário com traços da comunicação atual

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA -  Matéria sobre Literatura de cordel - Foto Diego DacalQue o Ano Novo ilumine
Com paz e felicidade
Que o mundo evolua
E floresça a liberdade 

Que o Amor prevaleça
E haja mais boa vontade 


(Versos do Cordel do Ano Novo, de  Gustavo Dourado )

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA -  Matéria sobre Literatura de cordel Seja para comemorar datas festivas, narrar acontecimentos míticos, ou reais, contar "causos", informar, fazer crítica social, política ou de costumes, a Literatura de Cordel já foi, e continua sendo, um importante veículo de expressão e comunicação no Nordeste do Brasil, especialmente nas cidades do interior. 

São narrativas poéticas, muitas vezes irônicas ou sarcásticas, sempre em linguagem coloquial, marcadas por métrica e rima e impressas em forma de livretos. O nome Literatura de cordel veio da maneira como eram colocados à venda pendurados em barbantes (ou cordéis) e fixados com pregadores para não serem levados pelo vento. Junto com os repentes e outras narrativas poéticas, compõem o que se conhece como romanceiro popular*.


Os Cordéis e as redes

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Capa em Xilogravura

Com o duplo propósito de informar e divertir, os Cordéis, desde o início, já continham algumas das características que hoje encontramos nas redes sociais: funcionavam como uma espécie de veículo de expressão individual e constituíam um canal inteiramente acessível que podia ser usado por pessoas comuns, inclusive os iletrados, e não apenas por aqueles designados oficialmente para a comunicação e a literatura, como jornalistas e escritores.

Seus autores tinham contato direto com o público, pois eles mesmos se encarregavam da comercialização dos folhetos e desses encontros acabava resultando alguma interação.

Eram considerados veículos rápidos, com maior agilidade que os livros, revistas e jornais, pois bastava que fossem escritos e impressos em oficinas precárias para já estarem à venda nas feiras. Talvez a capa retardasse um pouco o processo, porque normalmente era feita em xilogravura, mas naquela época essa técnica era bastante difundida e os que escreviam seus Cordéis não tinham dificuldade de encontrar um artista que aceitasse produzi-la.

Os tempos mudaram e a Literatura de Cordel passou a competir com canais mais modernos. Por outro lado, ganhou uma nova dimensão. Do Nordeste, espalhou-se por todo o Brasil. Seus livretos, que eram vendidos somente em feiras livres, passaram a ser expostos e comercializados também em eventos e espaços culturais, livrarias e apresentações de cordelistas.

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Título de Patrimônio Cultural Brasileiro é aprovado por unanimidade
A edição, que comumente era feita pelos próprios autores, em papel barato e com impressão artesanal, hoje já ocorre também em editoras, especialmente em forma de antologias, ou de republicações.

Se antes era apenas um meio de comunicação popular, muitas vezes menosprezado nos ambientes intelectuais, hoje é visto como uma relevante forma de manifestação artística, a ponto de ter sido
reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Brasileiro.

A origem ibérica


O Cordel é patrimônio brasileiro, mas não nasceu aqui. Conta-se que já existia na época de fenícios e greco-romanos, mas os primeiros registros estão na Europa, especialmente na Península Ibérica, por volta do século 12, provavelmente ainda na forma oral e recitado pelos Trovadores. O início das impressões teria ocorrido a partir do Renascimento, por volta do século 16.

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA -  Matéria sobre Literatura de cordel Seus folhetos foram trazidos ao Brasil pelos colonizadores e aqui adquiriram traços da cultura local nordestina, incorporando novos temas, personagens e, segundo o poeta paraibano Bráulio Tavares*, adquirindo novas formas de estrofes, novas maneiras de organizar as rimas e diferenciando-se do romanceiro ibérico.

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA -  Matéria sobre Literatura de cordel Os cordéis brasileiros começaram a ser impressos somente na segunda metade do século 19.  E embora os primeiros exemplares europeus tenham chegado à Bahia, foi nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará que se concentrou a maior produção dos folhetos nacionais.

Até onde se sabe, quem primeiro os produziu no Brasil foi Leandro Gomes de Barros, conhecido como mestre de Pombal.


O primeiro cordelista brasileiro


Tido como o primeiro entre todos os cordelistas, escreveu cerca de 240 folhetos, alguns deles com milhares de exemplares vendidos. Era paulista de nascimento, mas vivia no Recife onde fundou uma gráfica que possibilitou a difusão de sua obra por todo o Nordeste.

Entre seus cordéis mais famosos estão "Batalha de Oliveiros com Ferrabraz" e "O Punhal e Palmatória". Esse último teria motivado sua prisão por conter versos que foram considerados uma afronta às autoridades.

Nós temos cinco governos
O primeiro o federal
O segundo o do Estado
Terceiro o municipal
O quarto a palmatória
E o quinto o velho punhal

(Estrofe do cordel "O Punhal e a Palmatória", que provocou a prisão do autor)

Patativa do Assaré


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Do século 19 até a década de 1970, quando o cordel atingiu sua fase áurea no interior do Nordeste, os cordelistas eram em geral pessoas do povo, em muitos casos iletradas, que escreviam seus folhetos da forma que falavam, diferente dos dias atuais, quando estudantes e escritores de sólida formação universitária também produzem Literatura de Cordel. 

Exemplo disso é o cordelista e repentista Patativa do Assaré, um dos mais consagrados do país. Antônio Gonçalves da Silva começou a vida artística como repentista, aos 16 anos de idade, quando ganhou uma viola da mãe. Ganhou esse nome artístico porque sua voz era comparada ao canto do pássaro Patativa e porque nasceu na cidade de Assaré, no interior do Ceará. 

A obra de Patativa foi divulgada pelo Brasil afora e ficou ainda mais conhecida quando o cordel "A Triste partida" foi gravado por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Outro poema de grande repercussão foi "Cante lá que eu canto cá":

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Poeta cantô de rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua, 

Que eu cando o sertão que é meu.

Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá.

(As duas primeiras estrofes do cordel Cante lá que eu canto cá)

Cordel e Repente


Assim como Patativa, muitos cordelistas foram também repentistas e a partir de certo momento passou a ser difícil diferenciar entre as duas expressões poéticas. Outro ponto de confusão era o fato dos cordelistas fazerem recitações, dramatizações e até acompanhamentos musicais para os textos a fim de chamar a atenção do público quando iam vender seus trabalhos nas feiras.

Além disso, existem várias coincidências. Ambos são manifestações populares expressas em versos, com rima e métrica. Geralmente tratam dos mesmos temas e divertem o público com sua ironia e humor sarcástico. Mas há também as diferenças.

O Repente é uma manifestação oral e de improviso, geralmente acompanhada por instrumentos musicais enquanto a Literatura de Cordel embora possa ser recitada, inclusive de forma cantada e com acompanhamento musical, sua concretização, pelo menos a partir de certo momento histórico, se dá com a impressão dos livretos, o que já lhe tira qualquer traço de improvisação.

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA -  Matéria sobre Literatura de cordel  - Foto Gustavo MouraO Cordel na obra de Ariano


A Literatura de Cordel influenciou vários escritores, compositores e até artistas de outras modalidades no Brasil, mas Ariano Suassuna talvez seja o que mais absorveu seus elementos, tanto no que escrevia como no que pregava.

Foi na juventude, pouco tempo antes de entrar para a universidade, que começou a aproximar sua poesia do Romanceiro popular (do qual a Literatura de Cordel seria uma das vertentes). Os elementos dessa arte mantinham grandes afinidades com os de sua formação básica, em Taperoá, interior da Paraíba, aonde viveu dos três aos quinze anos e absorveu o universo mágico e mítico do sertão. 

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA -  Matéria sobre Literatura de cordel Por causa dessa influência, Ariano acabou conhecendo a obra de Frederico García Lorca, também herdeiro do romanceiro europeu e, se identificou a tal ponto, que ele próprio reconhece a marca do mestre espanhol, e também do Cordel, em sua primeira peça teatral: Uma mulher vestida de sol.

"O auto da Compadecida", uma de suas peças mais conhecidas, teria sido inspirada por dois folhetos de cordel de autoria de Leandro Gomes de Barros: "O testamento do cachorro" e "O cavalo que defecava dinheiro".

A Literatura de cordel está presente, ainda, nos fundamentos do Movimento Armorial, que tinha o propósito de construir uma identidade brasileira a partir das culturas indígena, ibérica, africana e moura.

Liderado por Ariano Suassuna, esse movimento reuniu, na década de 1970, artistas das áreas de literatura, música, escultura, artes plásticas e teatro. A obra de Ariano que melhor representa o Movimento Armorial talvez seja "O Romance d'A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta", escrito ao longo de dez anos e publicado em 1971. 
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O livro é inspirado em um episódio ocorrido no interior de Pernambuco, em 1836, quando inocentes foram sacrificados por uma seita que acreditava estar lutando pela volta do rei português Dom Sebastião, desaparecido em uma batalha na África. A história traz elementos da Literatura de cordel, do repente e da embolada. 


Para ler e ouvir


A Literatura de cordel, como já ficou claro, tanto não é um lugar geográfico como sequer pode ser identificada com uma cidade ou estado, pois está distribuída por todo o país. Embora seja mais característica do Nordeste, é no Rio de Janeiro que está localizada a sua academia brasileira e a maioria das cordeltecas. Mas há outras também no Ceará, São Paulo, Paraíba e Piauí (ver lista).

Mas ainda é no interior nordestino que se pode encontrar cordéis à venda com maior facilidade e, quem der sorte, pode até ser surpreendido por uma recitação ou dramatização. Talvez seja também no Nordeste onde ocorre o maior número de eventos culturais envolvendo a Literatura de Cordel.


* Há quem considere a expressão Romanceiro popular como sinônimo de Literatura de Cordel.

Literatura de Cordel - Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará -Região Nordeste - Brasil


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos:
    (1)  Diego Dacal  Licença CC-BSA 2.0  
    (2, 3 e 10) Divulgação /Site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel  
    (4) Divulgação / Site do IPHAN  
    (6 e 8) Wikipedia CC SA-BY 4.0
    (5,7 e 11) Divulgação 
    (9) Gustavo Moura  (Fotógrafo voluntário)

    Referências:

    Sites: 
    Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste (CECORDEL)
    Academia Brasieleira de Literatura de Cordel

    Livro:
    Contando histórias em versos - Poesia e Romanceiro Popular n Brasil, de Bráulio Tavares

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    20 comentários:

    1. Excelente texto Silvia ! Embora conhecesse do tema, não sabia de algumas informações contidas na matéria ! Beijos

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    2. Excelente texto, apesar de ter nascidi, no sertão sergipano, lendo ee ouvind cordéis, não conhecia a história, parabéns Sílvia.

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    3. Ótimo texto, Sylvinha!!! Adorei saber mais sobre o cordel!

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    4. Ótimo texto, Sylvinha, com seus detalhes preciosos!
      Merecidamente, a literatura de cordel é reconhecida como patrimônio cultural do país.
      Val Cantanhede

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    5. ����������������������������
      Excelente Silvinha.

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    6. Excelente, Sylvinha! Você nos resgata uma forma de comunicação tão importante da literatura nordestina ! Obrigada, beijos e um Feliz Ano Novo! Rosalie

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    7. Silvia, muito bom seu artigo sobre a cultura do cordel. Seria fantástico se os internautas das redes tivessem 0,5 do talento e do conhecimento da língua dos poetas de cordel. Vida longa a seu blog! Mauro Bastos

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    8. Coisa mais linda é a literatura de cordel! adoro essa sabedoria popular que só o povo nordestino tem. Obrigada por compartilhar!

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      1. Eu que agradeço pela leitura e pelo comentário, Helaine. Toda quinta tem postagem nova no blog. Vai ser muito bom te encontrar por aqui semanalmente. Abraço!

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    9. Ótimos os lugares de memória, bom viajar assim! Obrigada e feliz 2019, Silvia! Abraços Tina

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      1. Eu que agradeço, Tina, pela leitura e pelo comentário. Feliz 2019 par você também!

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    Obrigada por seu interesse em nossa postagem!