13/12/2018

Capela dos ossos: um alerta sobre a transitoriedade da vida

Blog 'lugares de memória'- matéria Capela dos ossos - Foto Sylvia LeiteÀ primeira vista, a mensagem pode assustar ou, por outro lado, parecer até uma brincadeira de mau gosto. Mas para os Franciscanos que a escreveram é apenas uma forma de lembrar a finitude da vida: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos" é a frase inscrita no portal de entrada da Capela dos Ossos que faz parte da Igreja de São Francisco de Assis - um dos pontos mais visitados de Évora, no Alentejo.

Essa conotação de brevidade da existência humana faz parte da capela desde a sua concepção mas, segundo se conta, a motivação dos frades teria sido também de ordem prática. Havia em Évora, no século 16, mais de 40 cemitérios monásticos e a cidade em expansão precisava daqueles espaços para outros fins. A solução encontrada pelos frades foi construir uma capela e decorá-la com as ossadas.

Calcula-se que esqueletos de aproximadamente 5 mil monges foram usados para forrar as quatro paredes e oito colunas da capela. As abóbadas não têm ossos, mas foram pintadas com motivos alusivos à morte.

Diferente do que se imagina, a aparência do lugar não é tenebrosa. Pelo contrário: como tudo é feito com uma preocupação estética, formando desenhos geométricos, acabamos mais impactados pelo fato de sabermos que as paredes estão cobertas por restos humanos, do que pela sua visão em si.

Blog 'lugares de memória'- matéria Capela dos ossos - Foto Sylvia LeiteUm convite à reflexão

Quem visita a capela, no entanto, não escapa à inquietude e à reflexão. Depois da leitura da frase de entrada, é difícil não lembrar, a cada momento, que mais cedo ou mais tarde seremos reduzidos a ossos.

Mas se para boa parte de nós, ocidentais modernos, pensamentos como esse podem provocar arrepios, para outras culturas, ou mesmo para a nossa no período medieval, refletir sobre a finitude da existência humana não tem ou tinha nada de assustador.

Na religião medieval, assim como na arte barroca, a morte está presente de forma marcante e é vista como algo inevitável, de modo que todas as escolhas devem ser feitas levando isso em conta. Por outro lado, é considerada não apenas o fim, mas principalmente o começo da vida eterna. E a consciência da fragilidade da vida terrena insere-se em um saber maior - o de que neste mundo tudo passa e, portanto, é inútil apegar-se a qualquer coisa.
Blog 'lugares de memória'- matéria Capela dos ossos - Foto Sylvia Leite

Costume medieval e franciscano


Embora inusitada, a Capela dos Ossos de Évora não é única. Entre os séculos 16 e 19, muitas foram construídas, especialmente no Sul da Europa, e algumas delas ainda estão preservadas. Somente em Portugal, existem pelo menos mais cinco, todas nas regiões do Alentejo e Algarve, e há outras tantas na República Checa.  Acredita-se que a mais antiga seja a Casa dos crânios, na Capela de São Trifônio, que está localizada no Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina, ao pé do Monte Sinai, no Egito.

Blog 'lugares de memória'- matéria Capela dos ossos - Foto Sylvia LeiteNão se sabe ao certo quantas chegaram a existir, mas segundo estudiosos do tema as capelas de ossos eram comuns na Idade Média. Sua razão de ser provavelmente era semelhante à de Évora, isto é, servir como alternativa aos cemitérios monásticos e provocar uma reflexão sobre a transitoriedade da vida.

Esse propósito de alertar para a fragilidade do universo material é atribuído por pesquisadores aos Franciscanos, que viviam na pobreza e pregavam o desapego. Acredita-se, inclusive, que os locais onde se construíram mais capelas de ossos e, principalmente, onde elas foram melhor preservadas, tenham sido as regiões com grande influência dos seguidores de São Francisco.


Capela dos ossos - Évora - Alentejo - Portugal


Texto: Sylvia Leite
Jornalista - MTB: 335 DRT-SE / Linkedin / Lattes 
    Fotos: Sylvia Leite

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    Tilonia

    12 comentários:

    1. Na República Tcheca em Kutna Hora,cidade perto de Praga, também tem uma capela de ossos

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      1. Sim. Até onde sabe são os dois lugares onde restam mais capelas de ossos Portugal e Republica Checa. Da próxima vez, escreva seu nome ao fim da mensagem, É legal saber quem comentou e a quem devo agradecer rsrs. Abraço

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    2. Estivemos nesse lugar, juntos... Uma visita inesquecível.

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      1. Obrigada! A quem devo agradecer? rsrs Da próxima vez lembre de escrever seu nome após o comentário, ok?

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    4. É muito bacana mesmo essa capela.
      Quando ví, achei muito interessante a desmistificação do corpo humano. A reutilização da matéria é muito legal.
      Fico imaginando, nesse tempo neo-arcaico que estamos entrando, se algum arquiteto lança um projeto assim ...
      Évora é uma cidade improvável.
      Beijo
      Joaquim Sobral

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      1. Muito legal a sua observação. Quem sabe algum arquiteto encara o desafio? beijo

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    5. Conheço a Capela e fiquei impressionada,mas vale a pena saber que um dia seremos ossos, é bom lembrar.

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      1. Esqueceu de assinar o comentário, né? Pena, mas agradeço assim mesmo, sem saber a quem rsrsr

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    6. Tive a oportunidade de conhecer. Serve para uma grande reflexão, uma viagem mesmo no nosso iinterior,conciencia. Fica a dica: Nos tornarmos humanos mas humanos!!!

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      1. Valeu, mas não sei a quem agradecer o comentário. Da próxima vez não deixe de escrever seu nome, ok?

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