20/12/2018

Casa de pedra: um mini Park Güel em Paraisópolis

Blog 'lugares de memória'- Matéria Casa de pedra - Foto Cristina GalloAs ideias estão aí, pairando no ar, e mais de uma pessoa pode introjetá-las, em diferentes épocas. Se não for assim, como explicar o fato de alguém ter construído um castelinho que parece obra de Gaudí, sem nunca ter ouvido uma só palavra sobre o artista catalão? Falo da Casa de Pedra, localizada em Paraisópolis - uma das maiores favelas de São Paulo.

Blog 'lugares de memória'- Matéria Casa de pedra - Foto Cristina GalloO autor e proprietário é o jardineiro, agora reconhecido como artista plástico, Estevão Silva da Conceição. Ele só queria uma casa com jardim, mas os 75m² de seu terreno não eram suficientes para comportar esse sonho. Depois de erguer uma armação de ferro e cimento para guiar uma roseira - que era a única planta da casa - teve a ideia de usar o mesmo tipo de estrutura na construção de um jardim suspenso.

Para dar vida às paredes e colunas, pois não gostava de olhar para o cimento cinza, Estevão foi incrustando pedras e todo tipo de objeto: pratos, canecos, máscaras. Aos poucos, esse universo foi se ampliando e vieram as imagens de santos, máquinas fotográficas, relógios, chaves e outros utensílios de metal.

Apesar de algumas peças estarem cortadas, ou quebradas, ele garante que tudo foi comprado em bazares e brechós, ou recebido de amigos. Nada é sucata. O resultado dessa equação é um castelinho encantado que lembra muito o Park Güell.

Blog 'lugares de memória'- Matéria Casa de pedra - Foto Cristina Gallo
Antes da Casa de Pedra

O autor da Casa de Pedra nasceu no sertão da Bahia e seu nome é o mesmo do santo que nomeia a cidade: Santo Estevão. Estudou um pouco, mas não ultrapassou o primeiro grau. Logo que se mudou para São Paulo, no final da década de 1970, trabalhou como servente de pedreiro, vigia e montador e viveu em alojamentos. Depois passou a ser porteiro e jardineiro. Foi nessa época que chegou a Paraisópolis.

Blog 'lugares de memória'- Matéria Casa de pedra - Foto Cristina GalloA Casa de Pedra começou a ser construída há cerca de três décadas, mas somente por volta de 2.000 é que foi descoberta por uma jornalista e uma estudante de arquitetura. Até alí, Estevão não tinha consciência de que seu jardim suspenso era um trabalho artístico e poderia atrair a atenção de pessoas do mundo inteiro.

Em pouco tempo, o jardineiro tornou-se conhecido como artista plástico e, em 2002, foi levado a Barcelona, com ajuda da Fundação Gaudí, para participar das comemorações pelos 150 anos do artista catalão. Ele conheceu a obra do seu antecessor, reconheceu a semelhança com a sua, e acabou ganhando o apelido de "Gaudí brasileiro".

Estevão também virou tema do documentário "Gaudí en la favela", de Sergio Oksman,
diretor  brasileiro que vive na Espanha há mais de 20 anos e teve sua obra apresentada no livro "Contando a arte de Estevão", do crítico Oscar D'Ambrosio, editado pela Sowilo Editora.

Ao voltar para o Brasil, transformou sua residência em museu e passou a cobrar entrada de quem quisesse conhecer o jardim suspenso. No começo, tudo era muito informal e nem sempre tinha gente
Blog 'lugares de memória'- Matéria Casa de pedra - Foto Cristina Gallo
em casa para receber os visitantes. Às vezes ele cobrava, outras vezes não. Hoje as visitas estão institucionalizadas e a Casa de Pedra faz parte do Circuito Paraisópolis das Artes.

Com a divulgação de seu trabalho, Estevão passou a ser procurado por pessoas que queriam ter peças suas e, para responder a essa demanda, ele começou a produzir vasos e outros objetos com o mesmo tipo de incrustação usada na casa.


As peculiaridades da Casa de Pedra


Blog 'lugares de memória'- Matéria Casa de pedra - Foto Divulgaão
Dois aspectos diferenciam a Casa de Pedra da maioria dos outros museus-casa: a primeira é que a construção em si é que constitui a obra do artista e a segunda é o fato do local continuar sendo sua residência, onde vive com a mulher, Edlene Souza Conceição e os filhos Stefana e Enrique. 

Os atrativos não param aí.  Embora com contornos mais delicados, os cômodos da casa também são repletos de pecinhas, tanto nas paredes como no teto. O quarto do casal parece uma tapeçaria, formada por frisos e estrelas.

Quem consegue escalar os patamares do jardim, tem a sensação de estar subindo em uma rede de árvores. Ao chegar lá em cima, a cerca de 8m do chão, encontra as  plantas que caracterizam o jardim suspenso. De quebra, pode observar a vista da favela e do vizinho Morumbi

Desbravar a Casa de pedra é uma experiência lúdica e estética. Daria para escrever muitas páginas, e descrever os detalhes, mas nada que se diga, ou mostre, vai expressar a sensação de explorar esse labirinto colorido.

Casa de pedra /Paraisópolis/ Morumbi/ São Paulo/ Brasil

Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos: (de 1  a 5 ) Cristina Gallo via Flikr -  Licença CC Creative Commons - Atribuição 2.0 genérica (CC B Genérica)

    Foto 6  (quarto do casal): Divulgação
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    Tilonia

    19 comentários:

    1. Adorei. Que criatividade. Tão perto de nós e eu não conhecia... Obrigada.

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    2. Super legal! O cara é arquiteto, engenheiro e decorador! Marina

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    3. Excelente a matéria Sylvia. Adotei conhecer a casa de Pedra.

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    4. Maria Auxiliadora fernandes20 de dezembro de 2018 18:17

      Que coisa extraordinária!!!! Que orgulho desse conterrâneo genial!!!! Nossa, fiquei acabeunhafa de conhecer Gaudí e não conhecer esse incrível artista brasileiro, baiano,pau de arara!

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    5. Animada a conhecer o local. Fantástico. Gratidão por compartilhar a informação.

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    6. Quanta beleza e criatividade do Estêvão! Lembrei-me das obras do sergipano Artur Bispo do Rosário.
      Parabéns pela matéria, Sylvinha!
      Abraços,
      Val Cantanhede

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    7. Que barato. Fiquei curioso. Mas acho que faz parte do teu objetivo mesmo.
      Brigado. Sempre fácil et gostoso de ler.
      Boas festas.
      Mil beijos.
      Joaquim

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      1. Não pensei nisso como objetivo, mas realmente é legal quando a matéria aguça a curiosidade das pessoas. Beijos

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    8. A casa de Pedra é a expressão do mistério da ilimitada capacidade artística e de superação do ser humano. Gostaria muito de visitá-la quando fosse a Sao Paulo.
      Augusta Leite Campos

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    9. Muito legal. Assisti algo sobre o tema mas, foi muito rápido. O texto nos dá uma visão mais ampla.

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